O dia em que um zagueiro corintiano quase tirou Pelé da Copa de 58

Pelé em 1958. Por pouco ele não foi à Copa do Mundo da Suécia. Foto: Emilio Ronchini/Mondadori via Getty Images
Pelé em 1958. Por pouco ele não foi à Copa do Mundo da Suécia. Foto: Emilio Ronchini/Mondadori via Getty Images

Era uma noite de 21 de maio de 1958. Faltavam dezenove dias para o início da Copa da Suécia, disputada de 10 a 29 de junho.

A Seleção Brasileira enfrentava o Corinthians, em um amistoso preparativo para o mundial, no Pacaembu.

O estádio estava lotado.

As maiores estrelas do Corinthians eram os atacantes Luizinho, o Pequeno Polegar, e Bataglia, o Cabecinha de Ouro.

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A seleção tinha nomes já badalados em seus clubes, como Gilmar, Djalma Santos, Belini, Nilton Santos, Didi, Garrincha e Pepe.

E o menino Pelé que, aos 17 anos, começava a dar sinais de que seria um grande jogador.

Era uma promissora revelação do Santos.

A torcida do Corinthians estava revoltada com a CBD, que só passaria a ser chamada de CBF em 1979.

Exigia a convocação do atacante Luizinho.

O “Pequeno Polegar” era um driblador nato, que costumava levar a já fiel torcida corintiana à loucura, com a sua facilidade de driblar seus marcadores e fazer gols antológicos nas tardes e noites do Pacaembu, que já havia sido “adotado” como a casa corintiana.

O fato é que Luizinho não foi convocado.

O seu lugar foi ocupado por Mané Garrincha, que seria uma das grandes atrações da conquista brasileira na Suécia.

Mas quem saiu do Brasil como titular da ponta direita foi Joel, que só perdeu a posição para Garrincha no terceiro jogo.

Com o amistoso, que não tinha nada de amistoso, já definido, estava 3 a 0 pra o Brasil, Ari Clemente, um vigoroso zagueiro e lateral, que posteriormente seria vendido pelo Corinthians ao Bangu, deu uma entrada violenta em Pelé, que saiu do gramado do Pacaembu chorando muito e consolado pelo massagista Mário Américo.

A contusão no tornozelo era grave, principalmente porque na época os métodos de recuperação eram precários.

Pelé foi para a Suécia sem poder firmar o pé direito no chão.

Parte da comissão técnica queria que Pelé fosse cortado para que a CBD pudesse convocar um substituto.

Quem bancou a permanência de Pelé foi o massagista Mário Américo.

Prometeu, e cumpriu, fazer um tratamento diário, quase 24 horas por dia, no tornozelo bastante inchado do futuro rei do futebol e Atleta do Século.

Sem os aparelhos sofisticados disponíveis atualmente, Mário Américo dispunha apenas de gelo e toalha quente.

O tratamento era dolorido.

E cansativo.

Exigia que ambos, jogador e massagista, ficassem várias noites sem dormir.

O inchaço só diminuiu na véspera do jogo com a antiga União Soviética, o terceiro da Seleção Brasileira na Copa de 1958.

Nas duas primeiras partidas, a seleção dirigida por Vicente Feola ganhou da Áustria por 3 a 0 e empatou com a Inglaterra, 0 a 0.

Contra a União Soviética, entraram Pelé, na vaga de Mazzola, Zito, no lugar de Dino Sani, e Garrincha, para a saída de Joel.

Pelé durante partida contra a França pela Copa do Mundo de 1958. Foto:  Barratts/PA Images via Getty Images
Pelé durante partida contra a França pela Copa do Mundo de 1958. Foto: Barratts/PA Images via Getty Images

O Brasil venceu por 2 a 0.

Dois gols de Vavá.

Pelé não fez gol, mas o rendimento da equipe, com as substituições, melhorou muito.

O destaque da partida foi Garrincha, que infernizou o chamado “futebol científico” da União Soviética, a Rússia dos dias atuais.

No jogo seguinte, diante do País de Gales, o menino Pelé foi a sensação.

O jogo estava muito difícil, com o País de Gales atuando defensivamente e dando alguns sustos quando ia ao ataque, quando Pelé recebeu uma bola do na entrada área, girou o corpo, deu um chapéu no zagueiro e chutou na saída do goleiro.

Um golaço.

Pronto, o mundo conheceu ali a genialidade daquele garoto, ainda magrinho, que seria celebrado como o maior jogador de futebol de todos os tempos e aclamado o novo Rei da bola mundial.

Só no Mundial da Suécia Pelé marcou seis gols.

Foram doze gols nas quatros copas do mundo que disputou.

Só não disputou a Copa de 74, na Alemanha, porque resolveu encerrar a sua carreira na Seleção Brasileira aos 29 anos de idade.

Pelé ainda é o maior artilheiro da Seleção Brasileira, com 77 gols em 92 jogos disputados.

Embora nunca tenha sido um atacante de ofício, ele era meia esquerda, Pelé marcou 1283 gols na carreira.

Foi cinco vezes campeão do mundo.

Três vezes pela Seleção Brasileira e duas pelo Santos.

Junto com Ronaldo Fenômeno e Neymar, Pelé marcou gols em todos os mundiais que disputou.

Em 1958, na Suécia, em 1962, no Chile, na Inglaterra, em 1966, e em 1970, na Itália, quando sagrou-se tricampeão do mundo com a Seleção Brasileira.