O dia em que Serginho Chulapa quis bater em Edinho na Copa de 1982

Serginho Chulapa durante o fatídico Brasil x Itália em 1982. Foto: Mark Leech/Getty Images
Serginho Chulapa durante o fatídico Brasil x Itália em 1982. Foto: Mark Leech/Getty Images

Após a estreia brasileira na Copa do Catar, viralizou nas mídias sociais o abraço que o atacante Richarlison deu no Neymar.

O “pombo” dá um abraço apertado no astro do PSG. As imagens, e fotos, mostram que Neymar recebe o carinhoso abraço de forma fria, distante.

E mantém os dois braços rentes ao corpo.

Inerte.

A impressão que dava para quem via as imagens era a de que Neymar não estava dando a menor importância para o afago do companheiro de Seleção Brasileira.

Logo surgiram os comentários de que Neymar e Richarlison não nutrem grande amizade um pelo outro.

Será?

Neymar, acostumado a ser o astro principal da equipe, naquele jogo, foi obrigado a ver Richarlison sair de campo com todas as glórias, após o bolaço que marcou, de voleio, o segundo do Brasil.

Não se sabe se os comentários são maldosos ou se realmente os dois não se entendem.

O certo é que o corpo fala.

A linguagem do corpo muitas vezes é mais esclarecedora do que mil palavras.

Do que mil ações.

E Neymar, as imagens mostram, não estava muito disposto a retribuir o afago de Richarlison com o mesmo carinho.

O abraço de Richarlison em Neymar. Foto: James Williamson - AMA/Getty Images
O abraço de Richarlison em Neymar. Foto: James Williamson - AMA/Getty Images

A pergunta que fica é: existe uma perfeita harmonia neste grupo de jogadores que está disputando o mundial do Catar?

Pode ser que sim.

Mas a harmonia nem sempre reinou entre os jogadores, brasileiros e estrangeiros, nos mundiais.

A Seleção Brasileira que disputou o Mundial da Itália, em 1990, não primava pela união. Isso já foi dito pelos próprios jogadores que estiveram na copa em que a Argentina eliminou o Brasil, com gol de Caniggia, após passe de Maradona.

A seleção de 82, aquela, comandada por Telê Santana, que deu espetáculos em campo, mas foi eliminada pela Itália, também não era um exemplo de harmonia.

Os atacantes Careca e Serginho Chulapa, que estavam no grupo formado por Telê Santana, falam de um episódio que prova que aquele time, tido como um dos melhores que o futebol brasileiro já formou nas disputas por mundiais, não era unido.

No livro "O artilheiro indomável, as incríveis histórias de Serginho Chulapa", Careca diz como era o relacionamento entre Serginho e o zagueiro Edinho.

“Eu, o Serginho e o Eder fazíamos a corrida devagar, quase parando. O Edinho passou e provocou: ‘E aí, negão, vai ou não vai’?

O Serginho ficou furioso e correu atrás do Edinho. Só não bateu nele porque os outros jogadores não deixaram. O Serginho era verdadeiro e o Edinho gostava de ficar no meio dos diretores. E nem titular ele era. O titular da quarta zaga era o Luizinho. Nunca tive relacionamento com o Edinho. Ele jogava no Rio e eu em São Paulo. É sempre assim: Em todos os lugares formam-se grupinhos. E o Edinho não era da nossa turma na Copa de 82. A verdade é que o Edinho queria impressionar a comissão técnica e quase apanhou do Serginho. Mas o Telê sabia que eu, o Serginho e o Éder não gostávamos de treinar, mas nos jogos, a gente dava tudo o que tinha para dar”, relata Careca.

Zagueiro Edinho em treino do Brasil para a Copa de 1982. Foto: Mark Leech/Offside via Getty Images
Zagueiro Edinho em treino do Brasil para a Copa de 1982. Foto: Mark Leech/Offside via Getty Images

Serginho confirma o relato de Careca.

“O Edinho ia apanhar. Só não apanhou porque os outros jogadores não deixaram”.

E faz ressalvas quanto ao ambiente daquela seleção.

“A falta de união foi o motivo de a gente não ter respeitado a Itália, não ter jogado com o regulamento (O Brasil jogava pelo empate, e perdeu por 3 a 2). Se eu pudesse voltar no tempo, iria jogar do mesmo jeito que sempre joguei, da minha maneira, do jeito que eu gostava de jogar. Aquele time tinha muito jogador técnico e fiquei órfão. Além disso havia o grupo dos paulistas, o dos cariocas, o dos gaúchos. Total desunião”, recorda ele, referindo-se à seleção que foi celebrada pelos brasileiros como a que dava shows e que teria sido desclassificada da competição de maneira injusta, pela Itália de Paolo Rossi.

“Não havia união. Tinha até jogador que torcia contra, como o Edinho. O Edinho não é e nunca foi meu amigo. O Edinho era o leva e traz do Telê Santana. Todo mundo no grupo sabia disso”, afirma Chulapa.

Na época, Edinho disse para a imprensa que Serginho e Éder tinham contratos com empresas de publicidade e que na hora dos gols, corriam para as placas. Assim, ganhavam uns trocados, cerca de 500 cruzeiros na época.

Serginho nega tais “contratos”.

“Não teve nada de placa”.

Edinho confirma que foi ameaçado por Serginho.

Mas avisa que não quer responder ao ex-atacante do São Paulo e do Santos.

“O que o Serginho fala é opinião dele. Só digo o seguinte: Ele diz que eu era o leva e traz do Telê Santana. Como ia fazer isso se o Telê não gostava nem que os jogadores chegassem perto dele? Se tem algum treinador que deixa qualquer jogador fazer fofoca, o erro é do treinador”, afirmou Edinho que, depois que parou de jogar foi comentarista do SporTV, treinador de futebol e atualmente é empresário de jogadores.

Os depoimentos de Serginho, Careca e Edinho escancaram o que muitos desconfiam.

Algumas seleções e times de futebol são autênticas redes de intriga.

Se a Seleção Brasileira que está no Catar também é desunida, e formada por vários grupos, que não se entendem, fica difícil saber.

Só saberemos se algum integrante do grupo resolver tornar públicas as desavenças internas.