O dia em que Amarildo entrou na vaga de Pelé e virou personagem de Nelson Rodrigues

Amarildo comemora vitória do Brasil sobre a Espanha na Copa de 1962. Foto: Allsport/Hulton
Amarildo comemora vitória do Brasil sobre a Espanha na Copa de 1962. Foto: Allsport/Hulton

“Feliz um povo que, na vaga de um gênio, põe outro gênio”. A frase é do escritor, jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues. Foi ele o criador do possesso. O possesso de Nelson Rodrigues foi Amarildo. O atacante do Botafogo assumiu a posição de Pelé, contundido, e, junto com o outro botafoguense Garrincha, foi um dos grandes destaques da conquista do bicampeonato mundial pela Seleção Brasileira, na Copa de 62, no Chile.

Pelé saiu contundido no segundo jogo do Brasil no mundial, no empate em 0 a 0, contra a Tchecoslováquia, atual República Tcheca, disputado dia 2 de junho de 1962.

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Pelé havia sido importantíssimo na vitória sobre o México, por 2 a 0, na estreia da seleção na copa do Chile. Fez o cruzamento para o primeiro gol, marcado por Zagallo, e marcou o segundo, após uma arrancada pelo lado direito. Partiu em velocidade, deixou três marcadores para trás e fez um golaço, de pé esquerdo.

Contra a Tchecoslováquia – que depois faria a final contra os brasileiros -, Pelé se contundiu ao chutar de fora da área. No lance, a bola explodiu na trave dos tchecos.

No filme Pele Eterno, Pelé falou sobre a sua contusão.

“Quando chutei forte e a bola bateu na trave, eu senti uma forte dor na coxa da perna direita. A dor foi forte. E na hora eu vi que não jogaria mais nenhum jogo daquela Copa. Fiquei muito triste”, disse. O Rei.

O próximo jogo já era pelas oitavas-de-final da competição. O Brasil enfrentou a Espanha. Foi neste jogo que o lateral-esquerdo Nilton Santos cometeu pênalti e, para enganar a arbitragem, deu dois passos para frente, saindo da área.

O árbitro do jogo não apitou o pênalti. Marcou falta. Na cobrança da falta, Puskas, húngaro naturalizado espanhol, marcou um golaço, que foi anulado pelo árbitro, o chileno Sérgio Bustamante. Ele enxergou jogo perigoso, que não existiu, como as imagens do Youtube mostram.

O jogo foi 2 a 1 para o Brasil.

Abelardo abriu a contagem para os espanhóis.

Amarildo, o possesso de Nelson Rodrigues, marcou os dois gols brasileiros. Outra figura de destaque nesta partida foi Garrincha, que enlouqueceu a seleção da Espanha.

Foi de Garrincha, o maior destaque da conquista do bicampeonato mundial, o cruzamento para Amarildo fazer o segundo gol. Antes, Amarildo já havia aproveitado um cruzamento da esquerda, de Zagallo, para empatar a partida.

Nelson Rodrigues escreveu em seu livro À sombra das chuteiras imortais:

“Após o jogo, os colegas de redação me cumprimentaram, como se eu fosse o autor de Amarildo. Tive de retificar. O autor de Amarildo é Dostoievski. E, realmente, nunca vi na vida real um sujeito tão possesso e, por carambola, dostoievskiano”.

O Brasil não terá Neymar contra a Suíça e Camarões. Talvez só retorne aos gramados nas oitavas-de-finais, caso o Brasil siga em frente no mundial, claro.

Contra a Suíça, quem será o possesso de Tite?

Rodrygo, que no Real Madrid vem se notabilizando em atuar em várias posições do ataque e dando vitórias ao time do técnico Carlo Ancelotti?

O possesso de Tite será Vinícius Jr?

Everton Ribeiro?

Mesmo sem a genialidade do Rei Pelé, é indiscutível a importância de Neymar para a Seleção Brasileira. O astro do PSG é o jogador brasileiro que mais preocupa os adversários.

Sua ausência pode motivar a seleção da Suíça a atacar.

Sessenta anos depois, o Brasil busca o seu novo possesso.