O acesso à informação acabou com a graça de ser um torcedor?

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(Michael Wagstaffe/Yahoo Sports illustration)
(Michael Wagstaffe/Yahoo Sports illustration)

Por Kevin Kaduk

Durante esta última década, eu festejei a explosão das análises estatísticas no mundo do esporte.

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Usei o FIP para construir o meu time de Fantasy Baseball, aprendi CORSI para dissecar os jogos de hockey, e devorei tudo do Pro Football Focus que pudesse me ajudar a entender melhor o jogo de futebol americano que eu havia acabado de passar três horas assistindo.

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Sou leitor devoto do FanGraphs, comprador anual do Baseball Prospectus, e assinante de dois sites focados em fantasy.

Ainda assim, imagino que eu me sentiria melhor sendo um torcedor de esportes – do tipo que vive e morre com cada touchdown, home run e gol – sem números.

Talvez todas estas abordagens avançadas e computadorizadas relacionadas aos jogos estejam se tornando boas demais em suas análises preditivas.

Talvez os computadores estejam acabando com o verdadeiro atrativo dos esportes, com as chances e esperanças para a próxima temporada e o simples prazer de assistir a uma vitória do seu time.

Não me leve a mal: este não é um protesto contra as análises estatísticas onde me junto a pessoas como Joe Morgan e Don Cherry, cantando “We Are Family” até sermos criticados por uma máfia de usuários do Twitter com suas calculadoras em mãos.

Mas talvez realmente exista um custo na jornada dos gestores de esportes e dos torcedores para acabar cada vez mais com a graça dos palpites em relação aos jogos.

Então, as perguntas que quero fazer são as seguintes:

Estamos apagando a alegria do esporte, conforme as análises ficam cada vez melhores ao prever os resultados antes mesmo da jornada começar?

Será que a ignorância realmente é uma dádiva?

Os que entrarem aqui devem abandonar toda a esperança

Vamos analisar o mercado de Chicago, por exemplo.

  • No começo da temporada, o PECOTA do Baseball Prospectus projetou que os Cubs venceriam apenas 79 partidas, uma queda significativa em comparação com as 95 que eles ganharam em 2018. Os torcedores da equipe reclamaram, mas os números mostraram o que eles não queriam admitir em voz alta. Embora a equipe tenha começado com 29-18 e se mantido nas principais posições da NL Central até o final de agosto, os obstáculos que eles tiveram que enfrentar – uma falta óbvia de profundidade no banco de reservas e algumas lesões – finalmente os alcançaram. Tropeços no mês de setembro deixaram os Cubs com apenas 84 vitórias no total.

    (É importante destacar que o PECOTA não acertou tudo em 2019. Os A’s, Twins e Braves superaram suas projeções para este ano em 12 ou mais vitórias).

  • Após uma campanha surpreendente com 12 vitórias em 2018, os torcedores dos Bears estavam animados com as possibilidades para a temporada de 2019. No entanto, cada análise prévia divulgada na mídia ao longo do verão serviu como o equivalente a um banho de água fria. Entre a lesão de Mitchell Trubisky e a probabilidade de que a defesa não force 36 turnovers outra vez, muitos especialistas apostam que os Bears terminarão a temporada com 8-10 vitórias. Isso não parece um bom número para uma equipe com o sonho de chegar ao Super Bowl. Embora eles tenham começado com um 3-2, os torcedores do Bears vão ficar preocupados durante toda a temporada.

  • Finalmente, temos os Blackhawks. Ainda que a primeira metade desta década tenha rendido três Stanley Cups em seis tentativas, a equipe pode acabar fechando três temporadas seguidas sem ir aos playoffs, com uma defesa mais lenta que está envelhecendo. A chegada de dois novos defensores nesta offseason deveria fazer com que os Blackhawks conseguissem voltar à pós-temporada, mas a maioria das projeções ainda os posiciona na linha de corte dos playoffs, na melhor hipótese. Muitos blogs liderados por torcedores acreditam que há poucas razões para ter esperança.

Mesmo que você não seja torcedor das equipes de Chicago, talvez consiga se identificar com alguma destas situações. É bem possível que, em alguns momentos do seu passado, você não tenha podido apreciar ao máximo uma sequência de vitórias do seu time por acreditar que as previsões pessimistas se concretizariam.

Ou, caso você estivesse cheio de esperança, a mesma diminuía um pouco mais toda vez que você lia um artigo cheio de alertas sobre o quão insustentável era a situação positiva da sua equipe. As análises estatísticas acabam com os “talvez” e os “e se” que fazem com que ser um torcedor de esportes seja tão divertido.

Qual é a conclusão?

Novamente, esta não é uma reclamação contra as análises estatísticas. Os números podem apenas confirmar ou refutar as nossas noções como torcedores. Os mais observadores identificaram as deficiências subjacentes desde que o Moneyball deu início a uma revolução. No fim das contas, a má gestão de uma equipe esportiva pode, sozinha, acabar com a esperança dos torcedores por décadas.

Além disso, não há nada que possamos fazer para impedir o progresso. Não devemos nem tentar, se quisermos que os nossos times ganhem (supondo que eles estão entre os melhores).

Mas qual é a conclusão de tudo isso? As análises fora de campo de jogadores nas “fazendas” da MLB se tornaram tão boas que o FiveThirtyEight está questionando a necessidade das ligas menores de baseball.

Se você não precisa nem das partidas para dizer quem é um bom jogador, vai chegar um momento em que não vamos mais precisar assistir ao desenrolar das temporadas para saber quais times são bons o suficiente para chegar aos playoffs.

Se você trata o esporte como uma via de escape que permite afastar a racionalidade e a razão presentes no dia a dia, os números atrapalham este propósito.

É claro que toda regra tem exceção.

Voltando a Chicago, as previsões diziam que o Cubs de 2015 ia vencer 82 partidas; mas eles decolaram na segunda metade da temporada e ganharam 97 jogos, dando início a uma era que, segundo os números, só ia chegar dentro de um ou dois anos.

Do outro lado da cidade, as previsões do PECOTA diziam que os White Sox de 2005 ganhariam 80-82 partidas após a equipe ter dispensado Carlos Lee e Magglio Ordonez na offseason.

Em vez disso, os White Sox ganharam 99 jogos na temporada regular e tiveram uma pós-temporada incrível, ganhando seu primeiro título da World Series em 88 anos.

É aqui que o crescimento das análises estatísticas pode ter tido um impacto tangível no que era possível para aquele time dos White Sox.

Embora a impressão em relação aos White Sox de 2005 fosse de que a equipe estava usando a estratégia “small ball” de Ozzie Guillen ao não trazer Lee ou Ordonez de volta, a verdade é que o dono, Jerry Reinsdorf, provavelmente também não queria pagar seus salários. Foi a partir desse desejo que surgiu um time que conseguiu tirar anos incríveis de um grupo de jogadores titulares veteranos e um banco de reservas cheio de braços com carreiras significativas.

Se a mesma estratégia fosse implementada 14 anos depois, qual seria a chance de que os White Sox mantivessem os veteranos que tornaram a vitória possível? Certas ou erradas, as análises estatísticas de hoje apontariam que toda a equipe deveria ser trocada. Paul Konerko poderia ter sido substituído por um conjunto de prospectos; Jermaine Dye e AJ Pierzynski poderiam nunca ter recebido ofertas de contratos.

Buscando um equilíbrio saudável

No futuro, o desafio para qualquer fã de esportes é aprender a reconciliar os dois lados.

Lembro-me de setembro de 2011. Os Red Sox começaram o mês com uma liderança de nove jogos na corrida pelo wild card e um lugar na pós-temporada praticamente garantido.

Mas aí o Tampa Bay Rays começou a ganhar vários jogos. Os Red Sox começaram a perder muito. Aquela vantagem de nove partidas começou a derreter.

Com cada jogo, os leitores perguntavam aos analistas dos melhores sites sobre as chances de que os Rays conseguissem o impossível. Eles sempre recebiam uma resposta condescendente e eram direcionados para o Coolstandings, onde a chance dos Rays chegarem aos playoffs era estimada em 0,5%.

Mas não era 0%, e mesmo que eu não seja torcedor dos Rays, escolhi torcer para o Red Sox tropeçar. Conforme a chance dos Rays aumentava todos os dias no Coolstandings, a minha esperança crescia junto.

Enquanto isso, os especialistas em análises continuavam dizendo que era impossível e que qualquer um que acreditasse nessa possibilidade era um idiota.

No fim, os Rays realmente alcançaram o Red Sox, e Evan Longoria conseguiu seu famoso home run na noite do jogo 162. Eu ainda acho que quem passou o mês torcendo pela sequência dos Rays, se divertiu muito mais do que os que se deixaram dominar pela lógica. Eu cancelei a minha assinatura da newsletter do analista em questão por causa do seu posicionamento hostil, e encontrei outros autores com uma visão mais equilibrada do esporte.

Não é mais tão fácil se perder no espetáculo puro dos esportes, principalmente porque as análises tornam-se cada vez mais destaques nas coberturas esportivas e as falhas tornaram-se mais aceitáveis.

Ainda assim, vale pena fazer o esforço quando a primeira bola é lançada. Ainda há muita diversão no velho ditado que diz: “Jogar é a única maneira de saber quem vai ganhar”.

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