Depois de Moro, Mandetta e Regina, vem aí a novela Decotelli

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O professor Carlos Alberto Decotelli, que teve a posse adiada no Ministério da Educação. Foto: Divulgação/PR
O professor Carlos Alberto Decotelli, que teve a posse adiada no Ministério da Educação. Foto: Divulgação/PR

Carlos Alberto Decotelli da Silva é bacharel em ciências econômicas pela Uerj, mestre pela FGV, doutor pela Universidade de Rosário (Argentina), e pós-doutor pela Universidade de Wuppertal (Alemanha).

Era o que dizia, via Twitter, o presidente Jair Bolsonaro ao anunciar seu novo ministro da Educação.

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O último, Abraham Weintraub, havia se escafedido para os EUA após muita falação e pouco trabalho à frente do MEC. Corria o risco de ser preso após chamar os ministros do Supremo Tribunal Federal de “vagabundos”, e provocar uma tensão institucional inédita até para os padrões bolsonaristas.

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O anúncio do oficial da reserva da Marinha, que até então presidia o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), foi visto como um sinal de distensão. Decotelli era visto como um quadro de perfil pacífico e conciliador -- em oposição, ao menos na expectativa, às estripulias do antecessor que usava as redes até para chamar a mãe dos seguidores que o criticavam de “égua sardenta e desdentada”.

Parecia um avanço e tanto.

A deputada Carla Zambelli não demorou a correr no Twitter para politizar a escolha. Provocou a também deputada Tábata Amaral dizendo que o possível ex-futuro-ministro chegou até onde chegou sem precisar de cotas. “Vai ter coragem de criticar o novo ministro?”, questionou.

No mesmo dia, a Universidade de Rosário de Rosário desmentiu que Decotelli tenha concluído o doutorado por lá. Trechos de sua dissertação de mestrado, com suspeita de plágio, também circularam pelas redes. No começo da semana, foi a vez da universidade alemã desmentir o pós-doc.

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Não demorou e a Fundação Getúlio Vargas negou, em contato com a CNN Brasil, que Decotelli tenha sido professor ou pesquisador da instituição, como ele informava à Universidade de Wüppertal.

Exposto ao público, o currículo do novo ministro estava nu. Por que alguém inventaria tantas qualificações mesmo sabendo do nível de escrutínio de assumir “só” o posto de maior autoridade na área de atuação? A resposta pode ser complexa, mas os exemplos no próprio governo são fartos -- o mestrado de Damares Alves era “bíblico”, Ricardo Salles não estudou em Yale, e por aí vai. 

A posse de Decotelli, marcada para esta terça-feira (30), foi adiada. Especula-se que Bolsonaro esteja buscando tempo para procurar alternativas.

E o caso virou novela. Outra -- para quem já tinha saudade daquelas protagonizadas por Luiz Henrique Mandetta, Sergio Moro, Regina Duarte e grande elenco.

O Brasil é, possivelmente, o único país do mundo que atravessa a pandemia do coronavírus sem ministros titulares em áreas estratégicas como Saúde e Educação. Esta última tem uma série de decisões penduradas, a começar pelo orçamento do Fundeb, o fundo da educação básica. Além, claro, do Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio.

O vai-não-vai de Decotelli virou destaque no momento em que Bolsonaro havia sancionado a Lei Aldir Blanc, que dará R$ 3 bilhões de auxílio emergencial o setor cultural durante a pandemia. Uma bola dentro que se perdeu no debate sobre o currículo fake do ministro e sobre os talentos do presidente da Embratur na sanfona e no domínio da língua inglesa.

Em encontro com o presidente, o professor explicou o que Bolsonaro chamou de “inadequações curriculares”. “O Sr. Decotelli não pretende ser um problema para a sua pasta (Governo), bem como, está ciente de seu equívoco. Todos aqueles que conviveram com ele comprovam sua capacidade para construir uma Educação inclusiva e de oportunidades para todos”, escreveu, nas redes.

Se confirmada a escolha, Decotelli corre o risco de chegar enfraquecido ao posto num momento em que o governo tenta se fortalecer. Vistas como desonestidade, as “inadequações” murcharam, inclusive, o apoio dos militares do governo.

Na fatídica reunião de 22 de abril, Bolsonaro se queixou da inteligência dos arapongas do governo e da PF. Dizia contar com um sistema paralelo de informações, enquanto o oficial apenas desinformava.

Deveria cobrar também os assessores incapazes de checar informações básicas relativas ao currículo dos escolhidos para o primeiro escalão. Muitas seriam facilmente checadas com um telefonema. Ou uma busca no Google.

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