A nova queda de braço que pode mudar os rumos do futebol europeu

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Tudo bem, a Uefa pode até ter se livrado de comprar uma briga com a Associação Europeia de Clubes, mas um novo capítulo da ruptura no futebol do continente pode ficar cada vez mais evidente. Agora o problema é com a Associação de Ligas Europeias Profissionais, a EPFL.

Por divergências nos valores de premiação e no sistema de classificação para a Liga dos Campeões, a entidade que defende os interesses das federações locais promete voltar a marcar rodadas de suas competições nas mesmas datas da Champions.

Havia um acordo entre a Uefa a EPFL para evitar que isso acontecesse. Criada em 1997, a associação ganhou força apenas em 2005, quando as principais ligas embarcaram em uma parceria para alinhar os interesses das federações ao redor da Europa. A relação com a Uefa foi sempre pacífica, até que o debate sobre o novo formato da Champions trouxe a discórdia para a mesa.

Se os clubes grandes por meio da ACE (Associação de Clubes Europeus) planejavam uma Superliga europeia apenas com as 12 ou 14 maiores potências do continente, agora as Ligas estão tramando uma espécie de represália à Uefa, por meio de um congestionamento do calendário doméstico. O que não ficou claro (embora ainda seja questionável) é qual o motivo para essa postura. A explicação mais plausível é que ao deixar a EPFL de fora das discussões para remodelar a Champions, a Uefa perdeu a chance de dialogar com os principais interessados no seu produto. Sem poder de decisão para os clubes, não há liga. É simples.

Naturalmente, se a entidade europeia tomar uma posição autoritária sobre os rumos do futebol europeu sem consultar as federações, o passo em longo prazo é que elas se rebelem e queiram tirar o poder que a Uefa tem como gestora e organizadora de torneios no continente. Isso não parece uma realidade tão distante assim. Em congresso extraordinário em Helsinki, na última terça-feira, o presidente da Uefa, Alexsander Ceferin se posicionou contra a EPFL e acusou-a de chantagem.

O que fica cada vez mais visível é que a Uefa está nas mãos de poucos gigantes. Na semana passada, a ACE, presidida pelo ex-atleta alemão Karl-Heinz Rummenigge, sinalizou que as conversas para a criação da tal Superliga ficariam suspensas por tempo indeterminado, já que a Uefa atendeu às demandas destes cartolas. A medida que eles consideram positiva é aumentar o número de vagas diretas na Champions para as quatro ligas melhores ranqueadas pela entidade (que no caso são Espanha, Alemanha, Inglaterra e Itália) a partir de 2018.

Fica claro que a Uefa entende que não é infalível e pode ser facilmente esfacelada se os grandes como Real Madrid, Barcelona, Bayern, Manchester United, Juventus, entre outros perceberem que é melhor organizar algo por conta própria para o futuro. Afinal, são eles que atraem a audiência e o dinheiro, sem isso a Uefa é só uma sala de negociações. Como a EPFL ainda não possui a mesma imponência e os clubes provavelmente optariam por escalar equipes titulares em competições Uefa, em detrimento das ligas nacionais, trata-se de um adversário muito menos problemático do que se imagina.

O discurso de Ceferin foi polêmico durante o congresso da Uefa: “Nós nunca iremos aceitar chantagem daqueles que pensam poder manipular ligas pequenas ou impor suas vontades nas associações porque eles pensam que são todos poderosos pelo fato de gerarem uma receita astronômica“, vociferou contra a EPFL. Isso, claro, ainda é um pouco conflitante com a postura de “entregar” a Champions para as ligas mais relevantes.

Enquanto a promessa de jogos mais equilibrados nos torneios parece interessante, a Uefa mexe no seu maior produto de forma a ignorar cada vez mais as federações menores. A Liga dos Campeões já está restrita ao sucesso de espanhóis, alemães, italianos e ingleses. E este novo modelo prova que a competição mais prestigiada da Europa será também a mais inacessível para os médios e pequenos clubes que compõem o cenário internacional. Talvez os dirigentes estejam querendo algo exclusivo demais, o que certamente manchará a bela história da competição, criada no fim dos anos 1950.