Nova joia do Santos, Ângelo é precoce e protagonista desde a infância

KLAUS RICHMOND
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SANTOS, SP (FOLHAPRESS) - Ângelo Gabriel Borges Damasceno completava nove anos naquele dia, mas já era aguardado como um jogador de grife em 21 de dezembro de 2013, no estádio Ninho do Carcará, na cidade-satélite de Cruzeiro, próxima ao centro de Brasília. O menino que morava em Samambaia, município vizinho, tinha um acordo selado com os técnicos Carlos Roberto Apolinário, o Betinho, e Flávio Bastos, responsáveis pela franquia Meninos da Vila do Distrito Federal, de propriedade do Santos, onde passara a jogar meses antes. O time decidiria a final da Copa Dente de Leite, tradicional torneio local, condicionado à participação de Ângelo somente no primeiro tempo. A mãe, Idene Dias, havia preparado a festa de aniversário para a mesma data. Ângelo precisou só de poucos minutos para entortar todo o time Planaltina Atlético Clube e marcar um gol, o único do primeiro tempo, e sair correndo do estádio. Era um dos jogadores mais novos do torneio, contra um rival que havia goleado quase todas as equipes ao longo da competição. Os Meninos da Vila venceram por 3 a 2 e foram campeões. "Combinamos assim com os pais, para ele poder curtir a festa de aniversário. A mãe achava que não daria tempo. Falei que ele seria útil o tempo que desse, e como foi. Ele parecia um adulto em campo", lembra Betinho. Conhecido no Santos pela precocidade, Ângelo poderia nem ter chegado ao clube não fossem os treinadores. Meses depois, despertou o interesse do Desportivo Brasil, time de Porto Feliz, no interior paulista, e posteriormente recebeu consultas de olheiros de Palmeiras, Atlético-MG e outros grandes. "O Desportivo ficou doido por ele, enviaram um observador técnico, falaram da estrutura e quase conseguiram convencer os pais. Como tínhamos a franquia e ótimo relacionamento no Santos, achamos razoável levá-lo ao clube antes", conta Flávio Bastos. Aprovado logo nos primeiros dias por Lima, ex-jogador do histórico Santos da década de 1960 e avaliador oficial das franquias, Ângelo chegou à Vila Belmiro em 2015, direto para a categoria sub-11 e iniciou, desde então, uma escalada meteórica. Estreou como profissional em 25 de outubro de 2020, em jogo pela 18ª rodada do Campeonato Brasileiro, com apenas 15 anos, 10 meses e quatro dias. "Esse menino vai ser um baita jogador, pode escrever", disse o então técnico Cuca. "Com 18, 19 ou 20 anos teremos um fenômeno", acrescentou. No último dia 6, no primeiro jogo da terceira fase preliminar diante do San Lorenzo, em Buenos Aires, o atacante marcou o último gol na vitória por 3 a 1, superando o recorde do argentino Juan Carlos Cárdenas e se tornando o mais jovem jogador a atingir tal marca na história do torneio --16 anos, três meses e 16 dias. Nesta terça-feira (13), em Brasília, a equipe do técnico Ariel Holan faz o segundo jogo contra o San Lorenzo, às 21h30 (SBT e Conmebol TV transmitem), e está perto de confirmar uma vaga na fase de grupos da Libertadores. Ângelo deverá começar no banco, assim como na semana passada, quando substituiu Marinho. "O Ângelo era tão incrível que tinha uma mania de trabalhar com a bola sempre perto das linhas laterais e de fundo. Ficávamos com a impressão que ia sair do campo com a bola, mas ele sempre dava um jeito", afirma Betinho. O menino deu os primeiros passos em Samambaia sob os cuidados de Mário Henrique Coelho, técnico então responsável pelas primeiras categorias da escolinha do Flamengo, de propriedade do ex-jogador de basquete Carioquinha. Ele acompanhou o treinador por longo tempo em viagens e torneios por outras cidades, quase sempre ao lado do irmão mais velho, Carlos Eduardo. "Eu digo que nunca ensinei nada para o Ângelo, seria pretensão demais dizer que sim. Uma das coisas que direcionei foi a ideia de iniciar o drible que faz para dentro do campo e não para fora", lembra Coelho. Eram comuns na época atrasos que arrancam até hoje sorrisos do antigo treinador. Mesmo em jogos em um clube próximo a sua casa, era cena comum ver o menino chegando atrasado para o jogo e perguntando ao pé do ouvido do treinador: "eu vou poder entrar?". "Ele chegava atrasado, mas ficava no banco numa boa. Sempre foi muito submisso, me perguntava até se poderia soltar a camisa do uniforme. Ele tinha uma coisa incrível: sempre entrava e resolvia", relata. O pai, Elismar de Oliveira, chegou ajudar com dinheiro o treinador em viagens, uma delas para jogar no centro de treinamento do América-MG. O menino arrebentou com a partida e quase ficou por Belo Horizonte. "Ele nunca atuou na categoria dele, sempre dois anos acima e com a camisa 10. Se comportava como se fosse da idade dos mais velhos", cita o técnico Ailton Nogueira dos Santos, com quem trabalhou no futsal pelo Juventude Candanga. Os formadores jamais ganharam retorno financeiro do Santos. Coincidentemente, o primeiro contrato profissional foi assinado também no dia de seu aniversário, em 21 de dezembro, com duração até 31 de dezembro de 2023 e multa de 60 milhões de euros (R$ 407 milhões pela cotação atual). Ele tem 16 partidas como profissional. Desde a chegada do técnico Ariel Holan, ganhou ainda mais oportunidades. Em entrevista recente ao SporTV, o argentino disse que Ângelo era a melhor representação do futebol brasileiro. A parceria do adolescente com Holan, apaixonado pela escola holandesa de Cruyff e pelo futebol ofensivo, pode ser tudo o que ele precisava. A idade, ao que tudo indica, não será um problema. SANTOS João Paulo; Pará, Kaiky, Luan Peres e Felipe Jonatan; Alison, Ivonei e Gabriel Pirani; Marinho, Kaio Jorge (Marcos Leonardo) e Soteldo. T.: Ariel Holan SAN LORENZO Devecchi; Herrera (Peruzzi), Gattoni, Donatti e Pittón; Óscar Romero, Rodríguez e Juan Ramírez; Ángel Romero, Nicolás Fernández e Di Santo. T.: Diego Dabove Estádio: Mané Garrincha, em Brasília (DF) Horário: 21h30 (de Brasília) desta terça-feira (13) Árbitro: Esteban Ostojich (URU) VAR: Oscar Ruiz (COL) Transmissão: SBT e Conmebol TV