No camarote do estádio Al Bayt, na Copa do Catar, o mais difícil é focar no futebol

Existem “N” maneiras de se assistir a um jogo de Copa. Poucas tão luxuosas quanto em um camarote no Estádio Al Bayt. Não chega a ser exatamente um problema, mas o que acontece, invariavelmente, é o conforto competir com a partida em si. É fácil se distrair. Talvez com uma ida rápida ao bufê — afinal, tudo parece delicioso, o jogo já está nos acréscimos do primeiro tempo e... pronto, perde-se o gol do inglês Harry Kane.

A tristeza pode até bater depois disso, mas logo é esquecida. No freezer, há três tipos de cerveja à disposição. Na bancada de cima, três uísques, rum, gim, vodka, vinho tinto, branco e champanhe.

Uma televisão transmite os melhores momentos — é a chance de rever o lance perdido, mas logo os presentes se aglomeram com a chegada de Hassan Al Thawadi, secretário geral do Comitê Organizador da Copa do Mundo.

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Camarotes como esse do Al Bayt são acessíveis somente aos torcedores que compraram pacotes que custavam a partir de R$ 303 mil antes da Copa começar, e que dão direito a assistir a todos os jogos de um dos oito estádios ou então a todas as partidas no Al Bayt e no Lusail, os dois principais palcos do Mundial.

Nas entrelinhas

Nestes casos, as companhias às vezes são mais relevantes do que a partida em si. É onde apertos de mão e sorrisos precisam ser lidos nas entrelinhas. Cercado por alguns jornalistas britânicos, Hassan Al Thawadi afirma que torce para a Inglaterra chegar à final da Copa. Brinca que é para a imprensa do país seguir mais preocupada com o desempenho da seleção do que com a competição em si — os britânicos estiveram entre os críticos mais vorazes à competição no país do Oriente Médio.

Hassan Al Thawadi se despede dos presentes, não sem antes dizer que torce por uma final entre Argentina e Inglaterra. Questionado se não estava empolgado com o Brasil, responde que a seleção é forte, mas sofre com a falta de um líder em campo. Uma fala sintomática, em se tratando de alguém que integra o restrito círculo do poder catari, do qual também faz parte Nasser Al-Ghanim Khelaifi, presidente do PSG.

Quando Al Thawadi sai, é a deixa para os convidados realmente atacarem o bufê. Três opções de pratos quentes, além da clássica combinação batata frita e hambúrgueres. Oito variedades de pratos frios de culinária internacional, entre sushi, salada niçoise (originária da cidade francesa de Nice) e a turca “salata de tomate bulgur”.

Já no segundo tempo, entre a refeição e o tempo gasto na tarefa de escolher a sobremesa entre seis opções diferentes, pode-se perder mais um gol, como foi o de Saka. Possível percebê-lo somente graças à televisão, porque as portas que separam os camarotes das arquibancadas têm ótimo isolamento acústico. Praticamente nada que acontece do lado de fora ecoa no ambiente.

Lembrança de R$ 1 mil

A partida acaba e as pessoas seguem nos camarotes por mais algum tempo. O luxo chama a atenção nos menores detalhes, no acabamento dos móveis, na iluminação. O banheiro tem banheira, mas para isso há uma explicação: depois da Copa, o Al Bayt, um dos únicos estádios que não será desmontado parcial ou integralmente, vai receber em parte dele um hotel cinco estrelas. E os camarotes de hoje serão convertidos em quartos.

Cada um dos torcedores recebe um vale-presente na entrada, para ser retirado na saída. São cinco categorias de hospitalidade nesta Copa do Mundo, com presentes de acordo com cada uma, e o camarote é a segunda mais valiosa. Quem esteve nele durante o jogo entre Inglaterra e Senegal recebeu de recordação uma réplica da taça da Copa do Mundo, de 15 cm, com a indicação do estádio e a partida. No site oficial da Fifa, ela pode ser comprada por cerca de R$ 960.

Ficou a curiosidade sobre qual seria a lembrancinha no Pearl Lounge, o topo da pirâmide do luxo nos estádios no Catar, existente apenas no Lusail.