Nicole Silveira se encontra no skeleton e tem meta ambiciosa para Pequim

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nicole Silveira já praticou dança, ginástica artística, vôlei, futebol, fisiculturismo e levantamento de peso. Alguns desses esportes ajudaram, mas nenhum a preparou especificamente para descer pistas de gelo sinuosas, deitada de barriga para baixo e com a cabeça apontada para a frente sobre um trenó que pode atingir mais de 140 km/h.

Com uma breve trajetória de menos de quatro anos no skeleton, a brasileira de 27 já se credenciou a fazer história nas próximas Olimpíadas de Inverno e tem tudo para ser o principal nome do Brasil no evento.

Sua classificação para os Jogos de Pequim, que terão início em 4 de fevereiro, será confirmada após o fechamento do ranking da federação internacional (IBSF), na metade deste mês. Nicole já possui pontuação suficiente para ficar com uma das 25 vagas e tem usado as etapas da Copa do Mundo como preparação para ser a primeira representante do país nessa modalidade.

A gaúcha de Rio Grande vive no Canadá desde os sete anos. Os pais, donos de uma padaria, decidiram emigrar porque estavam cansados da insegurança na administração do negócio, mas a família não perdeu o contato com as raízes.

O futebol foi o esporte que Nicole praticou por mais tempo, cerca de dez anos, e a modalidade lhe proporcionou bolsas para cursar a faculdade de enfermagem. Em 2017, ela soube por um colega que a Confederação Brasileira de Desportos no Gelo (CBDG) procurava mais uma atleta para tentar classificar a dupla feminina de bobsled nos Jogos de Pyeongchang-2018.

Nicole relutou, mas decidiu experimentar. Na época, participava de eventos de fisiculturismo e trabalhava em uma loja de suplementos alimentares.

O objetivo do bobsled e do skeleton é o mesmo: percorrer uma pista de gelo com curvas fechadas e velozes no menor tempo possível. As diferenças estão na dinâmica das modalidades e nos equipamentos utilizados em cada uma.

O bobsled costuma ser disputado em duplas ou quartetos, com um trenó ("sled") de grande porte. Dentro dele, os atletas se posicionam sentados em fila para a descida. O skeleton é individual, e o trenó lembra um carrinho de rolimã com lâminas, sobre o qual o atleta se lança de bruços.

Os primeiros meses de treinamento da brasileira envolviam apenas a parte física e o "push", movimento de largada em que os competidores correm empurrando o trenó. Ela teve que confirmar sua participação na temporada antes mesmo da primeira descida para valer como "breakwoman", a responsável por acionar o freio do equipamento.

"Não sabia se ficava de olho aberto ou fechado, só dava para ver branco passando. Fechei os olhos durante a descida inteira. Na parte baixa tem que frear, virar o trenó e puxar para fora da pista. Lembro que abri o olho e estava tontinha, não conseguia [manobrar]", relembra, sobre a experiência inicial em Calgary, cidade do Canadá onde vive e que sediou os Jogos de Inverno em 1988.

Nicole tomou gosto pelo esporte, mas a classificação para Pyeongchang não veio. Com Pequim na mira, ela queria ter mais controle das descidas e via dois caminhos para isso: assumir a posição de piloto no bobsled ou mudar para o skeleton, opção que ganhou o apoio da CBDG.

Os bons resultados apareceram rapidamente para quem até então era uma novata. Conhecer os traçados de pistas espalhadas pelo mundo é fundamental no skeleton, bem como a sensibilidade e a destreza para fazer ajustes em frações de segundo.

"A gente entra em curvas com tanta pressão que muitas vezes a cabeça fica no gelo e você não enxerga nada mesmo", relata.

O mais importante, assegura, é não entrar em pânico quando algo dá errado. "Descer uma pista com medo é a pior coisa. Tento não pensar nisso e hoje já tenho bastante confiança no meu instinto. Já tive lesões numa época em que não tinha tanto conhecimento, mas hoje tenho mais confiança em mim mesma."

A atleta destaca a parceria com o técnico italiano Joe Cecchini e a obstinação de ambos como diferencial. Enquanto países mais tradicionais no esporte trabalham com equipes e estruturas maiores, a dupla vive uma rotina quase solitária de aprimoramento.

A evolução ficou nítida na atual temporada. Em outubro, Nicole terminou o evento-teste para os Jogos de Pequim no oitavo lugar. Na sequência, foi campeã da Copa América após vencer seis etapas e teve como melhor resultado na Copa do Mundo um nono lugar em Winterberg, na Alemanha.

A brasileira voltou a competir no mesmo local na sexta-feira (7) e ficou na 19ª posição. Seu último compromisso antes do embarque para Pequim será no dia 14, em St. Moritz, na Suíça.

"Quando comecei a participar da Copa do Mundo, não sentia que pertencia a esse nível. Hoje é muito diferente. Tem gente que me pergunta qual material estou usando, o que estou fazendo numa determinada curva. É legal ter esse sentimento de ser reconhecida", afirma.

A mesma percepção de surpresa pôde ser notada nas transmissões oficiais das provas. "Fica todo o mundo na torcida, porque está de saco cheio de ter sempre Alemanha e Rússia no pódio", ela brinca.

Atualmente, a meta da gaúcha para Pequim-2022 é figurar no top 10, resultado que seria histórico para o Brasil. O melhor desempenho do país nos Jogos de Inverno foi o nono lugar de Isabel Clark no snowboard, em 2006.

"Vai ser difícil conseguir, principalmente porque, chegando em Olimpíadas, os times maiores têm um suporte que eu não tenho. Eles sempre conseguem chegar com o top do top de equipamento", constata.

Apesar das dificuldades, para os Jogos de 2026, em Milão-Cortina, o objetivo é ainda mais ousado: ir ao pódio.

Enquanto mira alto na sua carreira, Nicole também pensa em maneiras de aproximar o skeleton de outros brasileiros que vivem no Canadá, principalmente de adolescentes. No último verão, ela levou seu equipamento a um evento da comunidade do país em Calgary e angariou interessados que posteriormente aparecerem na pista de treinos para conhecer o esporte de perto.

Ao longo do ano, Nicole divide suas atenções entre o skeleton (principalmente no inverno) e o trabalho de enfermeira (no verão), inclusive com atuação direta em hospitais durante períodos críticos da pandemia da Covid-19.

Uma vida dupla que ela não pretende mudar totalmente, embora vislumbre um patrocínio que ajudaria a se dedicar ainda mais à atividade esportiva.

"Acho que nunca vou deixar de ser enfermeira. A ideia de viver só como atleta é muito legal, mas trabalhar pelo menos um ou dois dias na semana [com enfermagem] é algo que eu sempre gostaria de fazer. O ideal seria trabalhar menos e não ter um trabalho por necessidade, mas por querer ter", conclui.

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