Nem rodovias com pedágio no Estado do Rio são consideradas ótimas, diz estudo

“Tem obra parada há dois anos, à noite é um breu, porque parte da iluminação está apagada, e as câmeras de monitoramento de trânsito desapareceram”. Os transtornos a que se refere Paulo Ribeiro, morador de São Gonçalo, são os constatados na Rodovia Niterói-Manilha (BR-101), com pedágio que varia de R$ 3,30 a R$ 39,60, segundo o tipo de veículo. Representam, no entanto, só uma amostra dos obstáculos que, perto de mais um verão, os motoristas devem enfrentar Rio de Janeiro afora. Os descaminhos refletem na pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) sobre as estradas brasileiras em 2022, na qual nenhuma via fluminense teve seu estado geral classificado como “ótimo”. De acordo com o levantamento, a melhor do Rio continua sendo a Via Lagos (RJ-124). Mesmo assim, é considerada apenas “boa” e, do ano passado para cá, caiu da 16ª para a 50ª posição no ranking nacional da entidade.

É revelador também que, de todo o percurso rodado pelos avaliadores da CNT no Rio, só 2,98% — ou 79 quilômetros — ganharam o selo de “ótimo” por suas condições gerais. Antes da pandemia, em 2019, o índice chegava a 37,4%. Desde então, perderam esse status não só a Via Lagos e a Niterói-Manilha, que são mantidas pela iniciativa privada, mas ainda o Arco Metropolitano e trechos da Rodovia Presidente Dutra (BR-116) e da BR-101 de Itaboraí a Campos, entre outros. Já a quilometragem problemática (péssima, ruim ou regular) passou de 30,4% para 58,2% nesse período. E explodiu o número de pontos críticos, com comprometimento à segurança ou ao fluxo: eram 14 há três anos; hoje, são 71.

— São áreas, sobretudo, com quedas de barreira e erosões na pista — explica Bruno Batista, diretor executivo da CNT. — Desde 2019, há uma piora das estradas no Rio: o pavimento considerado ótimo, por exemplo, caiu de 63% para 30,5%. A sinalização boa ou ótima recuou de 74% para 35%. É um recado de que é preciso voltar a investir na malha viária — diz ele, ao destacar que o alerta serve a todo o país.

Rodovias concessionadas, aponta a pesquisa, continuam melhores que as de gestão pública no Rio. Parte das privatizadas, contudo, anda derrapando na qualidade. Na Via Lagos (gerida pela CCR e com pedágio que chega a R$ 28,80 para carros de passeio, nos fins de semana e feriados nacionais) não há buracos, mas o asfalto tampouco é aquele tapete uniforme de anos atrás. E, em alguns trechos, o desgaste deixa à mostra as faixas de sinalização horizontal de pistas antigas.

Nesse rumo, desde 2019 a estrada foi de “ótima” a “boa” nos três quesitos que compõem o estado geral avaliado pela CNT: pavimentação, sinalização e geometria. A concessionária, por sua vez, diz que, em dezembro, finaliza seu programa anual de melhorias, com revitalização do pavimento numa área equivalente a 11 campos de futebol.

Já na Dutra, a piora coincidiu com a transição da antiga concessão para a atual, assinada pelo Grupo CCR em março. O mesmo que ocorreu na Rio-Teresópolis (BR-116), arrematada este ano pela EcoRioMinas.

— A expectativa é que haja um novo ciclo de investimentos em breve — diz Batista

Na Niterói-Manilha (classificada apenas como “regular” pela CNT), a espera deve ser maior, diante da rota turbulenta tomada nos últimos anos. Em 2020, a concessionária Arteris Fluminense interrompeu as obras de construção de uma terceira faixa de rolamento, sob a alegação de falta de segurança pública na via. Na mesma época, anunciou o pedido para devolver a concessão — que se estende, ao todo, por 322 quilômetros da BR-101, de Niterói a Campos dos Goytacazes. A União, então, prepara uma relicitação, com leilão previsto para o fim de 2023. Enquanto isso, quem depende da estrada coleciona sufoco.

— Na volta do trabalho, desembarco do ônibus na Niterói-Manilha à 1h. Com as lâmpadas da via apagadas, fico entre dois riscos: ou subo a passarela no escuro, podendo ser assaltado, ou atravesso mais rapidamente pelas pistas. Há cerca de um mês, assisti a um atropelamento aqui— relata o operador de suporte técnico Paulo Ribeiro.

A situação se agrava mais, porém, se analisadas as estradas públicas estaduais. Nessas vias, em 2022, pouco mais da metade (50,9%) da quilometragem avaliada pela CNT foi considera “ruim” ou “péssima”. Mas já foi ainda pior. Em 2021, esse percentual alcançava 70,6%. Foi quando começaram as obras do Pacto RJ, programa do governo do estado irrigado por verbas da concessão da Cedae. Só nas rodovias, foram pautadas 108 ações, com investimentos totais de R$ 2,58 bilhões.

Após frequentes protestos de moradores, foi recapeada, por exemplo, a RJ-192, em São Fidélis, até então apontada como “péssima” pela CNT. Também foram realizados serviços em parte da RJ-148 (Nova Friburgo-Carmo), que ocupa apenas a 479ª posição entre 510 rodovias ranqueadas nacionalmente pela pesquisa. A questão é que as obras melhoram o asfalto, entretanto, muitas vezes não corrigem problemas como a falta de acostamento.

É um perigo que permanece em grandes trechos da Rodovia Amaral Peixoto (RJ-106), uma das opções em direção à Região dos Lagos. Parte da estrada também recebe obras do Pacto, com intervenções atualmente na chegada de Maricá. Na via, os quilômetros mais dramáticos são os da Serra do Mato Grosso, entre Maricá e Saquarema, que operam somente no sentido Saquarema desde que, em abril, as chuvas causaram a queda de barreiras. Enquanto o DER-RJ realiza a contenção de encostas, ônibus, caminhões e qualquer veículo que trafegue no sentido Maricá precisam pegar um desvio pela RJ-118, em Jaconé.

Essa é uma das intervenções em estradas estaduais, porém, que não devem acabar antes do início do verão. As pistas da Serra do Mato Grosso, diz o DER-RJ, só vão ser liberadas em janeiro. Já nos trechos das RJs 106 e 140 que ligam a Via Lagos, em Iguaba Grande, a Arraial do Cabo, as obras do Pacto só serão concluídas em julho de 2023, afirma o departamento. Nesse trajeto, atualmente persistem buracos na ponte no acesso a Cabo Frio, enquanto as pistas na chegada a São Pedro da Aldeia estão recapeadas, embora não tenha sido pintada a sinalização horizontal no sentido Via Lagos.

Outra via de contrastes é a RJ-104, entre Niterói, São Gonçalo e Itaboraí. Próximo a Alcântara, parece uma nova estrada, após intervenções do Pacto, que ainda não chegaram ao trecho de Niterói a Tribobó. Assim, na descida do viaduto de Maria Paula, a buraqueira continua crônica e perigosa.

— Sempre tem acidentes, e os motoqueiros são as maiores vítimas. Jogam piche, terra, fazem serviços de tapa-buraco, mas não acaba a precariedade — diz Luiz Carlos dos Santos, que mora no bairro Novo México, às margens da rodovia.

Segundo o DER, para esse trecho as obras estão em fase licitatória, com o valor estimado em R$ 48 milhões e previsão de início no primeiro semestre de 2023.

Já sobre a BR-101, a Arteris Fluminense afirma que continua a cumprir seu cronograma contratual de serviços de atendimento aos usuários e de manutenção e conservação. Em relação ao trecho Niterói-Manilha, afirma que, recentemente, houve a necessidade de remanejar postes de iluminação, da região lateral para o eixo central da pista, o que teria gerado falta de energia temporária. “Porém, o fornecimento de energia no local já foi restabelecido e funciona normalmente”, diz a concessionária, afirmando que, desde 2008, investiu cerca de R$ 3,6 bilhões em obras na BR-101