Nelson Triunfo lembra preconceito e celebra breaking nas Olimpíadas

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A entrada no programa olímpico simboliza para o breaking uma vitória contra o preconceito, assim como foi com o também marginalizado skate e com o surfe.

E ninguém melhor para contar essa trajetória de luta e visibilidade de uma modalidade do que o seu precursor no Brasil, Nelson Triunfo, 67. "É uma história que vai muito além do hip-hop", diz à Folha de S.Paulo.

Ele nasceu em Triunfo (PE), divisa com a Paraíba, onde ficava a fazenda na qual, ainda criança, trabalhava como agricultor ao lado do pai.

A adolescência passou em Paulo Afonso (BA) e frequentou a capital, Salvador. Como topógrafo, trabalhou em Brasília. Diversas vezes viajou para o Rio de Janeiro. A partir da década de 1970, principalmente em São Paulo, fez a vida como artista.

"Sofri preconceito de todos os jeitos", recorda-se.

Conta, por exemplo, que em São Paulo olhavam torto por ele gostar de coentro. Sua querida farinha ficava escondida nos balcões dos restaurantes para que os clientes não a vissem. Era chamado de macaco e seu cabelo era atacado.

Na família, o chamavam de vagabundo, palhaço -"me considero um palhaço de rua". Até já conhecia os policiais da delegacia de tantas vezes que a ditadura militar lhe prendeu por "vadiagem".

Há duas passagens que até hoje lhe dói relembrar.

Uma vez, no Clube dos Artistas, ouviu que era ótimo dançarino, mas era melhor que não falasse. Quando em 1984 foi chamado para gravar na Warner, ouviu que tinha um problema na língua.

"O 'problema na língua' era um sotaque muito forte. Não gravaram o primeiro rap nacional no estilo do lá de fora por isso", afirma. "Eles não sabem o quanto atrasaram minha vida."

Orgulhoso, se diz militante do movimento negro, dos artistas de rua, da cultura brasileira. Durante a entrevista, cita tantas estrelas quanto as que estampam o seu casaco.

"Minha vida todinha foi dentro da cultura negra, desde o maracatu. O forró é negro. Luiz Gonzaga não era louro, o Jackson do Pandeiro não era louro. Pixinguinha. E os caras do samba? Se você for olhar nossas músicas, elas são negras. A capoeira também", diz.

Conheceu James Brown, de quem é fã, quando ele veio ao Brasil. Era amigo do coreógrafo Ismael Ivo (morto pela Covid). Também admira Michael Jackson e Marvin Gaye. Black Sabbath, Tim Maia, Chico Science, Roberto Carlos e Pavarotti estão em seu repertório.

Seu pai era sanfoneiro, instrumento que ele também toca. Desobedecia a mãe para ficar até tarde dançando frevo no Carnaval. Adorava São João. Dançava forró e samba. Pelo cinema e pelo rádio, conheceu músicas dos Estados Unidos.

A cada ritmo que cita, imita as batidas com a boca e explica suas interlocuções.

"Ô brother, é que a gente perde muitas coisas neste país. Por exemplo, o Bob Marley é o rei do reggae, mas para mim, quem criou o reggae foi Luiz Gonzaga", e explica como as divisões rítmicas se entrelaçam. "O coco de embolada [semelhante ao repente], o primeiro flow que ouvi na vida, é o primeiro rap do mundo."

O nome artístico veio para coroar sua identidade. Antes, em Brasília, Nelson era chamado de Baiano. Em São Paulo, era Black Salvador. Aranha e Cabelo também já foram usados. No Rio de Janeiro, foi apelidado por Tony Tornado de Homem-Árvore.

Decidiu então por Nelson Triunfo, pela cidade onde nasceu -para desespero dos amigos de Paulo Afonso, onde criou seu primeiro grupo de dança, os Invertebrados. Depois, já no circuito Rio-São Paulo, fundou o Black Soul Brothers e o Funk & Cia.

No mesmo momento em que estrelou no clipe de "Funk-se Quem Puder" (1983), de Gilberto Gil, começou a levar as danças, antes restritas aos bailes fechados, para as ruas de São Paulo.

No começo, caixas de papelão desmontadas serviam de superfície à dança. Até que descobriu o calçadão da rua 24 de Maio, no centro da capital paulista, com seus grandes blocos de concreto.

Em 1984, ele e seu grupo fizeram a abertura da novela da Globo "Partido Alto". O rolê de dança começou a migrar para a estação São Bento. "Estourou." Surgiram nomes como Racionais MC's e Thaíde.

Triunfo recebeu a Folha na Casa do Hip Hop, em Diadema, fundada por ele em 1999 (e hoje gerida por seu filho). O local marca sua incursão pelos projetos sociais, inspirado em Paulo Freire. Seu endereço? Também em uma rua 24 de Maio.

Mas até o próprio Nelson Triunfo tem dificuldade de precisar quando conheceu o breaking. Foi em algum momento da virada da década de 1970 para 1980.

"Mas eu já estava, sem querer, dentro da coisa, a gente já dançava ela sem saber, a gente criava o nome para os passos. Não é brincadeira, não, é vanguarda total!"

Tinha o giro de cabeça, giro de costas, tartaruga, moinho de vento. O "grand écart" da dança clássica, que é o mesmo que o espacate do jazz, era o espaguete das ruas. Imitava os dançarinos de soul funk dos Estados Unidos e aproveitava os passos de capoeira e do frevo.

Até que a internet fez o breaking e o hip-hop ganharem projeção mundial e padronizou as nomenclaturas em inglês. Hoje, diz que o Brasil influencia os passos do mundo, tal qual foi com o futebol.

O que ele acha da entrada do breaking no programa olímpico? "Demorou!" Por um lado, agradece a inclusão. Por outro, diz que é apenas uma reparação para uma prática historicamente marginalizada.

"É muito bom, até para dar uma força para os moleques que se matam o dia inteiro, treinam que nem loucos. O cara pode dizer, agora, que é um esporte olímpico."

A Folha também passeou com Triunfo pelo centro de São Paulo. É difícil dar mais de dez passos sem ele cumprimentar um conhecido ou ser abordado por alguém. Apresenta os donos dos salões de cabeleireiros, das lojas de discos e de roupas.

Mas, na 24 de Maio, destaca que parte do calçadão virou rua de asfalto e percebe que um camelô está montado em cima do Marco Zero do Hip-Hop, uma placa de mármore no chão que homenageia ele e seus colegas pelo pioneirismo.

Pede, finalmente, que o breaking nacional e mundial não se esqueça dos que, como ele, foram responsáveis por alçá-lo ao patamar que está hoje. E que se profissionalize a prática, cuidando desde cedo da saúde mental dos atletas, para que eles não sofram as consequências que o esporte de alto rendimento pode trazer.

"A grande jogada, o xeque-mate, é aproveitar as Olimpíadas para promover grandes eventos nos estados, fazendo grandes campeonatos de breaking pelo Brasil."

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