Negros já são a maioria entre os mortos pela Covid-19, e Bolsonaro não está nem aí para a nossa vida

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A woman inside a bus wears a face mask in Brasilia, Brazil, Monday, May 4, 2020. The state government mandated that people using public transportation must wear face masks starting Monday to help contain the spread of the new coronavirus. (AP Photo/Eraldo Peres)
A woman inside a bus wears a face mask in Brasilia, Brazil, Monday, May 4, 2020. The state government mandated that people using public transportation must wear face masks starting Monday to help contain the spread of the new coronavirus. (AP Photo/Eraldo Peres)

Texto: Pedro Borges 

Dados do Ministério da Saúde apontam que a população negra, desde o dia 8 de maio, é a maioria entre as vítimas da Covid-19. Segundo o boletim da pasta, pretos e pardos representam 50,1% das vítimas e brancos, 47,7%. Os números atuais representam uma mudança no gráfico de mortos, já que em 10 de abril, os brancos eram 64,5% das vítimas e os negros, 32,8%.

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As estatísticas sombrias diárias de 700, 600 e até 800 mortes por Covid-19 tendem a fazer esse número de negros mortos pela doença ser cada vez maior com o passar dos dias. Ainda estamos no período mais duro da pandemia, segundo especialistas, que são os meses de maio e junho, e os efeitos mais nefastos recaem sobre as periferias.

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Dados da Prefeitura de São Paulo, de 29 de abril, mostram que a Brasilândia, bairro com 50% de população negra, tinha o registro de 130 casos de Covid-19 e 81 mortes, enquanto o Morumbi, com 19% de população negra, registrava 331 casos e 8 mortes. A cidade de São Paulo possui, ao todo, aproximadamente 32% de população negra.

Diante disso, o governo federal toma por escolha a omissão e a estratégia do “deixar morrer” para esses grupos de negros e moradores das periferias. O filósofo camaronês Achille Mbembe, autor do conceito de necropolítica, ou seja, a política da morte adotada por estados, usa um termo bastante propício para o Brasil: o necroliberalismo.

Para o filósofo, não existe compatibilidade entre a manutenção da vida coletiva, em especial dos grupos vulnerabilizados, com a política econômica neoliberal. O cotidiano brasileiro é a prova disso.

Paulo Guedes, ministro da Economia, e Jair Bolsonaro, presidente da República, resumem a atuação para alertar sobre o fechamento de empregos, empresas e para os impactos da pandemia na economia. É o alerta para a economia dos grandes empresários.

Ao mesmo tempo, o governo federal atrasa em 15 dias o pagamento da segunda parcela do auxílio emergencial, isso sem contar as pessoas que ainda não receberam a primeira remessa do recurso. É o pouco caso para a economia e a vida do trabalhador.

No resumo, é deixar o trabalhador, morador da periferia, negro, em condições sociais já vulneráveis antes da pandemia, sem qualquer possibilidade de se manter em casa ou de sobrevivência. Ou sai de casa para batalhar pelo sustento e corre o risco de morrer infectado, ou morre de fome em casa.

Ao atrasar o pagamento das parcelas do auxílio emergencial, o governo age na esperança da pandemia passar rápido, o que não acontecerá, e assim pagar o menor número de remessas do auxílio emergencial. É a receita de Paulo Guedes, simplificada pelos cortes de investimento social, de serviços públicos e pagamento de juros da dívida pública, um gasto que come mais de 50% do orçamento da União.

A política nefasta de Jair Bolsonaro, em conflito com o Estado de Direito que tenta atuar para preservação da vida, terá danos elevados para a comunidade negra e para as periferias dos grandes centros urbanos.

É difícil e compreensivo ver as pessoas pedindo para voltar ao trabalho, mesmo que nas condições mais desumanas possíveis, com a exploração cotidiana. O discurso, de quem se coloca em um setor progressista da sociedade, deve ir além da moralidade do “vamos ficar em casa”. 

O capital pressiona as pessoas para trabalhar porque precisa acumular a todo momento. É a materialidade da vida. É preciso questionar o estado de coisas existentes no Brasil e exigir o fim da exploração. Não queremos voltar para o que estava posto antes do agora, nem viver sob a égide do necroliberalismo. É possível e necessário construir uma sociedade justa, igualitária e pautada na vida coletiva.

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