Narração parcial de futebol evoca despudor de Ary Barroso com Flamengo

MARCOS GUEDES
Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Encerrado nesta semana, o Estadual do Rio de Janeiro chamou mais a atenção pela realização de partidas de futebol no auge da crise do novo coronavírus no estado do que pelo futebol apresentado.

Também foram uma marca do torneio as transmissões televisivas conduzidas pelos próprios clubes, lideradas pelo campeão Flamengo e amparadas por uma medida provisória que mudou as regras do jogo.

As vitórias do Flamengo sobre o Boavista e o Volta Redonda foram exibidas pela rubro-negra FlaTV, em plataformas de transmissão pela internet. Coube à tricolor FluTV reproduzir o modelo em dois duelos do Fluminense com o mesmo Flamengo, com uma parcialidade na narração e nos comentários que evocou um passado já distante.

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Muitos, especialmente os mais velhos, logo se lembraram de Ary Barroso (1903-1964), compositor memorável da Música Popular Brasileira que foi memorável também como narrador de futebol. Ele não estava a serviço de um veículo oficial de um time, mas torcia despudoradamente para o Flamengo e marcou época com um estilo que revolucionou a cobertura esportiva no Brasil.

Se os locutores da FluTV evitaram falar os nomes dos jogadores do Flamengo durante quase um jogo inteiro no último Estadual, Barroso ia além. Primeiro na rádio Cruzeiro do Sul, a partir de 1936, e depois na Tupi, ele se calava no momento em que um adversário se aproximava da meta rubro-negra, com alguma variação do bordão: "Eu não quero nem olhar".

Ficou famosa também a gaita que ele usava nos momentos dos gols. Na época, o "speaker", como era chamado o narrador, trabalhava no meio do público. Com o barulho das comemorações, o ouvinte frequentemente tinha dificuldade para entender o que estava ocorrendo, e a solução de Ary foi encontrada em uma gaita que anunciava as bolas na rede com um som bem agudo.

"Foi, sem dúvida, um extraordinário sucesso, apesar da escandalosa parcialidade do locutor", escreveu Sérgio Cabral na biografia "No Tempo de Ary Barroso" (Lazuli, 2016). "Nos gols do Flamengo, ele soprava muito mais tempo do que naqueles marcados pelas demais equipes. Os gols contra o Flamengo eram registrados por duas sopradinhas, e olhe lá."

De acordo com o biógrafo, essa despudorada parcialidade contribuía para a popularidade de Barroso como locutor. Os rubro-negros torciam com ele, e os rivais se divertiam com seu sofrimento, cujo nível era aferido pelo toque da gaitinha.

Uma edição de 1950 da Revista do Rádio narrou a insistência de um homem para, no fim de uma vitória por 6 a 0 do Bangu sobre o Flamengo, comprar ingresso "por qualquer preço". "O jogo já está acabando", informou o bilheteiro. "Eu não quero ver jogo nenhum. Quero ver é a cara do Ary Barroso", respondeu o torcedor.

Não é difícil imaginar qual era naquele dia o semblante do "flamengo", adjetivo usado antes da popularização da palavra "flamenguista". O que nem todos sabiam era que aquele rubro-negro, espécie de protótipo da imagem do flamenguista fanático, havia sido torcedor do Fluminense.

Amigo de infância de Gastão Soares de Moura Filho, que viria a ser dirigente tricolor e provavelmente o influenciou, o mineiro de Ubá teve como primeira paixão o time das Laranjeiras. Ele chegou ao Rio aos 18 anos para estudar Direito e se tornou sócio do clube, para o qual torceu até 1929.

Naquele ano, no intervalo de uma derrota para o Andarahy nas Laranjeiras, um diretor pediu que ele fosse ao piano "para divertir os sócios". "Não vim aqui para divertir ninguém. Estou vendo é o Fluminense perder o campeonato", esbravejou.

Ary Barroso foi suspenso e, pouco depois, excluído do quadro de associados, sob a justificativa de que não havia pagado as mensalidades durante uma viagem à Bahia. Desgostoso, cogitou se entregar ao Botafogo ou ao America, mas, levado pelo ex-jogador Telefone à sede do Flamengo, lá deixou seu coração.

Ele já era sócio rubro-negro quando começou a construir sua figura como narrador. Aí, chamou a atenção, na descrição de Cabral, com "um charme todo especial, misturando informações com opiniões pessoais, comentários irreverentes e frases de efeito que passaram a ser a grande característica do locutor esportivo".

Houve ocasiões em que a irreverência deu lugar à euforia. Quando o Flamengo conquistou o tricampeonato carioca em 1944, os ouvintes da Tupi não chegaram a ouvir comentários atrevidos de Ary. Ou qualquer comentário dele. Ao apito final, ele já tinha largado o microfone e estava comemorando à beira do gramado.

Sua influência ia além da área do campo. Envolvido na política do clube, Barroso participou ativamente da contratação de jogadores e chegou a ter cargos na diretoria. Enquanto isso, pelas ondas do rádio, exercia um papel fundamental na construção do Flamengo como um gigante popular.

O time não era o mais querido do Rio de Janeiro nos anos 1930, mas a administração do presidente José Bastos Padilha soube aproveitar o momento em que o Brasil tentava fabricar uma identidade nacional para associar a equipe a essa brasilidade que se forjava, no que teve estrondoso sucesso.

Nas palavras de Renato Coutinho, professor do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense, "a gestão Padilha inventou a nação flamenga em sintonia com a nação brasileira que se inventava na época". E Ary Barroso era uma das peças centrais desse projeto.

Não era coincidência que o autor de "Aquarela do Brasil", samba-exaltação de 1938 que era a cara do Brasil pintado por Getúlio Vargas no Estado Novo, fosse um personagem-chave nessa construção. Havia outros intelectuais envolvidos, como o jornalista Mario Filho e o escritor José Lins do Rego, porém a voz do programa era Ary.

"Havia um projeto, não só para o Flamengo mas para o futebol profissional brasileiro", afirmou Coutinho, autor da tese de doutorado "Um Flamengo grande, um Brasil maior: O Clube de Regatas do Flamengo e o imaginário político nacionalista popular (1933-1955)".

De acordo com o pesquisador, estava em curso uma redefinição dos símbolos da cultura popular brasileira, algo que se tornou política de Estado com Vargas. "E o Flamengo se reconstrói, aproximando-se desse discurso nacional baseado na convergência entre a ideia de nacionalidade e popularidade".

Ary Barroso, com seu alcance no rádio e capacidade de comunicação, era a voz desse Flamengo novo -que substituía um clube elitista, representante da fidalguia carioca, apagado ao longo do tempo. Era também a expressão do "Brasil brasileiro, mulato inzoneiro" cantado em sua "Aquarela".

"Grande vendedor da exaltação do Brasil e da exaltação do Flamengo", como define Coutinho, Barroso tem pouco a ver com o que se viu no último Estadual. Há uma relação, claro, pelas narrações parciais, mas o projeto é bem diferente.

O atual presidente rubro-negro, Rodolfo Landim, é um dos principais articuladores da mudança nas regras de venda dos direitos de transmissão. Ele trabalhou com o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), pela MP que alterou a regulamentação e chegou a cobrar R$ 10 pela exibição de um jogo na FlaTV, o que irritou boa parte dos torcedores.

"O escopo atual não é aumentar a abrangência do futebol. É aumentar a captação de clientes", disse Renato Coutinho, para quem "a própria identidade flamenga popular hoje está em crise".

O trabalho dos locutores também é muito distinto do executado por Ary Barroso. Chamados para preencher o espaço aberto quando o Estadual deixou de ser exibido pela TV Globo, eles cumpriram o papel à sua maneira, sem o charme ou as intenções de Ary.

"Enquanto o projeto do rádio foi algo arquitetado, pensado, gestado para vender uma perspectiva, a FlaTV é uma alternativa para um imbróglio judicial. São colocados torcedores, e esses torcedores simplesmente reproduzem o comportamento da arquibancada, o que não era o trabalho do Ary Barroso, do José Lins do Rego. Esses caras interpretavam os significados dos comportamentos da arquibancada", afirmou Coutinho.

Para o professor, "torcer para o chute a gol é um ato simples, que qualquer pessoa pode fazer, mas entender quais são as tensões sociais envolvidas em um jogo é algo que exige um projeto maior". Não houve esse projeto nas transmissões do Estadual do Rio, concluído sem público, sem gaitinha e sem Ary.

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