"Não quero ser a próxima Marielle", diz ex-consulesa após ameaça

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Ex-consulesa da França foi ameaçada nas redes sociais. Foto: Reprodução/Facebook
Ex-consulesa da França foi ameaçada nas redes sociais. Foto: Reprodução/Facebook

Após conceder uma entrevista à CNN Brasil, a jornalista e ex-consulesa Alexandra Loras passou a ser ameaçada em sua página do Instagram. Ela foi convidada para comentar os protestos contra o racismo que estão acontecendo pelo mundo por conta do assassinato de George Floyd. Em sua participação, Alexandra foi perguntada sobre casos de manifestantes que protestaram colocando fogo em alguns locais.

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“Eu entrei no ar e comecei a falar sobre o assunto do assassinato, da violência policial e, de repente me perguntaram sobre as pessoas que estavam cometendo saques e quebrando as coisas. Eu falei que, a violência, quando ela é feita por brancos, ela é aceitável. É aceitável matar milhares de pessoas e tudo bem. Mas quando nós, negros, estamos protestando é inaceitável. Nós seguimos violentados por séculos, desumanizados”, diz.

A polícia dos Estados Unidos matou 1.099 pessoas em 2019. Dessas, 259 eram negras (24%). De acordo com dados do Mapa da Violência, no Brasil, a polícia fez quase 17 vezes mais vítimas negras: 5.804 mortes no mesmo ano. Do total, 75% (ou 4.533) eram negras.

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Para ela, existe uma contradição da sociedade em culpar negros por se manifestarem e não ver problemas em tantas atitudes racistas de brancos. “O fato de os manifestantes terem queimado choca mais do que essas vidas que estão sendo mortas. Meu trabalho sempre foi pautado na diplomacia. Eu não estou dizendo para queimar prédios públicos. Eu estou falando que as pessoas que fazem isso estão protestando. É uma forma de dizer ‘chega’. Eu nunca falei que tinha que queimar as coisas, mas essa pessoa me escreveu”, afirma.

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Depois de sua participação na emissora, ela passou a receber ameaças de um perfil em sua rede social. A primeira delas, aconteceu no dia 12 de junho. A ameaça foi feita por meio das mensagens privadas do Instagram. Nela, a pessoa mandou uma foto de armas dizendo: “Quem é você sua vagabunda esquerdista francesa, de fazer ameaças delegacia e prédio público do Brasil? Vamos ver se embaixada francesa vai salvar você (sic)”.

Outra ameaça foi feita pelo mesmo perfil nos comentários públicos da conta do Instagram da ex-consulesa no dia 15 de junho. A pessoa disse: “Vou chora sua francesa vagabunda, vamos ver se embaixador da França é prova de bala (sic)”. Depois, a pessoa que fez as ameaças apagou o comentário público.

“Eu fiquei apavorada. Não conseguia sair da minha cama. Isso abala muito a gente. Foi uma coisa muito agressiva. É ameaça, mas também existe o sexismo, o racismo. Então, eu preciso me proteger. Eu fiz um boletim de ocorrência on-line e também ativei o escritório Borges & Mariano Advogadas Associadas, que são mulheres negras advogadas e especializadas em episódios de racismo”, afirma.

De acordo com Alexandra, ela irá processar a pessoa que está fazendo as ameaças contra ela e também irá pessoalmente na delegacia especializada em crimes cibernéticos de São Paulo na tarde desta quarta-feira (17) para denunciar o caso mais uma vez. “Eu não quero ser a próxima Marielle [Franco]. Várias pessoas me falaram que eu estou fazendo a mesma coisa que ela, denunciando a violência policial”, diz.

“Eu não quero deixar isso passar. Eu vejo que eu tenho uma certa voz. Hoje, eu decidi que preciso andar com a minha vida. Eu preciso protestar. Tantas pessoas recebem esse tipo de ameaça e não têm voz… que ele seja condenado para que esse caso possa educar as pessoas. Eles não vão me calar”, explicou a ex-consulesa.

Segundo ela, o Brasil vive um apartheid que precisa ser denunciado e ela faz sua parte contra essa segregação trabalhando para dar mais oportunidades para pessoas negras no Brasil. “Romantizar a favela, por exemplo, é uma forma de romantizar essa estrutura que não deveria mais estar desse jeito. Quando eu olho para o feminicídio, o genocídio da juventude negra, eu penso que essas violências são um tipo de vírus e matam muito mais gente do que o Covid-19”, diz.

“Temos que acabar com o racismo e a violência contra a mulher. Eu falo de uma questão de reeducar e dar início a uma nova era de respeito e igualdade. O fato de eu ser uma mulher, negra e estrangeira faz com que eu seja atacada. Essa postagem não é um caso isolado. É consequência forte da nossa jornada. Por isso, eu vou processar ele até o fim. Meninas negras estão sofrendo com ataques todos os dias e não têm a possibilidade de levar esse assunto até a mídia. Eu sofro ataques todos os dias, mas a ameaça de morte me abalou”, afirma.

Na opinião da ex-consulesa, a pessoa que fez as ameaças não está agindo sozinha e deve fazer parte de uma organização. Segundo ela, também estão divulgando fotos de sua casa nas redes sociais dizendo que ela pertence a um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro. De acordo com Alexandra, isso estaria acontecendo para que a população fosse até o local e fizesse ataques.

Depois das ameaças, ela diz que vai voltar para a França por um tempo e que voltará para o Brasil quando a situação estiver mais controlada. “Eu vou voltar. Mas, nesse momento, eu preciso sair do País. Não é que eles ganharam, mas eles me assustaram o suficiente. Eu postei as ameaças nas minhas redes sociais para as pessoas saberem que, se eu desaparecer, não foi um suicídio. Existem grupos de supremacia branca que estão olhando para mim”, explica.

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