Brasileiro é estrela na Arábia e já ganhou até um leão

Yahoo Esportes
Carlos Eduardo em jogo do Al-Hilal em 2017 (MOHAMMED MAHJOUB/AFP/Getty Images)
Carlos Eduardo em jogo do Al-Hilal em 2017 (MOHAMMED MAHJOUB/AFP/Getty Images)

Tiago Leme, de Riad (Arábia Saudita)

Na curta caminhada da entrada do hotel até o elevador que o levaria para a sala da entrevista, um trajeto de apenas 50 metros que poderia ser feito em meio minuto, Carlos Eduardo foi parado para tirar selfies por três grupos diferentes, incluindo um manobrista de carro, um hóspede e três mulheres que estavam com o rosto coberto, só com os olhos à mostra, vestindo uma abaya toda preta, uma roupa típica do conservadorismo árabe. O assédio enorme e frequente mostra o status de superstar que o meia-atacante de 29 anos, pouco conhecido no Brasil, adquiriu no Oriente Médio. Em sua quarta temporada no Al-Hilal, clube mais vencedor do país e onde já brilharam Rivellino e Thiago Neves, “Super Eduardo”, apelido que ganhou dos torcedores, leva uma vida de verdadeiro rei na Arábia Saudita.

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

“Não são todos os jogadores que vêm pra cá e acabam dando certo, que se adaptam legal como eu me adaptei. É difícil ir ao shopping aqui, já aconteceu três, quatro vezes de eu ser retirado por seguranças, porque estava tumultuando o shopping (muitas pessoas pedem autógrafos, fotos). Então, é legal o reconhecimento”, contou o jogador brasileiro, em entrevista concedida ao Yahoo Esportes.

Vivendo na capital Riad desde a metade de 2015, Carlos Alberto tem o seu nome citado na cidade em qualquer conversa sobre futebol. Por lá, não há quem goste do esporte que não conheça o meia-atacante, que deixou o Brasil quando tinha 21 anos de idade para virar estrela do outro lado do mundo. Há relatos de que ele recebe tratamento digno de um membro da realeza quando vai a restaurantes e lojas, mas mantém a humildade e simplicidade no contato com qualquer pessoa ou fã.

Antes disso, o atleta nascido em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, começou a carreira nas categorias de base do São Bento, passou por Desportivo Brasil, Ituano, Fluminense e Grêmio Prudente. Chegou à Europa no início de 2011, no Estoril de Portugal, depois jogou uma temporada no Porto (2013 a 2014) e um ano no Nice (2014 a 2015), da França, antes de encontrar o seu lugar e virar ídolo nacional na Arábia.

Em pouco mais de três anos no Al-Hilal, já balançou as redes 53 vezes. Com gols decisivos, levou o time a ser campeão dos dois últimos Campeonatos Sauditas e lidera novamente a competição atual. Também conquistou outros títulos no país, como a Copa do Rei de 2015, quando fez o gol do título contra o Al-Ahli e ganhou um iPhone de ouro do presidente do clube. Aliás, ganhar presentes pelos serviços prestados à equipe é uma tradição na Arábia. E com a idolatria que tem por lá, Carlos Eduardo já recebeu de um príncipe até um leão. Isso mesmo: um leão.

“Teve um cara que me deu um leão de verdade, um mini leão, só que eu não pude aceitar. O que eu iria fazer com um leão? Não tinha o que fazer, então eu acabei recusando”.

Super Eduardo segue a trilha de outros dois brasileiros que fizeram sucesso no clube azul e branco de Riad e são lembrados até hoje. Rivellino jogou no Al-Hilal entre 1979 e 1981 e Thiago Neves teve três passagens, entre 2009 e 2015. Adaptado às notáveis diferenças culturais em um dos países mais conservadores do mundo, o meia-atacante quer aumentar sua história.

No bate-papo com a reportagem do Yahoo Esportes, Carlos Eduardo também falou sobre investimento financeiro que está sendo feito no futebol da Arábia Saudita, sua vontade de um dia voltar a atuar no Brasil e de quando recebeu a nota 10 do jornal “L’Équipe”, feito que até hoje apenas Neymar conseguiu repetir no Campeonato Francês. Leia abaixo a entrevista completa:

Trajetória na carreira

Eu saí novo do Brasil, com 19 anos fui para Portugal, fiquei dois anos e meio no Estoril, depois fui para o Porto, depois acabei indo para a França, pro Nice. Fiz uma ótima temporada no Nice, e de lá vim pra cá. Eu tinha várias oportunidades de continuar na Europa, até porque eu tinha contrato com o Porto ainda, várias ofertas de outras equipes. Mas quando surgiu a proposta aqui da Arábia, eu sentei com a minha família, com o meu empresário e resolvemos vir pra cá, até pela parte financeira, que era bem diferente da Europa. Estou bem realizado no país. Já tenho três anos, estou indo para o quarto. Construí uma história aqui, tanto no clube como no país, batendo recordes nos campeonatos árabes. Então eu estou muito feliz com a minha vida aqui, com essa minha trajetória, minha história no futebol aqui.

Evolução do futebol na Arábia

As pessoas pensam que aqui o futebol é fraco, que não tem torcida no estádio, mas é bem diferente. Quando eu cheguei, vi uma qualidade no futebol, a torcida é fanática, os estádios estão sempre cheios, os clássicos têm sempre 60 mil, 70 mil pessoas. Estando em outro país como no Brasil ou na Europa, a gente não acredita que tem esse futebol que eu estou vendo hoje aqui. Eu fico muito contente pelo nível do campeonato. As pessoas acham que é um futebol fraco, mas tem muita qualidade. Inclusive os brasileiros que chegaram agora e até mesmo os jogadores que estavam na Europa falam que o nível é muito bom, que é bem difícil de jogar. O nível aqui também é alto. Acho que no futebol em geral mudou muita coisa, taticamente, fisicamente, então hoje o futebol está muito nivelado. Com a chegada do novo ministro mudou muita coisa, liberaram ter sete estrangeiros por clube, então a qualidade do campeonato aumenta mais ainda. Estão colocando muito dinheiro, fazendo um investimento muito forte, estão trazendo treinadores de nome da Europa, tiraram o Carille do Brasil pra cá. Então eu acredito que o nível vai aumentar mais, esse é o objetivo do ministro, elevar o nome da Arábia Saudita no futebol.

Superstar na Arábia

Fico feliz pelo carinho que tenho aqui, pelas pessoas. Não são todos os jogadores que vêm pra cá e acabam dando certo, que se adaptam legal como eu me adaptei. Fico feliz pelo carinho. É difícil ir ao shopping aqui, já aconteceu três, quatro vezes de eu ir ao shopping e ser retirado por seguranças, porque estava tumultuando o shopping (muitas pessoas pedem autógrafos, fotos). Então, é legal o reconhecimento, aqui eu tenho esse carinho muito grande pelas pessoas, porque desde que eu cheguei me acolheram muito bem.

Diferenças culturais

O primeiro ano foi um pouco mais difícil pelo fato de o país ainda estar muito fechado. Mas de um ano pra cá mudou bastante, várias coisas que eram ilegais no país hoje se tornaram legais. Como as mulheres poderem dirigir, as mulheres poderem ir nos estádios, liberou cinema, então o país está abrindo mais. Antes tinha o guarda religioso, que sempre estava no shopping, às vezes se você tivesse de bermuda no shopping o pessoal meio que dava dura. Hoje está um país mais liberado. Claro que não liberou tudo, mas mudou muita coisa. Bebida alcoólica é proibida, cerveja só sem álcool, tem as cinco rezas diárias do islamismo, nas mesquitas ainda não pode entrar quem não é muçulmano, isso não mudou desde que eu cheguei aqui.

Semelhanças entre árabes e brasileiros

A gente vê (essa semelhança). São pessoas que fazem como o brasileiro, sempre que tem um estrangeiro no Brasil acolhem muito bem, é o mesmo que fazem aqui. Até pelo fato de ter pouco turista aqui, o turismo ainda é fechado. Eles são bem calorosos em termos de recepção aqui no país, então é bem bacana.

Situações curiosas na Arábia

Passei por várias situações. Logo que cheguei, eu ainda não sabia que tudo fechava para as rezas, eu estava no supermercado e começou a fechar tudo. Eu já imaginei: “ainda são 3 horas da tarde e já está fechando tudo?”. Eu estava no caixa para pagar, o cara levantou na minha vez, virou as costas e foi rezar. Essa foi uma das coisas curiosas logo no começo, mas já tive várias coisas, torcedores me dando presentes, enfim.

Presente exótico: um leão

Eu já ganhei relógios, iPhone de ouro, vários presentes, já ganhei bastante coisa (de dirigentes do clube e príncipes). Até teve um cara que me deu um leão de verdade, um mini leão, só que eu não pude aceitar. O que eu iria fazer com um leão? Não tinha o que fazer, então eu acabei recusando. Na rua mesmo já teve torcedores que tiraram o relógio e falaram: “eu tenho que te dar alguma coisa, porque talvez eu possa não te ver mais e quero fazer alguma coisa por você”. Então, é bem diferente dos outros lugares que eu joguei.

Rivalidade entre Al-Hilal e Al-Nassr

A rivalidade é bem grande. É como se diz no Brasil: pode perder todos os jogos, menos os clássicos. Mas é bacana, porque mesmo tendo essa rivalidade, tem os brasileiros no outro clube, que são rivais, mas temos uma amizade muito boa. Dentro de campo é igual no Brasil, as torcidas, estádios cheios. Meu primeiro jogo aqui com o Hilal foi uma Supercopa em Londres, e eu acabei fazendo o gol do título. De lá pra cá todos os jogos eu tenho feitos gols contra o Al-Nassr nos clássicos.

Rivellino e Thiago Neves no Al-Hilal

Quem tem uma história bacana no clube é o Rivellino e o Thiago Neves, ambos jogaram quatro anos aqui e fizeram uma história legal. Eu joguei com o Thiago no Fluminense, e acabei vindo pra cá pro lugar dele, porque ele tinha saído, então eu tenho esse contato com ele.

Período no Fluminense

Foi bacana pra mim, porque eu tinha acabado de subir para o profissional no Ituano, e três meses depois fui pro Fluminense. Acabamos nos livrando do rebaixamento em 2009, mas a gente tinha um elenco muito bom, um elenco de nome, jogadores como Fred, Leandro Amaral, Thiago Neves, Conca, o Cuca terminou o campeonato como técnico. Joguei acho que 20 ou 25 jogos no Brasileiro na época, eu era muito novo e fica aquele gostinho de às vezes querer voltar, aquela vontade, hoje mais maduro, mais experiente. Mas não sei se ainda é o tempo certo disso. Mas sempre quando tenho propostas, tive do Corinthians um ano e meio atrás, aí acaba balançando um pouco, de hoje mais experiente querer mostrar meu futebol no Brasil.

Vontade de voltar ao Brasil? Europa?

Não tenho nenhum lugar específico ainda. Quero voltar, se possível pro meu Estado de São Paulo, que eu gosto. Mas qualquer clube do Brasil hoje, da Primeira Divisão, são clubes de nome, o Brasil tem vários grandes clubes. Eu não tenho esse objetivo de voltar para a Europa, ou eu vou ficar aqui ou eu vou voltar para o Brasil. Já não tenho mais essa ambição, queria ter jogado em um clube grande e consegui alcançar isso lá no Porto.

Nota 10 na França, assim como Neymar

Foi um jogo que eu fiz cinco gols no Campeonato Francês, contra o Guingamp (vitória do Nice por 7 a 2, na temporada 2014/2015), e acabei recebendo a nota 10 do “L’Équipe. Tinha sido o primeiro 10 da história, foi uma coisa que repercutiu bem lá na Europa, porque nunca nenhum jogador tinha recebido 10 e já tinham passado grandes craques, o Ronaldinho Gaúcho, o Beckham no Paris Saint-Germain, e ninguém tinha conseguido. E o Neymar uns quatro ou cinco meses atrás conseguiu também a nota 10 (na vitória do PSG sobre o Dijon, por 8 a 0, em janeiro de 2018, quando fez quatro gols). Fiquei feliz por ser outro brasileiro.

Aprendizados na Arábia Saudita

Primeiramente o compromisso que eles têm com a religião, acho que isso é importante, são cinco rezas ao dia, uma às 5 da manhã e assim vai. Eles param tudo para servir ao Deus deles. Acho isso bacana. A cultura também, é um povo alegre, feliz. O que eu aprendi aqui com a cultura árabe é uma coisa impagável, porque só quem está aqui mesmo consegue viver essa experiência, querendo ou não a gente entra na rotina deles, na vida deles. A gente não está aqui só para jogar e fazer o nosso trabalho, a gente acaba se envolvendo na cultura deles, em termos de comida, de tudo no país.

Elogios à vida na Arábia

As pessoas quando falam da Arábia já colocam outra coisa na cabeça. Eu era assim também antes de vir pra cá, falou Arábia eu já comecei a imaginar mil e uma coisas. Mas aqui é um país super tranquilo, um país seguro, um país onde você não vê nada de violência, nada de roubo, porque aqui tem leis, é o que às vezes falta para o nosso país. Aqui eu vou ao supermercado, deixo meu carro aberto, ligado se está muito quente, e você volta o carro está do mesmo jeito, ninguém mexeu em nada, porque tem leis. Acho muito bacana isso do país.

Leia também:
– Denilson volta aos gramados após conversas com ex-SP
– M. Assunção: idolatria na Roma e baladas com Denilson
– Veja como ficou o mapa do futebol brasileiro para 2019

Leia também