Nas portas dos hospitais de Manaus, histórias de morte, incerteza e esperança

Yahoo Notícias

Por Yan Boechat

Os enfermeiros do Hospital Estadual João Lucio ainda comemoravam a marca de ficarem 24 horas sem registrar nenhuma morte quando Elaine Espírito Santo pulou de um Uber em busca de ajuda. "Moço ajuda, meu pai tá morrendo ali no carro, ele não consegue respirar, ele tá com o corona". Sua irmã, Amanda, tentava reanimar Armando José Espírito, de 60 anos, no banco de trás do carro acariciando lentamente seu peito enquanto as lágrimas desciam por trás dos seus óculos escuros. Armando perdeu a consciência logo que entrou no Uber. Reclamou que não conseguia respirar. Quando chegou à porta da emergência do João Lúcio no meio da tarde de sexta-feira, já estava morto.

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“Foi tudo muito rápido, hoje de manhã ele tomou o café dele, conversou, a febre tinha baixado”, contava Amanda, enquanto esperava notícias da irmã, que entrara com os enfermeiros para a sala de reanimação, onde os médicos ainda tentavam trazer o vendedor ambulante de volta à vida. “Todos estamos doente lá em casa, acho que todo mundo tá com o corona, mas só ele ficou mal assim”, dizia ela. Logo depois do almoço, conta Amanda, Armando começou a reclamar que a falta de ar tinha ficado mais intensa. Logo ficou ofegante. 

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Quando decidiram levá-lo para o hospital, ele já mal conseguia falar. “Ele não queria vir, estava com medo do que estava vendo na televisão, a gente também…”, contava Amanda ao ser interrompida Elaine. “Papai morreu, ele não resistiu, papai tá morto”, dizia a irmã. Enquanto as duas choravam abraçadas, uma ambulância do Samu trazia mais um paciente de Covid-19 em estado grave. 

O enfermeiro Anderson Santos observava a cena de longe, enquanto se preparava para voltar para casa após mais um longo plantão no João Lúcio. Poucos minutos antes, ele celebrava a conquista de um dia raro desde que teve início a epidemia da Covid-19. “Hoje foi o primeiro dia em semanas que não tivemos óbitos, acho que estamos conseguindo entender e vencer a doença”, comemorava. “Por dias e dias eu saia daqui nessa hora com a mão doente de tanto fazer reanimação de pacientes, de tanto tentar reverter paradas cardíacas no braço”. A morte de Armando diante da entrada da emergência parece ter desanimado o enfermeiro. “Quando será que isso vai acabar?”

Referência em Politraumatismo, o João Lúcio se transformou em um dos símbolos do colapso no sistema de saúde do Amazonas desde que a crise desencadeada pelo novo coronavírus chegou ao Norte do país. Vídeos mostrando pacientes dividindo salas com corpos, parentes dormindo sob leitos com pacientes infectados, mortes e mais mortes. Superlotado, a emergência do João Lúcio viu casos como o de Armando Espírito Santo se repetirem incontáveis vezes. Foram tantos os corpos nesse último mês que uma câmara frigorífica foi instalada em um dos estacionamentos do hospital. “Esse mês que passou não foi fácil não, viu, macho”, dizia o enfermeiro Anderson ao entrar em seu carro.

A poucos quilômetros da dali Joana Pereira, de 36 anos, tentava conter o choro diante do pai. José Paulo Pereira, de 71 anos, ainda estava na maca de uma ambulância do Samu na porta do Pronto Socorro 28 de agosto, um dos hospitais de referência para a Covid-19 aqui em Manaus. Como em tantos casos aqui, José Paulo já estava com febre, dor no corpo, fraqueza há mais de 10 dias. Até que na manhã de sexta-feira começou a sentir uma dificuldade incrível para respirar. Chegou ao 28 de Agosto com a saturação do oxigênio a 72%, dizia o oxímetro dos enfermeiros do Samu. Mesmo com o catéter a lhe jogar oxigênio puro nos pulmões, seguia ofegante, arfando, quase sem poder falar.

Em meio às incertezas se de fato haveria um leito disponível para o pai, Joana tratava de dar ordens ao velho senhor: “não me tire essa máscara lá dentro, papai, está ouvindo, aí tá tudo infectado, não me faça um besteira dessas”. José Paulo assentia com a cabeça, como que prometendo ser o mais comportado possível. Foi só quando seu pai sumiu pela porta que dá acesso à emergência que Joana desabou. “Eu não quero perder mais ninguém”, me dizia ela, como que tentando explicar as lágrimas e os soluços. “Minha filha de um ano morreu há um mês, morreu de pneumonia, não foi dessa doença não”.

Perto dela, Roberto esperava uma chance de encontrar uma técnica de enfermagem que volta e meia vinha trazer informações para os parentes dos pacientes internados com Covid. Por determinação do hospital, nenhum acompanhante é permitido e as informações sobre o estado de saúde das vítimas é divulgado apenas uma vez por dia. “É um desespero, porque a gente não sabe o que está acontecendo”, dizia Roberto, que todos os dias vai para a porta do 28 de Agosto em busca de alguma informação. “Eles divulgam um boletim médico às 11 horas, todo dia, mas não dão informação quase nenhuma, basicamente dizem se o seu parente ainda está vivo ou se já morreu”, contava, pouco antes de seu irmão retornar com boas notícias, conseguidas de forma clandestina com um enfermeiro amigo da família. “Papai melhorou, saiu da sala 1 para a sala 2, já está usando menos oxigênio”, dizia Marcelo, dando um abraço no irmão. “Acho que ele vai sair dessa”.

O 28 de Agosto, assim como quase todos os hospitais de Manaus, segue cheio também e o número de mortes se acumula com o passar dos dias. Aqui também uma câmara frigorífica foi instalada para desafogar o necrotério, sempre cheio. Tristeza para muitos, alegria para alguns. Fernando Marcondo, de 27 anos, trabalha há 10 anos em uma funerária de Manaus. Desde que pandemia se espalhou por aqui, Fernando segue o rastro da morte. “Antigamente a gente lutava pra conseguir fazer 5 sepultamentos na semana”, conta ele, sem nenhuma cerimônia. “Agora não estamos conseguindo dar conta da demanda, só conseguimos fazer 10 por dia, esse é nosso limite”. 

Como ele, outros funcionários de funerárias passam o diz buscando parentes de vítimas. A senha para abordá-las é um formulário amarelo, indicando que houve o óbito. “Olha lá aquela mulher descendo pro frigorífico, tá vendo o papel amarelo? Mais um que morreu”.

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