Na Grécia, lateral revelado pelo Cruzeiro explica saída precoce do Brasil: 'Foi a melhor coisa que fiz'

Alexandre Guariglia

A geração de jovens jogadores que antecedeu o bicampeonato brasileiro do Cruzeiro em 2013 e 2014, revelou peças importantes para o elenco principal, alguns deles para o mundo. Além de Mayke, Vinícius Araújo, Alisson, Lucas Silva e Élber, o lateral-esquerdo Vinicius fez parte dessa safra, embora não tenha recebido chances de atuar no profissional. Hoje, na Grécia, o jovem de 24 anos já passou pela Itália e pela Suíça, mas ainda está em busca de mais minutos em campo.

Em entrevista ao LANCE!, o jogador do AEK, diz não se arrepender de ter saído do Brasil antes mesmo de estrear como profissional. Para ele a mudança foi um marco em sua vida.

- Mudou minha vida em todos os aspectos, ter saído cedo me fez ser um outro jogador, uma outra pessoa fora de campo, foi a melhor coisa que eu fiz, apesar de não ter jogado na Lazio. Virei jogador aqui. Sempre tive o sonho, botei na minha cabeça que queria jogar na Europa, e acabou que deu tudo certo, acho que agora é buscar meu espaço aqui, porque eu quero continuar no futebol europeu, subir de Liga, de nível, o importante é ganhar minutos - afirmou.

Quando foi negociado com a Lazio, em meados de 2013, ainda possuía contrato com o Cruzeiro até o fim daquele ano, assim os clubes negociaram sua saída antes do término do vínculo. Apesar de sempre ter sido tratado como um joia no clube romano, nunca teve uma oportunidade de entrar em campo.

- Acho que faltou oportunidade, acho que desde que eu cheguei lá, eles sempre acreditaram no meu potencial, o lateral-esquerdo (Stefan Radu, romeno) é um dos líderes do grupo, é o vice-capitão do time, então era difícil ter oportunidade, mas é vida que segue, agora a Lazio está no meu passado, fiz grandes amigos ali, o Felipe Anderson, o Hernanes, que me ajudaram bastante quando cheguei lá - comentou.

Antes de ser negociado em definitivo com o AEK, foi emprestado para o Padova (10 jogos) e para o Perugia (15 jogos), ambos da Itália, e para o Zurich (24 jogos), da Suíça, país em que pôde perceber que está absolutamente adaptado ao continente.

- No ano passado eu morei na Suíça, depois que eu vi o verdadeiro frio, lá em Roma faz frio mas não tanto, na Suíça nevava, depois que eu joguei lá posso jogar em qualquer lugar do mundo. O pessoal é muito frio, mas morei em Zurique, cidade maravilhosa, fiz amigos lá. A experiência valeu.

Entre tantas experiências na Europa, algo que Vinicius admira é o profissionalismo e o modo com que os jogadores do continente lidam com suas carreiras dentro e fora de campo. No Brasil, no entanto, a cultura é um pouco diferente.

- O jogador quando vem para a Europa ele não cresce só dentro de campo, mas fora também, a maneira de viver, de se alimentar, nesse aspecto de se cuidar mais, de ver que seu corpo é seu instrumento de trabalho, acho que no Brasil ainda falta um pouco isso, essa mentalidade que o europeu tem, por exemplo, aqui na Europa você tem que chegar 45 minutos, uma hora antes de o treino começar. No Brasil o treino era 15h horas e o pessoal chegava 14h55, 14h58...

Em 2012, quando o Cruzeiro era comandado pelo técnico Celso Roth, o lateral foi chamado para integrar a equipe profissional. Junto com ele subiram Mayke e Alisson, dois jogadores que hoje são titulares da Raposa. A fase pela qual o time passava e uma lesão acabaram impedindo seu crescimento no grupo principal.

- Acho que eu subi em um momento complicado, naquele momento o Cruzeiro brigava para não cair, não foi em uma ocasião tranquila. Depois, inclusive, a gente conseguiu se livrar do rebaixamento e eu desci para jogar o Brasileiro sub-20. Aí mudou o treinador, veio o Marcelo Oliveira e ele falou que eu, o Mayke e o Alisson não jogaríamos a Copa São Paulo para nos apresentarmos no profissional, mas acabou que na semifinal do Brasileiro sub-20 eu fraturei o pé e fiquei seis meses parado, então eu desci para tratar a lesão e em julho eu fui vendido para Lazio - relembrou.

No último ciclo Olímpico Vinícius fez parte das primeiras convocações do técnico Alexandre Gallo na Seleção. Mesmo após a saída do treinador e a chegada de Rogério Micale, ainda teve chance de disputar o Pan-Americano de Toronto, em 2015, quando o Brasil ficou com a medalhe de bronze. Embora não tenha sido chamado outras vezes, apenas comemora os momentos que viveu.

- Não tenho mágoa, de maneira nenhuma, todo jogador quer vestir a camisa da Seleção, todos os jogos que eu joguei dei minha vida, porque era meu sonho jogar. Mágoa nenhuma, só agradecer pela oportunidade - disse.

Na Grécia, logo em seu segundo jogo com a camisa do AEK, foi colocado em uma prova de fogo, justamente em um dos maiores clássicos do mundo, contra o Olympiakos. A torcida do clube grego já tem o carinho do lateral brasileiro, só não pode se descuidar.

- A torcida do AEK é como se fosse o Flamengo da Grécia, os caras são fanáticos mesmo, se sai pra comer alguma coisa os caras param para tirar foto, sempre tem alguém. Eles são meio malucos. O dérbi, por exemplo, a gente só pode jogar com um torcida, porque se estiverem as duas, eles se matam. Com a gente eles não mexem, é só não entregar um gol, aí não pode (risos).

A negociação da Lazio com o AEK era para ter sido concretizada apenas no meio do ano, mas acabou sendo antecipada justamente para que o jogador pudesse ter um período de adaptação ao time. Como não estava atuando pelo clube italiano, a opção por chegar já em janeiro ao futebol grego fez bem a Vinicius, que já se sente parte do projeto.

- Estou buscando meu espaço e esperando o treinador me dar oportunidade, me sinto importante para o projeto, acho que é tudo no seu tempo certo, o importante é que o time está ganhando, está brigando para entrar nos playoffs para jogar a Liga Europa na próxima temporada e tudo tem caminhado bem - finalizou.

BATE-BOLA VINÍCIUS, LATERAL-ESQUERDO DO AEK, DA GRÉCIA

Como está a vida na Grécia?


A vida aqui é muito boa, a cidade é bem bacana, eu estou gostando bastante, bem mais quente, se for comparar com Roma, eu tenho só um mês e meio de clube, conheço pouca coisa ainda, acho que daqui até junho vai dar para conhecer mais coisas, mas a cidade é muito bacana.

E com a língua, teve problemas?
Foi tranquilo, meu técnico é espanhol, tem bastante jogadores sul-americanos, então fica mais fácil, e eu falo um pouco de inglês, então com os jogadores gregos eu me comunico assim, mas o grupo é bem bacana, me receberam bem e eu estou bem feliz aqui.

O AEK é um time em reestruturação, como você está se sentindo dentro desse processo?
O diretor, quando me fez a proposta, disse que nesta temporada eles querem brigar por uma vaga continental, além de estarmos na semifinal da Copa. Com isso, eles querem montar um time para ganhar o campeonato na próxima temporada. O clube está em reestruturação, há dois ou três anos passaram por alguns problemas, mas no ano passado foram campeões da Copa, o elenco é muito bom, bastante competitivo, e desde que eu cheguei ainda não perdeu, então as coisas estão andando bem.

Ter chegado na metade da temporada, pode ter prejudicado na busca por um lugar no time?
Pode ser também, porque o treinador não me conhecia, não foi indicação dele, então tenho que buscar meu espaço, mas eu estou tranquilo porque o diretor foi bem claro comigo, me falou que eu estou no centro do projeto, na verdade era para eu ter vindo só em junho, acabei antecipando minha vinda, tinha mais seis meses de contrato com a Lazio e não vinha tendo oportunidade, então esses seis meses são mais para adaptação e entrar no time aos poucos.

O que você ganhou com a sua ida para a Europa?
Acho que o Campeonato Italiano para mim foi a melhor coisa, porque lateral brasileiro pensar em atacar, ofensivo, depois que eu fui para a Itália eu cresci muito taticamente, porque eles trabalham muito isso e é um pouco chato. É um pouco difícil para o jogador brasileiro quando vem pra cá, vou citar o exemplo do Gabigol, saiu do Brasil em ascensão, todo mundo achou que ele chegaria na Inter pra jogar e não está jogando, e não deve estar jogando porque os treinadores aqui são bem rígidos, se você não cumprir a função tática, ele não vai te colocar para jogar, pode ser o jogador mais talentoso, não vai jogar. Então nessa questão tática eu aprendi muito e ainda tenho muito a crescer. Apesar de não ter jogado na Lazio, joguei na Série B, no Perugia, então para o meu crescimento foi importante.

Você acha que essa questão de um maior profissionalismo dificulta a adaptação dos brasileiros?
Acho que é a cultura brasileira, mas como eu falei, a partir do momento que você vem para a Europa, você aprende, por exemplo, que se estiver na mesa do jantar, não pode ficar usando celular. Na Itália, quando você estiver indo para o jogo, não pode ficar rindo muito no ônibus, então é a cultura deles, a gente tem que aprender, obviamente nós brasileiros somos mais extrovertidos, gostamos de música no vestiário, não que não tenha, mas aqui o pessoal é mais reservado, cada um com a sua cultura, você vai pegando um pouco de cada.

Tanto no Cruzeiro quanto na Seleção você participou de gerações fantásticas...
Joguei com o Lucas Silva, fomos convocados juntos para a Seleção, Vinicius Araújo também, Mayke estava também, não foi para a Seleção, mas estava com a gente, o Alisson, o Élber, o Wallace, que agora está na Lazio, Essa safra foi muito boa. Na maioria dos torneios a gente estava chegando entre os primeiros.

Você chegou a jogar em outra posição que não fosse lateral?
Na Itália eu jogava de lateral, mas na verdade era ala, porque a maioria dos times que joguei era no 3-5-2. Pelo lado esquerdo eu jogo também de volante, já joguei assim na Seleção, como segundo volante, no losango, também posso jogar de extremo, como falam aqui. Então pelo lado esquerdo eu posso fazer as três posições. No primeiro dérbi que eu entrei contra o Olympiakos, eu joguei como extremo.



















































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