'Não tenho medo de ser rotulada de feminista', diz Aline, vice-campeã mundial no wrestling

Carol Knoploch
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Quando Aline Silva foi parar no hospital após uma bebedeira, ouviu o médico perguntar para a sua mãe, Lídia: "Onde é que a senhora estava pra sua filha de 11 anos estar nessa situação?". Em nenhum momento perguntou onde estava o pai, que abandonou a família quando Aline não tinha nem um ano. A culpa era toda da mulher, mãe solo, que se desdobrava para levar comida para casa. Aline, hoje com 34 anos, o maior nome do wrestling no Brasil, que já está classificada para a Olimpíada de Tóquio, tem orgulho da sua história, construída em meio às dificuldades, superando assédios, limitações e o tratamento desigual para as mulheres, mulheres pretas e mulheres pretas e pobres.

Ela é uma das principais vozes entre os poucos atletas que levantam as bandeiras contra o machismo, homofobia, racismo, desigualdade social entre outros preconceitos. Desta sexta a segunda-feira, Dia Internacional da Mulher, o GLOBO publicará histórias de três atletas, de gerações diferentes, engajadas por um mundo mais igualitário.

— Se eu fosse comemorar algo, seria a abertura da nossa sociedade para falar de temas como esses. Para quem vive oprimido por este sistema no dia a dia, é um alívio. Mas não vejo como uma conquista. É uma pré-disposição para chegar lá. É um começo — fala a vice-campeã mundial e dona de três medalhas em Pan-americanos.

Aline conta que seu pai foi embora para formar outra família. E não fez esforço para estar perto dela durante grande parte de sua vida. Pequena, foi morar com a avó. Ela passava muito tempo sozinha, na rua. Era um pouco rebelde e ficou mais e mais com o passar do tempo. Tentando entender a Aline daquela época, ela acha que só queria ser percebida.

Mas não tem vergonha do passado. A trajetória de eletrocardiograma a transformou na mulher de hoje. Atleta de elite que arregaça as mangas por mudanças. É destemida.

Em 2018, criou o Mempodera, projeto social no bairro Jardim Nova República, conhecido como Bolsão 8, em Cubatão, na Baixada Santista. Nele, crianças de 8 a 15 anos têm aulas de wrestling e inglês. Só abriu vagas aos meninos, após consolidar turmas para garotas.

— Treinei judô, jiu jitsu, wrestling e em todos os lugares, 90% eram homens. Em muitos, eu era a única menina. Até hoje tem gente que pensa que menina deve se comportar e não ganhar bola. Isso não é coisa do passado — diz Aline, que teve de bater na porta da casa de muitas famílias para encher o Mempodera.— Esse projeto é o que eu queria que tivessem feito por mim. Sofri abusos a minha vida toda e só aprendi depois, não sabia. É tentar evitar que outras meninas vivam o mesmo e também sonhar com transformações. Quando elas levam a lição para casa, mudam padrões.

Recentemente, ela foi eleita, após briga na Justiça e voto dos atletas, vice-presidente da Confederação Brasileira de Wrestling. É a primeira mulher a ocupar este cargo na entidade. Pouquíssimas estão em postos como este no esporte.

Ela diz que o esporte tem muito a melhorar e que foi natural se colocar nesta posição. Lembra que nos Jogos de Tóquio, apesar da quase igualdade em número de mulheres (49%) e homens (51%), o machismo continua muito presente. Vai além das falas inapropriadas do ex-presidente do Comitê Organizador Local. Mulheres não podem lutar greco-romana, um dos estilos do wrestling.

— Sexo e gênero não estão embutidos nesses números. Eu não posso lutar greco-romana nem um homem fazer ginastica rítmica. Isso é pura construção de gênero, base do machismo. Se não tem os dois naipes, tira do programa.

Momento de choque

Para Aline, o momento é de inquietação e mais mudanças, uma vez que a "fase da negação", de que não existe machismo ou racismo, já era. Agora, segundo ela, é impossível dar um passo atrás.

— Vivemos um choque tremendo. O conhecimento traz isso. É legal ver que já se tenta entender como temos tantos preconceitos impregnados. E como os praticamos sem nos dar conta. Uma vez que as pessoas estão entendendo o racismo, o machismo, a homofobia, assédios diversos, não tem como desaprender. Não tem como dar um passo atrás. Passa a ser uma questão de escolha real. E a maior parte da população quer mudar. Não precisa virar militante.

Aline conta que não foi fácil reconhecer sua vulnerabilidade. E que isso mudou a medida que estudava, fora dos bancos escolares.

Passou a se sentir mais segura para lidar com armadilhas e excessos. Obras de Chimamanda Ngozi Adichie e Djamila Ribeiro fazem parte do seu dia a dia. Assim como acompanha projetos como o Think Olga, ONG que tem a missão de sensibilizar a sociedade para as questões de gênero e intersecções, e o Uma vitória leva a outra, parceria entre a ONU Mulheres e o Comitê Olímpico Internacional.

Segundo ela, o fato de estar rodeada de pessoas esclarecidas, que foram buscar cultura e conhecimento, sempre lhe ajudou. Formada em Educação Física e em Estética, costuma dizer que, nesse quesito, tem sorte:

— Na minha família esses assuntos são abordados. Tenho até medo de ser intransigente. É muito passional tudo isso para mim. Mas não tenho medo de ser rotulada de feminista.

Lídia, sua mãe, hoje com 54 anos, não teve as mesmas oportunidades que a filha. Estudou até o Ensino Médio e só agora fez Gestão Financeira e Contabilidade. Nem por isso deixou de seguir o rumo desta história:

— Vê-la batalhar agora por conhecimento, depois de tudo que passou, me enche de felicidade. Sou realizada em tê-la como mãe e ver que ela está vindo comigo nesse processo de aprendizado e luta.