Não tem racha, tem gente que se gosta e não se gosta, diz presidente da confederação de skate

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TÓQUIO, JAPÃO (FOLHAPRESS) - O skate deve terminar as Olimpíadas como queridinho dos brasileiros. Nas pistas, Kelvin Hoefler garantiu a primeira medalha no Japão, e Rayssa Leal, 13, virou a atleta do país mais jovem a subir num pódio em uma edição dos Jogos. Presidente da CBSk (Confederação Brasileira de Skate), Eduardo Musa faz planos ousados: transformar o skate no segundo esporte do Brasil.

As conquistas, no entanto, trouxeram à tona atritos e polêmicas entre os atletas. Kelvin rompeu relações com a entidade semanas antes de viajar ao Japão, como mostrou o jornal Folha de S.Paulo. Na concentração para o evento, ele e Pâmela Rosa se isolaram do restante da equipe.

Do outro lado, Leticia Bufoni fez pouco caso da medalha de prata do colega e foi a primeira a mostrar que algo ali dentro não ia bem. Em entrevista à reportagem, Musa, que é ex-braço direito de Neymar, admite os problemas internos, diz que há pessoas que se gostam e outras que não se gostam, mas que todos viajaram sabendo exatamente qual era a situação e o papel de cada um.

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Pergunta - Como o sr. avalia os resultados até agora?

Eduardo Musa - É um resultado espetacular. Vir para uma Olimpíada com seis nomes do skate na posição e no momento da carreira em que eles estão permite sonhar. Sonhava com mais coisa? Sim. Era possível? Era. Mas não posso ignorar que o resultado é espetacular.

O que o resultado significou para o país?

EM - Falo há muito tempo que a confederação tinha que estar preparada para um boom do skate após as Olimpíadas. Acho que vai acabar se confirmando uma explosão para os próximos anos, e meu objetivo é que, de forma institucional, o skate se torne o segundo esporte do Brasil.

Como chegar a isso?

EM - Para a massificação, nosso ponto central é a qualidade de pistas públicas no Brasil. Nosso problema hoje não é quantidade, é qualidade. Tem muita prefeitura fazendo qualquer tipo de pista, e aí o prefeito depois reclama que a pista está vazia.

Quando viu Rayssa pela primeira vez, o que chamou a sua atenção na personalidade dela?

EM - Confesso que, da primeira vez, vi uma menina bem alegre, mas não tinha percebido ainda quem era a Rayssa. Na primeira viagem com o grupo vi que tinha alguma coisa diferente. Raciocínio, postura.

É uma criança, uma menina, me chama de tio, mas ela sabe o que está acontecendo. Até em perguntas indelicadas sobre dinheiro, quanto ela ganha, ela tirou de letra. As imagens da final, se você apagar o Tóquio-2020, parecia que ela estava numa pista com as amigas. Isso me faz acreditar que, se a família e a confederação conseguirem trabalhar direito, teremos um futuro brilhante para a Rayssa.

Foi um racha o que existiu entre o Kelvin e a Pâmela e o restante da seleção?

EM - De jeito nenhum. A gente está num ambiente de competição. Óbvio que no nosso grupo tem pessoas que se gostam ou não se gostam. Se o problema tivesse acontecido na seleção, eu até poderia aceitar [a palavra] "racha", mas veio todo mundo sabendo o que ia acontecer. Não era um segredo. Eles se conhecem, cada um no seu canto, convivem, bom dia, boa tarde, boa noite e é isso que dá.

O sr. acha que tudo bem atletas da mesma seleção não se falarem?

EM - Tudo bem. Todo mundo decolou sabendo disso, sem problema nenhum. Inclusive se não quiser falar comigo ou com a Tati, chefe de equipe, não tem problema. Temos um combinado: ir para o treino, fazer fisioterapia, recuperação. Fez isso, é um acordo profissional entre a gente. Se pudermos ter um ambiente melhor, lindo. Fico zero incomodado quando duas pessoas não se relacionam.

O jornal Folha de S.Paulo mostrou que Kelvin rompeu com a confederação porque houve veto à ida da esposa dele ao Japão, como treinadora. Uma reportagem do UOL diz que o problema do atrito também teve relação com o fato de Letícia Bufoni ter sido a única liberada para os X Games. Por que só ela foi?

EM - Porque ela quis.

Houve algum veto da confederação à participação da Pâmela ou do Kelvin?

EM - Não, zero.

Mas houve um pedido deles em algum momento?

EM - Não. A gente embarcou dos EUA para cá no dia 17 [de julho]. No dia, não lembro se foi o Kelvin ou a Ana, esposa dele, quem perguntou se ele poderia alterar a data da viagem dele. A gente explicou os problemas: activity plan [plano em que todos que entraram em Tóquio tiveram que detalhar seu cronograma], exames de Covid de 96 e 48 horas e remarcação [da passagem]. Eles falaram "pô, a gente gostaria de ficar, porque aí talvez o Kelvin fosse aos X Games". E zero problema. Tudo virou um caldeirão só quando não deveria. O vídeo da Leticia não tem nada a ver com os X Games. É um problema dos dois. Não sei o motivo e nem quero saber.

Como foi o processo para a Leticia ir aos X Games?

EM - Ela começou a conversar com a gente um pouco antes. Conversamos com ela, com o empresário dela, nos posicionamos que a gente achava que ela estava fazendo a programação errada. A primeira vez que eu soube que existia essa possibilidade foi no dia 4 de julho. Nos EUA a gente conversou novamente, ela disse "obrigado, entendo, mas vou". E, do mesmo jeito que não tenho poder para liberar, não tenho para vetar. Nosso único poder é no momento de marcação de passagem. Tanto que ela bancou a passagem dela.

Os pais do Kelvin reclamaram da confederação. Por qual motivo o senhor atribui a reclamação?

EM - Estou há quatro anos como presidente da confederação e não conheço nem o tom de voz do pai nem da mãe dele. Todos os nossos contatos foram com a Ana e com o Kelvin. Então, sinceramente, não sei.

O senhor conversou com o Kelvin sobre isso?

EM - Bastante. Estamos resolvendo internamente. Quando ele ficou bravo com a impossibilidade de a Ana Paula vir, ele se afastou. Uma coisa que foi muito legal é que dois dias antes da competição batemos um papão. A gente continua discordando, mas o relacionamento voltou a ser cordial, algo que para mim é interessante.

E ele desbloqueou a confederação nas redes sociais...

EM - Claro que eu sabia [do bloqueio], mas confesso que quando cheguei aqui me esqueci. Não me atentei, não toquei nesse assunto, mas depois resolvemos e vida que segue.

Por que a Pâmela e o Kelvin não são orientados pelos técnicos da seleção?

EM - Escolha deles. Não tem outro motivo. Sempre estivemos à disposição. Tanto é que a Pâmela incluiu o nosso fisioterapeuta nos agradecimentos dela. A seleção sempre atendeu os dois do mesmo jeito. Como falei, a gente chegou aqui com absolutamente tudo combinado. Tava todo mundo sabendo do seu papel, do seu espaço.

Mas isso não causa desconforto?

EM - Não. Se eu fosse pai, marido ou empresário de uma delas, eu queria que elas tivessem a orientação do Mancha, que para mim é disparado o melhor técnico do mundo. Sabe o Bernardinho no vôlei? O Mancha é vezes cem. Mas existe essa questão de confiança, desses dois skatistas, com as pessoas que estão ao lado deles. No caso da Rayssa, em que a mãe é essa técnica, ela entendeu que o Mancha poderia ajudar. Então, pode parecer estranho se comparar com esportes tradicionais. Foi assim no mundial de Roma, foi assim em outros eventos. Para nós não é estranho.

O senhor diz que o Kelvin não reclamou dos X Games quando ele falou sobre ir. Mas na conversa que vocês tiveram, ele falou algo?

EM - Falou, falou sim. Que ele se incomodou com isso.

Ele colocou que o veto à mulher dele e os X Games foram os problemas que levaram ao rompimento das relações?

EM - Não vamos misturar as situações. Ele se afastou porque a esposa não veio. Até porque a coisa com a Letícia foi perto do embarque para cá. Ele acha que... Eu prefiro que ele fale por ele, porque eu posso colocar uma palavra errada na boca dele, e eu não quero. Mas ele disse que se incomodou. Eu expliquei o nosso ponto.

E por que vocês vetaram a esposa?

EM - gente recebeu do COB quatro credenciais para oficiais. A minha credencial veio pela federação internacional. E a gente tem seis atletas para quatro oficiais. Se eu tivesse que escolher um para cada skatista, iam faltar duas, e não ia ter, por exemplo, para o fisioterapeuta que salvou o Kelvin do problema no ombro. Ele mesmo diz, não sou eu, que [o fisioterapeuta] colocou a Pamela no jogo também.

A Pâmela teve dois funcionários do COB que a acompanharam durante as Olimpíadas, e isso causou mal estar no grupo, segundo relatos que nos fizeram. Por que só ela teve isso, e os outros não?

EM - Essa é uma pergunta que vocês têm que fazer ao COB. O COB sempre atendeu muito bem a confederação, e nós entendemos que sempre demos todo o apoio a todos os 22 skatistas da seleção. No primeiro dia vimos uma pessoa do COB por lá, para fazer interface com o empresário dela. Desde o afastamento da Pâmela, na mesma época do Kelvin, e pelo mesmo motivo [de não poder levar uma pessoa para o Japão], ela fazia tratamento com a psicóloga da confederação.

Mas eles resolveram não fazer mais, porque eles resolveram se afastar por completo da confederação. E, por isso, o COB colocou à disposição uma psicóloga para ela. Isso, em um primeiro momento, chamou a atenção e criou um desgaste, pois não sabíamos que essa estrutura paralela estaria nas Olimpíadas, mas depois que a gente percebeu que ia ser assim, e qualquer movimento contrário de nossa parte a essa estrutura paralela poderia ser prejudicial para todo mundo, a gente focou a confederação e foi tudo bem.

O senhor não está há tanto tempo no cargo de presidente, mas já passou por diversos episódios na modalidade. Quais são os seus planos?

EM - Meus planos para o futuro... Eu sou um apaixonado pelo esporte, apaixonado por competição. Tenho mandato até 2024, estou muito feliz aqui no skate. Vou começar agora, pós-Olimpíadas, a planejar o ciclo para Paris e a pensar na minha vida profissional também, que ficou um pouco de lado. Vou planejar para ver o que posso fazer conciliando com a presidência da confederação.

O que poderia ter sido melhor nessa estreia do skate nas Olimpíadas?

EM - Eu vou propor que a competição seja em dois dias. Acho que isso não muda o custo e o resultado técnico é melhor. A final teria sido num nível ainda mais alto do que foi. Estou conversando nos bastidores para isso.

Neymar é página virada na sua vida?

EM - Estou há seis anos [fora]. Continuo fã. Continuo como torcedor. Como profissional, página viradaça.

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