Multiatleta da terra e da neve, Jaqueline Mourão mira 8ª Olimpíada

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LIMA, PERU - JULY 28:  Jaqueline Maurao of Brazil competes in the women's mountain bike race on July 28, 2019 on Day 2 of the 2019 Pan American Games at Morro Solar Circuit in Lima, Peru. Mourao finished in third place.  (Photo by Ezra Shaw/Getty Images)
Jaqueline Mourão na disputa do mountain bike no Pan-Americano de Lima, quando conquistou o bronze (Ezra Shaw/Getty Images)

É espantosa a vitalidade da multiatleta mineira Jaqueline Mourão, de 45 anos. Seu suporte para transpor limites é sustentado por alguns fortes pilares. Eles fazem a diferença em um mundo contemporâneo às avessas marcado por descaso com o meio ambiente, relações pessoais polarizadas por redes sociais e, mais recentemente, a pandemia de Covid-19.

O esporte embala esta força que é paixão desde a infância, tendo praticado natação, ginástica olímpica e atletismo. Também é sensível à natureza – desfrutou dos acampamentos energizantes na Serra do Cipó. Além destes fatores, conta com o combustível maior do ser humano: o amor pelo marido e treinador Guido Visser, ex-atleta canadense do esqui cross country e pela mãe-anjo, dona Ângela.

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Com autoestima elevada, estabeleceu a marca-recorde de ter seis Olimpíadas no currículo, entre as quais edições de verão e inverno. Única brasileira com este feito, obtido após 2018 com a participação na prova de 10 km de esqui cross-country disputada em Pyeongchang, na Coréia do Sul. Finalizou o percurso em 30min50s3, chegando em 74º lugar entre 90 competidores, superando atletas de 15 países.

Mãe de Jade, de seis anos, e Ian, 10, que chegou a acompanhá-la em treinos às vésperas de uma competição na neve, não parou nem quando estava grávida. Mourão adquiriu fôlego e pegada radical: iniciou no ciclismo mountain bike (downhill). Foi a categoria que deu o start em sua jornada esportiva. Ela vai representar o Brasil em uma Olimpíada pela sétima vez, voltando aos Jogos de Verão após 13 anos. Nesta modalidade, por ironia do destino, sofreu sua mais séria contusão na fíbula e tíbia.

No entanto, nada que travaria seu percurso impedindo de igualar em jogos a marca de outra mulher guerreira Formiga, do futebol; do velejador Robert Scheidt e do cavaleiro Rodrigo Pessoa (fatos a serem atingidos por todos no Japão).

Incansável, faz do tempo seu aliado: compete também no esqui cross country e biatlo de inverno (combinação de esqui cross-country e tiro esportivo). No entanto, a veterana, mesmo a contragosto, pretende se aposentar em 2022, fechando um ciclo nos Jogos de Pequim.

Desde os 15 anos, quando iniciou no ciclismo motivada pelo Downhill - categoria do mountain bike que consiste em descer com a maior velocidade percursos com obstáculos e irregularidades ou montanha; além de trajetos urbanos com dificuldades – não sossegou.

Nestas três décadas também formou a família, gabaritou-se nos estudos, como o mestrado em Educação Física na Universidade Federal de Minas Gerais. É palestrante, criou o projeto MteenB destinado a formar novos talentos no mountain bike. E acentuou ainda a vocação educadora, escrevendo a obra “A menina que sonhava seguir o pôr do sol”. Lançado há dois anos, o livro infantil é baseado na vida da própria Jaque, que se dividiu entre pedalar no calor do Brasil e o esqui no congelante Canadá, onde vive há mais de uma década.

Apesar de Jaqueline ser pau para qualquer obra, nem tudo na vida da atleta foi flor. É que em 2008 teve litígio com a Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC). O motivo foi o critério de preparação adotado para ir à Olimpíada de Pequim. Fato que só seria superado após uma década com amadurecimento e a mão no bolso. Explica-se: teve de bancar do seu próprio orçamento em provas de Copa do Mundo e obter espaço no ranking que daria vaga aos Jogos Olímpicos no Japão. Conquistou uma das três vagas no ranqueamento por países da União Ciclística Internacional (UCI). Pelo sistema deste ranking olímpico, o Brasil terminou na 17ª posição nas mulheres. As outras duas vagas couberam ao masculino, quarto lugar.

Entre os homens, representarão o Brasil Henrique Avancini, de 32 anos, campeão brasileiro, e o paulista Luiz Cocuzzi, de 27 anos. Avancini, que esteve nos Jogos do Rio, inclusive, tem chance de medalha após chegar a liderar o ranking mundial. A competição masculina acontece dia 26 de julho e a feminina, dia 27.

Yahoo Esportes Entre as seis Olimpíadas de que participou houve algum fato curioso?

Jaqueline Mourão - Em Torino-2006, na Itália, eu era a atleta que menos tinha experiência na neve, mas mesmo assim, um cineasta me escolheu para representar o esqui Cross country em um filme de Cannes. Tinha pouquíssimo tempo de neve, até mesmo encaixar a bota nos esquis era difícil. Mas meu físico fez a diferença para me classificar e a partir daí não parei mais de progredir.

SOCHI, RUSSIA - FEBRUARY 14: Jaqueline Mourao of Brazil competes in the Women's 15 km Individual during day seven of the Sochi 2014 Winter Olympics at Laura Cross-country Ski & Biathlon Center on February 14, 2014 in Sochi, Russia.  (Photo by Harry How/Getty Images)
Jaqueline Mourão na disputa do biatlo nas Olimpíadas de Sochi, em 2014 (Harry How/Getty Images)

Como foi disputar duas modalidades simultâneas na Olimpíada de Sochi?

Em 2014, me classifiquei no esqui cross country e biatlo de inverno. No biatlo de inverno sou a única a representar o país nesta modalidade. Foi difícil a classificação, mas consegui realizar o sonho e feito que poucas pessoas no mundo chegaram a realizar.

Qual o melhor e o pior momento da carreira?

Sem dúvida, a pior coisa foi perder a medalha nos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro, quando cheguei em em 4º lugar. E a melhor foi ter levado a medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Lima, no Peru, em 2019.

Como você avalia que será seu desempenho em Tóquio? Quem são os favoritos na bike?

Vejo que Suíça e França são os favoritos. Acredito que o Brasil tem grandes chances no masculino e o time de mountain bike brasileiro é um dos mais fortes da história.

Sobre o desentendimento com a Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC) referente aos critérios de classificação, antes dos Jogos de Pequim em 2008, que lição tirou?

Tive de competir no Brasil por três vezes antes das Olimpíadas de Pequim, ao invés de continuar a preparação nas Copas do Mundo. Na época era muito nova e não consegui gerenciar isso na minha cabeça. Acabei abandonando temporariamente o esporte e me concentrando nas modalidades de neve. Felizmente, dez anos mais tarde resolvi voltar e tirar isso da minha cabeça.

Para fazer as pazes com o passado, arquei com custos de Copas do Mundo na Itália e Andorra, além de participação em campeonato brasileiro e no mundial. Apesar de ser campeã nacional, não fui convocada para a seleção. Mas aos poucos fui conquistando patrocinadores e a própria confederação passou a me chamar. A trajetória de volta ao MTB, de colocar a cara a tapa (poderia ter dado tudo errado), serviu não somente para arrumar algo que estava mal resolvido no passado, mas também como grande motivação para todas as mulheres e mães que ainda têm seus sonhos e querem realizá-los. Nossas limitações podem ser nossa maior força!

Sobre a pandemia, afetou sua vida de atleta? Cuidou-se. Chegou a te assustar, pois muitos atletas testaram positivo mesmo vacinados e seguindo protocolos?

Sim. Segui todos os protocolos de saúde e também me isolei. O que achei mais difícil foi ficar sem a sala de musculação, mas me virei em casa. Eu estou vacinada desde o dia dois de junho (primeira dose) e como todos espero que esta pandemia termine logo e que possamos visitar nossa família e amigos.

Há algum ídolo no esporte? Ou na vida algum exemplo que você acredita vale destacar?

Sim. A medalhista canadense de patinação e ciclismo Clara Hughes; a medalhista de ouro norueguesa no mountain bike Gunn Rita Dahle; a suíça Jolanda Neff, campeã mundial de mountain bike; a ex-ginasta norte-americana Chellsie Memmel, o astro da NBA Michael Jordan, e Jaggi Vassudev, comumente conhecido como Sadhguru, um yoggi, místico e escritor indiano.

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