Mulheres na torcida e críticas a Bolsonaro marcam volta da seleção ao Brasil, com goleada

JOÃO GABRIEL
Folhapress
Torcida no Pacaembu durante Brasil e Argentina (Carla Carniel/Código19/Gazeta Press)
Torcida no Pacaembu durante Brasil e Argentina (Carla Carniel/Código19/Gazeta Press)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nesta quinta-feira (29), no estádio do Pacaembu, a seleção brasileira venceu fácil a Argentina por 5 a 0 em jogo que marcado menos pela tensão do clássico sul-americano e mais pela forte presença feminina nas arquibancadas, de onde se ouviu críticas ao presidente Jair Bolsonaro (PSL).

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O jogo marcou a estreia da treinadora Pia Sundhage no comando do time feminino e também a volta do Brasil ao país após dois anos sem atuar diante de sua torcida, que durante o segundo tempo entoou, mais de uma vez e em coro, cantos contra o atual governo.

"Eu achei incrível esse lance de ver a seleção jogar no Pacaembu, por um valor baixo", comemora Kassiane, 32 anos e integrante do grupo de mulheres boleiras Passa a Bola.

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Para quem está acostumado a assistir jogos do futebol masculino, era impossível não se atentar para a quantidade de grupos de mulheres reunidas para acompanhar o Brasil, que venceu com gols de Ludmilla, Formiga e Debinha no primeiro tempo, e Érika e Juncos (contra) no segundo.

Não só a presença hegemônica de mulheres é notada por quem acompanha a partida das arquibancadas. "Tem muito mais respeito, elas tentam falar coisas mais positivas para incentivar. O público é outro nas arquibancadas masculinas e femininas", diz Bruna, 21.

Bandeiras LGBT com as cores do arco-íris contracenam com as camisas da seleção e com diversas faixas de coletivos feministas e de mulheres no futebol. 13.180 pessoas vieram ao Pacaembu assistir ao jogo.

Letícia, veterinária de 24 anos, comemora o avanço das meninas lésbicas dentro do futebol, que para ela mostram como mulheres podem jogar "tanto quanto homens".

"Sinto maior representatividade, porque eu sou mulher, então é motivador" diz Mirian, 31, que integra um coletivo para mulheres jogarem bola em Cotia (SP).

É consenso entre todas as pessoas ouvidas pela reportagem que a Copa do Mundo foi a grande responsável pelo aumento na visibilidade dada, no Brasil, para o futebol feminino.

O torneio disputado na França e vencido pelos Estados Unidos ficou marcado tanto pela luta por igualdade entre homens e mulheres no futebol, quanto por recordes de audiência e cobertura.

Em países que não participaram da Copa do Mundo, no entanto, o cenário é ainda mais difícil. "Neste momento, na Costa Rica, as pessoas nem sabem que elas estão jogando", diz Eduardo, costa-riquenho de 20 anos enquanto acompanha a derrota de sua seleção para o Chile por 1 a 0.

"É engraçado ver que isso acontecia e acontece até aqui no Brasil", comenta o compatriota José. Os dois e o também amigo Mario vieram passar férias em São Paulo.

No domingo (1º), Brasil e Chile farão a final do torneio amistoso, no Pacaembu, às 13h30. Costa Rica e Argentina disputam o terceiro lugar mais cedo.

Mas mesmo com um clima amistoso nas arquibancadas, a rivalidade entre Brasil e Argentina apareceu assim que a bola entrou em campo.

Se durante Chile e Costa Rica a torcida vibrou com todas as chances de gol e vaiou o tento anulado pela árbitra e que empataria o jogo nos acréscimos, na partida da seleção as vaias eram para o ataque das adversárias. No segundo tempo, já com goleada no placar, uma ola circulou o Pacaembu, alternada com gritos de "olé".

Franz trouxe a mãe argentina Mariana para ver o jogo. "Sempre vai ser Brasil e Argentina, a rivalidade é grande" diz ele. "No masculino o estádio estaria fervendo. Mas daqui alguns anos, acho que isso vai acontecer [no feminino]", entende a mãe.

Se é quase um senso comum que a Copa de 2019 é um marco para o futebol feminino, as razões para isso não são são consenso.

Bruna, 28, que veio com o namorado César para torcer pela Costa Rica -país que conheceram em 2018, acha que a propaganda foi o fator principal, mesmo reconhecendo que as mulheres "estão mais ativas" na sociedade em geral.

Já sua xará e que estagia como assistente de professores, acha que a mudança se deve "também à ascensão do feminismo, com as mulheres se sentindo mais empoderadas".

Aos 14 anos, Gustavo não acompanha futebol, mas resolveu vir ao jogo da seleção feminina "por causa desse mundo que tá hoje", diz, entendendo que as mulheres sofrem mais que os homens no esporte.

Ver o Brasil no estádio pode ser importante não só pela visibilidade para as atletas em campo, mas também para quem ainda sonha, um dia, atuar profissionalmente.

Manuela, de 7 anos, sonha um dia poder estar dentro de campo. "Eu nunca vim em jogo de menina", conta ela, que costuma ir com a família ver jogos do São Paulo.

"Quando comecei, via a Marta, e parecia algo mais distante da nossa realidade. Agora, com essa divulgação e a gente aqui apoiando, eu acho que num futuro a gente vai ver muito mais meninas jogando", finaliza Maria, 22, estudante de veterinária e que talvez estivesse vivendo de futebol se tivesse tido a oportunidade na infância.

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