Mulher negra que teve o pescoço pisado por PM faz tratamento psicológico e fisioterapia

Alma Preta
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Segundo advogado da vítima, promotoria negou tese de que o caso se tratou de tentativa de homicídio; policial militar flagrado jogando o peso do corpo sobre a mulher foi acusado de abuso de poder. Foto: Reprodução/TV Globo
Segundo advogado da vítima, promotoria negou tese de que o caso se tratou de tentativa de homicídio; policial militar flagrado jogando o peso do corpo sobre a mulher foi acusado de abuso de poder. Foto: Reprodução/TV Globo

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões

Em Parelheiros, no extremo Sul da cidade de São Paulo, uma mulher negra de 51 anos convive há meses com a rotina de um tratamento psicológico para lidar com o trauma de ter sido arrastada pela rua e de ter o pescoço pisado por um policial militar, no dia 30 de maio, durante uma abordagem por causa do som alto em um bar. As imagens da agressão foram mostradas em uma reportagem televisiva no início de julho.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP), o caso ainda está em aberto e os policiais militares envolvidos na agressão contra a comerciantes estão afastados “do serviço operacional”.

O PM flagrado pisando no pescoço da mulher negra é o soldado João Paulo Servato, de 34 anos, da 2ª companhia do 50º Batalhão da PM, no Grajaú, também na região Sul. Ele tem entre 1,75 cm e 1,80 cm de altura e cerca de 90 kg.

O advogado Felipe Pires Morandini falou com a agência Alma Preta sobre o desdobramento do caso. “Por incrível que pareça, eu ainda estou aguardando a autuação do caso na Justiça militar para o crime de abuso de autoridade. Vamos insistir na tese de tentativa de homicídio e pedir para que o caso seja encaminhado para o tribunal do júri, o pedido anterior neste sentido tinha sido negado pela promotoria”, conta.

Morandini disse que a sua cliente conseguiu um tratamento psicológico gratuito, por meio da Comissão Estadual de Direitos Humanos, e fisioterapia para se recuperar de uma cirurgia na tíbia, que foi fraturada pela agressão da polícia. “Ela tinha dificuldade para andar, sentia muita dor e era uma época de inverno, então com o frio ainda piorava”, detalha o advogado.

Investigação caminha devagar

No TJM (Tribunal da Justiça Militar), os inquéritos são todos físicos, em papel, ao contrário do Tribunal de Justiça, onde os inquéritos são digitalizados, segundo o advogado da comerciante. “Na pandemia, o fórum do TJM ficou um tempo fechado. O que fez o processo demorar bastante também”, pontua Morandini.

Na época em que o crime ganhou repercussão nacional, o governador João Doria (PSDB) disse que as imagens mostravam um comportamento “inaceitável”. Os policiais foram afastados. O caso da agressão contra a comerciante aconteceu cinco dias após a morte de George Floyd, um afro-americano assassinado em Minneapolis, nos EUA, no dia 25 de maio. Floyd foi estrangulado por um policial branco que ajoelhou em seu pescoço durante uma abordagem por supostamente usar uma nota falsificada de vinte dólares em um supermercado.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou que o caso da agressão contra a comerciante foi investigado por meio de inquérito policial pelo 25º DP, que fica na rua Humberto Ravelo, no jardim Centro, também em Parelheiros. A investigação na Polícia Civil foi concluída com o indiciamento do policial por abuso de autoridade. Agora, o processo precisa ser julgado na Justiça.

Ainda segundo a SSP, a outra parte da investigação, no âmbito da Justiça Militar, segue em andamento na Corregedoria da PM. Nas imagens do flagrante do crime é possível notar que Servato tira um dos pés do chão com o propósito de aumentar o peso sobre o pescoço da comerciante.

De acordo com os dados disponíveis nos arquivos do “Diário Oficial” do Estado, Servato entrou na PM no concurso de 2012. Ele não teve uma colocação muito boa, mas entrou. Entre os 1.618 candidatos aprovados naquele concurso, Servato, que tem a escolaridade de segundo grau completo, ficou em 889º lugar.