Mulher diz ter sido vítima da 'Rainha das plásticas' no mesmo dia em que MC Atrevida: 'O sentia mexendo dentro do meu corpo'

Carolina Heringer e Rafael Nascimento de Souza
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A cabeleireira Sandreia Ribeiro da Silva, de 40 anos, mãe de quatro filhos e moradora da Ilha do Governador, que estava com a autoestima baixa e querendo melhorar o corpo e a saúde, afirma que também foi vítima da empresária Wânia Marcia Tavares da Silva, que se intitula ‘Rainha das Plásticas’, e do médico ginecologista Wilson Ernesto Garlaza Jara. A mulher conta que fez um procedimento logo após a cantora de funk Fernanda Rodrigues, a MC Atrevida, deixar o local – que fica na Zona Norte do Rio. Fernanda morreu dias depois.

Sandreia afirma que ficou com sérios problemas de saúde e relata que precisa retirar o seroma – um acumulo de líquido — que está represado nas suas costas, nádegas e barriga. Pelo procedimento estético, a mulher pagou R$ 5.200,00 à vista. A cabeleireira esteve nesta terça-feira na 20ª DP para fazer um registro de ocorrência contra o médico e a clínica.

A nova vítima da ‘Rainha das Plásticas’ conversou com o EXTRA. Aos prantos, a cabeleireira diz que teme pela vida e que se arrepende de ter “caído nessa furada”.

— O meu maior medo é de morrer. Eu não sei mais o que fazer. Tenho quatro filhos e penso neles todos os dias. Me arrependo muito de ter ido nela (clínica). Eu não sei mexer direito na internet, então eu não procurei saber sobre essa clínica, sobre o médico e se outras pessoas já haviam feito o procedimento estético lá. Eu cai nessa furada, nessa roubada. Quando eu vi que uma pessoa morreu por causa disso, minha vida virou de pernas para o alto — conta a mulher que hoje não consegue andar direito, dormir e afirma que está com problemas psicológicos devido à plástica.

O delegado titular da 20ª DP André Neves afirmou ao EXTRA que o caso de Sandreia, além de os de outras quatro vítimas, estão sendo investigados pela delegacia.

— Já ouvíamos essa vítima e vamos colocar junto do procedimento da Fernanda. Até agora, já temos informações de que cinco vítimas fizeram o mesmo procedimento nessa clínica e com esse médico. Estamos apurando cada caso — disse Neves.

Mãe de um filho autista, a cabeleireira conta que conheceu Wânia no ano passado, por indicação de uma amiga. Em seguida, ela diz que fez uma harmonização facial (retirada da papada do rosto) na filial da ‘Rainha das Plásticas’ em Nilópolis, na Baixada Fluminense.

— O local funcionava em um apartamentinho e fui lá para fazer a papada. No entanto, não deu resultado — conta.

Ainda de acordo com a cabeleireira, este ano ela resolveu procurar a clínica novamente para um procedimento estético no corpo e foi orientada pelo médico Wilson Ernesto a fazer uma hidroescultura.

— Neste ano, como eu estou acima do peso e vi que eles estavam fazendo promoções para hidroescultura, fui fazer uma consulta e o médico me indicou o procedimento. O doutor Wilson disse que era feito por partes. Então, pela facilidade, decidi fazer. O primeiro procedimento foi no final de maio. Treze dias depois, já em junho, fiz a segunda. A terceira vez foi um mês depois, em julho (no mesmo dia da MC Atrevida). O último procedimento eu faria uma semana depois — lembra a mulher.

A cabeleireira disse que, após a morte de Fernanda, a clínica passou a "enrolar" e não quis mais remarcar a cirurgia. Segundo ela, uma funcionária chegou a ameaçá-la.

— Desde então, eles não atenderam mais as ligações e não me deram nenhuma explicação. Eu não conhecia a MC Atrevida. Fiquei sabendo da morte dela pela televisão. Como eu estava com muitas dores e não parava de sair líquido, liguei para lá para ter mais detalhes de como proceder. No entanto, passaram a não me atender mais. Então, mandei mensagem para uma das funcionárias. Ela, muito ríspida, me atendeu e disse que não iria me atender. Então, falei que iria lá com a polícia. Pelo WhatsApp, a mulher me ameaçou dizendo que o marido era policial militar e advogado. Daí, respondi perguntando se era uma ameaça — afirma a vítima.

Segundo Sandreia, Após 19 dias de operação, os responsáveis pela clínica nunca mais atenderam as ligações. Ela considera “negligência total”.

— Total absurdo, abandono e negligência total. Fiz o procedimento há quase 20 dias e desde então sinto muita dor, não consigo dormir direito e estou à base de remédios tarja preta. O meu psicológico está abalado. Eu sempre penso: poderia ter sido eu. Eu, depois da cirurgia, já tomei onze caixas de Cefalexia (antibiótico para infecção bacteriana) e Cetoprofeno (anti-inflamatório). No entanto, não está adiantando nada. Por isso, interrompi a medicação com receio de ter uma trombose.

Na clínica onde a cabeleireira fez o procedimento estético, ela diz que cada paciente precisa levar sua própria toalha e o lençol para ser usado na maca onde é feito o procedimento cirúrgico. Ainda de acordo com a mulher, até a fralda geriátrica usada no pós-operatório é levado por cada cliente.

— Lá, você vai para os fundos da clínica e faz o procedimento. Eles pedem pra você levar o lençol e as toalhas. Além disso, eles pedem para a gente levar frauda geriátrica. O procedimento é feito em uma maca sem lençol, caso você não leve o seu. Eu achei estranho, mas o meu esposo disse que não era para eu falar nada por conta de algum tipo de represália — lembra.

Na segunda sessão de hidroescultura a cabeleireira afirma que não foi sedada corretamente e sentiu um dos equipamentos usados dentro do seu corpo.

— Eu o sentia mexendo dentro do meu corpo. Eles não esperaram eu dormir. Eu pedia, deixa eu dormir por favor, mas ela estava com pressa. Conforme a gôndola ia passando eu ia sentindo aquela dor horrível. Eu senti tudo. Depois que anestesiou um lado, eu não sentia a dor, mas percebia o vai e vem do aparelho dentro de mim. Eles não dão anestesia geral. Eles trazem um copinho com vários comprimidos e é só isso — denuncia a mulher.

Ainda de acordo com a vítima, não era comum Wilson fazer as cirurgias no local. Segundo ela, ele apenas assinava os documentos e outros dois profissionais eram os responsáveis pelos procedimentos. Ao EXTRA, o delegado André Neves confirmou que investiga essa informação. Roberta Maria Dutra, advogada da vítima afirmou que pretende acionar Wânia na Justiça.

— Vamos fazer um boletim de ocorrência o estabelecimento, seus responsáveis e entraremos com uma ação civil de danos morais e materiais. Ainda não estipulamos o valor. Mas, tudo o que a minha cliente já gastou e tudo que ela gastar futuramente será pedido como valor de reparação. Vamos processar a clínica e as pessoas envolvidas — disse.