Mudanças na preparação física ao longo das Copas

Luka Modric e Seleção Croata durante o aquecimento antes da final da Copa (Laurence Griffiths/Getty Images)
Luka Modric e Seleção Croata durante o aquecimento antes da final da Copa (Laurence Griffiths/Getty Images)

Por Caio Calazans (@Cabrito13)

É correto afirmar que nas últimas cinco décadas o futebol mundial passou por uma grande transformação. A tecnologia e a ciência passaram a fazer parte do dia a dia de clubes e seleções em busca da excelência dentro do campo de jogo. A preparação física, antes relegada a segundo plano, em detrimento da técnica individual, hoje é fator fundamental e parte intrínseca da organização das equipes do futebol mundial. Mas quais foram as principais mudanças em termos físicos em Copas do Mundo?

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Antes de 1960, não era comum clubes ou seleções de futebol manterem nas comissões técnicas um profissional especializado nesta matéria. A primeira Seleção Brasileira que teve um preparador em uma Copa do Mundo foi a campeã da Copa de 1958. Naquela época, era comum os atletas realizarem atividades como subir e descer degraus das arquibancadas, dar voltas no campo e fazerem flexões e polichinelos. Não havia métodos para avaliar o desempenho físico dos atletas. Bastava que eles aguentassem jogar os 90 minutos, pois não havia substituições.

Com um calendário menos apertado que hoje, o tempo de descanso e recuperação dos jogadores era maior. Massagens antes e depois das partidas também auxiliavam no aquecimento ou relaxamento. Não havia nenhum acompanhamento nutricional, os atletas tinham cardápio livre. Os excessos na alimentação e a barriguinha eram comuns e aceitáveis. Também não havia restrições a cigarros ou bebidas alcoólicas.

A primeira Seleção a introduzir novas atividades físicas em Copa do Mundo foi a Hungria em 1954. Finalista daquela Copa e jogando um futebol notável, os húngaros introduziram o aquecimento antes das partidas, parecido com o que existe hoje, o que dava grande vantagem física. Com a musculatura aquecida, coração e pulmões acelerados após atividades no vestiário, a Hungria atropelava os adversários no início das partidas. Somente a Alemanha conseguiu superar os húngaros em 1954.

O preparador físico Walmir Cruz, ex-Corinthians e agora contratado do Al Wehda, dos Emirados Árabes, falou sobre o tema: “Antigamente, a preparação física era muito voltada ao volume de treino. Ou seja, um treino muito longo, com a distância longa. Eles faziam muito treino de resistência. O atleta tinha que correr 10 quilômetros. Então eles não individualizavam muito. Então o atleta que tinha característica de velocidade ele não tinha muita resistência então ele não aguentava por muito tempo ficar correndo. Era muito ruim pra ele.”

Na década de 1970 começaram as grandes transformações nos métodos de preparo físico. As corridas passaram a simular deslocamentos reais dentro de campo. Os circuitos de treinamento incluíam zigue-zagues, saltos e arrancadas. Tornou-se comum uma equipe de futebol possuir preparador físico, auxiliar, médico e massagistas. A alimentação dos jogadores passou a ser controlada e o cardápio feito pelo médico. Novos métodos foram criados para pré-temporadas, uma preparação diferente do que acontecia durante os campeonatos.

Para Walmir Cruz, a comissão técnica da Seleção Brasileira de 1970 teve papel fundamental nessa mudança: “Acho que a Copa do Mundo na qual houve a transformação foi em 1970. Acho que o Brasil, com a preparação física com o [Admildo] Chirol, [Cláudio] Coutinho e [Carlos Alberto] Parreira, começaram a periodizar os treinamentos. (…) Era um trabalho exemplar, onde eles começaram ali a individualizar bastante a questão de treino dos atletas brasileiros. São estudos que a gente olhando hoje, a gente aproveita bastante coisa que eles fizeram naquela época tão longínqua.”

As lesões dos jogadores, antes tratadas apenas com massagens e repouso, passaram a ter trabalhos específicos com calor. Equipamentos mais modernos com radiação infravermelha eram utilizados diretamente nas regiões afetadas para dilatar os vasos sanguíneos. Outra mudança que aconteceu nesta época foi a introdução da musculação no preparo físico. Havia caído o mito de que levantar peso diminuía a agilidade e a velocidade de jogadores de futebol.

Não foi só a necessidade de competição que tornou necessária a evolução nos treinamentos. O futebol estava mudando, as medidas do campo foram padronizadas, as bolas ficaram mais leves, os materiais esportivos menos pesados, a exigência física por conta da evolução tática também aumentou. A cada ano, a tecnologia e a ciência estavam cada vez mais presentes no esporte. A partir da década de 1990, a preparação começou a ser totalmente individualizada. O atacante, o zagueiro, o lateral, o meia, cada atleta passou a ter treinos específicos de acordo com a posição e com as próprias características fisiológicas.

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Fisioterapeutas e nutricionistas se tornaram presença comum nas comissões técnicas. O cardápio dos atletas era controlado e montado de acordo com a necessidade de nutrientes de cada jogador. Além da alimentação, os jogadores passaram a tomar suplementos e complementos alimentares para aumentar a resistência a força e para melhorar o desenvolvimento muscular. Frequência cardíaca, consumo de oxigênio, posicionamento do corpo nos movimentos de jogo e vários outros detalhes passaram a ser minuciosamente analisados.

Essa evolução ainda pode mudar muito no futuro. Equipamentos futuristas e a ciência do esporte evoluem cada vez mais. Walmir Cruz tem um palpite sobre o que pode acontecer nos próximos anos ou décadas: “Eu acho que vão começar a utilizar muito essa questão da genética. Por que? Você através de um exame do gene da criança, você vai saber se ela tem mais tendência ou mais fibras para desenvolver um esporte de resistência ou esporte de força. Então você vai começar a fazer um pré selecionamento já desde criança para você saber quais os esportes onde ela se dará melhor.”

Em um esporte como o futebol, a habilidade, o dom, a inteligência e a criatividade de cada atleta ainda farão diferença. Mas hoje em dia e no futuro, dentro de campo, de nada irá adiantar tudo isso se faltarem pernas para correr no gramado.