MPF admite denúncias de atletas em investigações contra CBDA

Depois da prisão do ex-presidente da Confederação Brasileira de Desportes Aquáticos, Coaracy Nunes, e de outras três pessoas nesta quinta-feira, a Polícia Federal concedeu entrevista coletiva em sua sede em São Paulo. O delegado Rodrigo de Campos e a procuradora do Ministério Público Federal (MPF-SP) Thamea Danelon foram responsáveis por esclarecer os pontos das ações desta manhã, que fazem parte da operação Águas Claras.

Thamea revelou que as investigações partiram de denúncias feitas por atletas e ex-desportistas, que tiveram o nome mantido em sigilo. Além disso, ela explicou que o que motivou a acusação aos dirigentes foi a ausência da Seleção Brasileira de Polo Aquático na disputa do Mundial Júnior, no Cazaquistão, em 2015.

“No mínimo, 20 atletas (denunciaram). Foram feitas oitivas não só em São Paulo de campeões e campeãs que estavam insatisfeitos com o modo como a CBDA estava sendo conduzida. Nosso trabalho era verificar se havia irregularidade. A partir desses depoimentos, fomos buscando provas documentais que demonstravam o quanto de verba pública federal foi destinado para a confederação e quanto foi aplicado no esporte. O que despertou foi o não encaminhamento da seleção júnior de polo aquático para participar do Mundial no Cazaquistão. Era uma equipe campeã sul-americana e pan-americana e que não disputaria. Isso chamou a atenção”, explicou a procuradora, que continuou.

Leia mais: Joanna Maranhão comemora prisão de dirigentes em jacuzzi

“Os pais fizeram o possível para custear essa viagem e constataram que o orçamento apresentado pela CBDA (passagens aéreas e hospedagens) era 100% superior ao orçamento que eles teriam (o dobro). Foi levantada essa quantia e, ainda assim, a seleção não foi encaminhada para o Mundial porque a CBDA alegou falta de visto e questões administrativas. O Brasil não foi representado, embora no mesmo ano a CBDA tenha recebido R$ 5 milhões de reais do Ministério dos Esportes só para a modalidade, o que levantou a suspeita de irregularidade. Atletas e ex-atletas procuraram o MPF para trazer esse fato. Semanalmente, recebemos diversas denúncias. Os depoimentos iniciaram em 2015 e, ao longo de 2016, continuaram sendo coletados depoimentos e provas documentais também”, declarou.

Além de explicar a operação, Thamea também apontou que não só os desmandos da CBDA serão pautas das investigações. Os Correios, empresa estatal que patrocina a entidade, também terão que prestar contas à PF e ao Ministério Público, justamente por terem mantidos os repasses à CBDA, mesmo sendo duramente afetados pela crise financeira.

“Chama a atenção porque os Correios são uma empresa pública, federal e, até pouco tempo, ainda esse ano, foi divulgado que estão passando por uma crise financeira enorme. Há mais de dois anos está fechando em prejuízos na casa de R$ 2 bilhões, né? E, mesmo assim, continua saindo dinheiro público para patrocinar a confederação. Ao longo de 11 anos foi constatado, está na contabilidade, que os Correios forneceram mais de R$ 62 milhões para a confederação”, comentou a procuradora.

O fator que gera mais suspeita tanto por parte do MPF quanto da Polícia Federal, segundo Thamea  é que o apoio dos Correios parece muito mais direcionado à CBDA em si, como entidade, do que aos atletas. A oficial utilizou como exemplo o caso da medalhista olímpica Poliana Okimoto. Bronze nos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016, a maratonista aquática teve cancelado o apoio da empresa estatal de entregas.

“Este ano, ao invés de investir nos atletas, que devem ser os destinatários das verbas públicas, os Correios cancelaram o patrocínio com Poliana Okimoto. Por outro lado, autorizaram o patrocínio para a confederação de 11 milhões de reais. Já foi instaurada uma outra investigação para apurar o motivo desse encaminhamento de verba pública federal, o porquê do cancelamento do esportista, e a verba indo para uma confederação que está envolvida em uma acusação de fraude”, justificou.

Além de Coaracy Nunes, foram levados em condução coercitiva nesta manhã Sérgio Ribeiro Lins de Alvarenga (diretor financeiro) e Ricardo Cabral (coordenador do polo aquático). Também apontado na investigação e também sob mandado aparece Ricardo de Moura, superintendente da CBDA, que encontra-se foragido.