Mistério continua: razão para afastamento de padre exorcista será preservada pelo menos até o fim de investigação de 'superiores'

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RIO — Enquanto milhares de fiéis ainda se perguntam e especulam os motivos que levaram o padre exorcista Vanilson Silva, de 58 anos, a ser afastado de suas funções como sacerdote pela Arquidiocese de Brasília, o que aconteceu no último dia 10 de fevereiro, o assunto segue sendo mantido a sete chaves pela Igreja. Nas redes sociais, são centenas de comentários de seguidores de Vanilson pedindo explicações, enquanto o padre pede para que todos reflitam silenciosamente e rezem por ele. Uma manifestação chegou a ser cogitada por eles. Nesta quinta-feira, O GLOBO conseguiu contato com o padre Wilker Lima, que coordena o setor de comunicação da Arquidiocese. Segundo ele, o sigilo existe para preservar o sacerdote, enquanto é feita uma espécie de investigação, que envolve, tanto a Arquidiocese de Brasília, quanto a Congregação do Santíssimo Redentor de Goiás, presidida pelo padre André Ricardo de Melo, considerado superior de Vanilson.

— A Igreja poderia dar uma resposta, mas poderia não ser a verdade, porque precisa primeiro apurar, escutar as pessoas, fazer como realmente é pedido, para depois dar um parecer concreto. É uma medida de prudência com o padre em lugar de uma exposição ou decisão arbitrária — explicou Wilker. — A análise do caso e o que está acontecendo é algo que, nesse momento, fica com os superiores. Dom Paulo (Cezar Costa, arcebispo de Brasília), junto com o superior do padre, estão discernindo sobre a vida do pároco. Quando há qualquer questionamento, e não falo em relação à conduta, critérios práticos ou à função que ele exercia, se há investigação, todos os cabíveis são reunidos. Após essa reunião, a pessoa é comunicada e é chamada para conversar.

O caso gerou grande reação nas redes sociais, tanto na da Arquidiocese quanto na do padre, que tem mais de 33 mil seguidores. Vanilson Silva é conhecido por ser o único padre exorcista de Brasília, função um tanto quanto rara e que costuma despertar atenção e curiosidade de fiéis e mesmo de pessoas de fora da Igreja. Ele chegou a participar de reportagens no Fantástico, da TV Globo, e também no SBT, onde aparecia fazendo seus ritos de exorcismo.

Nos últimos anos, Vanilson ganhou ainda mais visibilidade local quando encabeçou um projeto ambicioso à frente da Associação Padre Júlio Negrizzolo, criada por ele, e também conhecida como comunidade Filhos da Rosa Mística. Após receber por doação parte de um terreno no município de São Sebastião (DF), ele começou a expandir a sua atuação na construção de uma espécie de complexo para a associação, com a função de resgatar população de rua e usuários de drogas, além de receber suas missas. Há pouco mais de 1 ano e meio, ele decidiu comprar outra metade do terreno para o seu Rincão e contraiu uma dívida de R$ 1 milhão, a ser paga por fiéis via doações. No local, já existem moradias, capela, santuário e até uma livraria que vende souvenirs.

“Um absurdo essa perseguição ao padre Vanilson”, escreveu uma seguidora. “Não sei o que houve de tão grave para quererem calar a sua voz”, comentou outro numa publicação. No post em que a Arquidiocese publicou a nota em relação ao afastamento do padre, também houve reação: “Nota de esclarecimento que não esclareceu nada”, reclamou uma seguidora. “Extremamente lamentável ver todo um trabalho de anos sendo desconsiderado por questões que mais parecem "particulares dos superiores”, disse outra.

A reportagem conversou com uma seguidora de Vanilson, que assiste suas missas há 8 anos. Ela garante que a conduta dele é exemplar em suas missas e acredita que há uma espécie de perseguição política ao padre.

— Ele é uma pessoa séria, e por isso tem tanta gente revoltada. Ele começou do zero, conseguiu adquirir os bens com doação, já conseguiu construir a maioria das coisas, com trabalho árduo, e a arquidiocese vem com essa história de que ele não pode mais estar à frente do projeto. Mas não explica o porquê e ainda insinua que ele fez algo errado. E quando não consegue explicar o que de errado ele fez, deixa muito claro para a gente que é um movimento injusto da Igreja em relação ao padre. Acho que tem política envolvida, porque ele não se envolve em política, é à parte da política, e também chama atenção da Igreja a quantidade de dinheiro que o padre consegue arrecadar para fazer suas obras — disse Kenia Sousa, de 45 anos, moradora de Guará (DF).

Questionada se o afastamento poderia ter relação, também, com o ministério do padre quanto exorcista, Kenia disse não acreditar nisso. Segundo ela, ele é um homem muito tranquilo e que sempre conseguiu a confiança dos fiéis

— Acredito que não tem a ver com o ministério do padre. Nós seguimos ele há muito tempo e não somos idiotas. Sabemos o que é real e o que não é. Ele é um padre tranquilo, sério, respeitador pelas coisas da igreja e ensina doutrina. Inclusive essas doações que ele recebe, recebe porque as pessoas se identificam. As missas dele não ficam pedindo o tempo inteiro.

Kenia doou para as construções do complexo da Associação Júlio Negrizzolo. Segundo ela, todos acompanham de perto o que é feito com o dinheiro, o que nunca levantou qualquer tipo de suspeita. Na página da organização, a "Campanha 1 milhão" continua para construção do rincão, enquanto um anúncio diz: "O padre Vanilson está precisando muito de ajuda!".

— Eu participei disso como doadora. Uma pessoa doou a terra, porque acreditou no projeto social e no padre. É muita doação, e a gente não doa sem fiscalizar, porque não somos bobos. E nunca houve em nenhum momento nada que nos fizesse pensar o contrário ou que nos arrependessemos dessas ações. É o que nos deixa indignados com essa atitude da Arquidiocese — acrescentou. — As obras estão acontecendo desde que ele recebeu o terreno. Primeiro recebeu parte do terreno e comprou a outra parte depois. Aí começou a fazer ações para arrecadar dinheiro: feijoada, bazar, várias coisas. Aí conseguiu R$ 300 mil para comprar a outra parte do terreno. Depois, fez um carnê, onde a gente contribuía com o valor que quisesse. E, aí, foi conseguindo o galpão, as casas para receber a comunidade, ele não faz nada sozinho.

A reportagem também conseguiu contato com Emília Arruda, que é amiga do padre, e publicou uma foto onde disse estar orando por ele.

— Eu sei tanto quanto todo mundo: nada, ninguém sabe os motivos — disse, respondendo também o que ele disse a ela quando contou sobre o afastamento: — Ele só pediu para que eu rezasse por ele.

Na quarta-feira, a reportagem entrou em contato com a Associação de Vanilson, que disse que ele estava "recolhido" desde que foi afastado, e que estaria incomunicavel. Também não houve retorno por parte da Congregação Redentorista de Goiás. O padre André Ricardo de Melo, à frente da instituição, e tido pela Igreja como superior de Vanilson, é o mesmo que há dois anos substituiu provisoriamente na presidência da Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe) o padre Robson, que saiu após ser investigado pelo MP-GO por ter desviado R$ 120 milhoes da instituição. À época, André Ricardo disse que faria um pente fino nas contas da Afipe.

'Rincão'

No Rincão, complexo que o padre pretende construir, o objetivo, segundo a Associação, é de que o local passe a ter ainda mais estrutura do que já possui hoje, com dormitórios, banheiro, sala de estar e varanda, suficiente para 12 residentes, além cozinha, refeitório, lavanderia, escritório, secretaria, estúdio de rádio, sala de estudo, lanchonete, livraria, salapra bazar, almoxarifado, sala de informática e banheiros. No novo complexo, o padre pretende ter um "espaço de celebração", espaço para encontros, retiros, orações, campo de futebol, tanque de peixes, reservatório de água,chiqueiro de porcos, curral de ovelhas, horta, galinhas, patos, peru, ganso, guiné "etc".

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