Integrantes do ministério da Saúde notavam despreparo do governo Bolsonaro para frear pandemia, diz médico que pediu demissão

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Julio Croda (à esquerda) ao lado de Joao Gabbardo Reis, que também deixou ministério da Saúde - Foto: SERGIO LIMA/AFP via Getty Images
Julio Croda (à esquerda) ao lado de Joao Gabbardo Reis, que também deixou ministério da Saúde - Foto: SERGIO LIMA/AFP via Getty Images

Julio Croda, ex-chefe do departamento de imunização e doenças transmissíveis do Ministério da Saúde na gestão de Luiz Henrique Mandetta, revelou ao jornal El País que os integrantes da pasta já esperavam uma falta de respostas efetivas do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) no enfrentamento da pandemia do novo coronavírus.

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"A gente sentia dentro do Governo que não existia união sobre o que deveria ser feito e que a resposta seria pífia, como está sendo. Saí antes que houvesse qualquer impacto desnecessário para o setor técnico", afirma ele, que pediu demissão no dia 23 de março, pouco menos de um mês antes da demissão de Mandetta.

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Croda, que é medico infectologista, destacou que não há um alinhamento entre as ações do governo federal e as dos estados e municípios.

"Os estados vão tomando as atitudes sem nenhum apoio do Ministério da Saúde. O Rio Grande do Sul tem um programa de flexibilização, São Paulo lançou o seu, Minas Gerais também tem um plano... Mas não existe nenhuma definição técnica do Ministério da Saúde", criticou.

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As diretrizes do isolamento social, medida defendida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para frear o avanço da pandemia pelo mundo, foram uma das questões centrais tanto da queda de Mandetta, quanto do seu sucessor Nelson Teich, que permaneceu menos de um mês no cargo.

Ambos, Mandetta e Teich, defendiam as medidas de isolamento social, enquanto Bolsonaro queria a flexibilização das mesmas, sob o argumento de proteção da economia do país.

"Em nenhum momento esse assunto é revisitado, existe um esquecimento do ponto de vista técnico", lamenta o ex-membro do ministério da Saúde.

Ao El País, Croda ainda revelou um episódio chocante. Ele diz ter ouvido de Solange Vieira, que chefia a Superintendência de Seguros Privados do Ministério da Economia, que “é bom que mortes se concentrem entre os idosos... Isso melhorará nosso desempenho econômico, pois reduzirá nosso déficit previdenciário", teria dito a mulher em referência a parcela da população considerada mais vulnerável à Covid-19.

A agência de notícias Reuters, ouviu outra autoridade que confirmou a fala de Solange. Procurada pela agência, ela não se manifestou. O ministério da Economia, por sua vez, informou que ela observou os impactos de vários cenários "sempre com foco na preservação de vidas" e que a participação na reunião atendeu um convite de Mandetta.

Diante da condução descoordenada da pandemia, Croda prevê um grande número de mortes até a situação no país se estabilizar.

"Até lá vai morrer muita gente sem assistência. E a doença já circula principalmente entre os mais pobres, que contam com menos leitos de internação. Vai ser muito triste o que vai acontecer no Brasil", afirma.

De acordo com boletim mais recente do Ministério da Saúde, divulgado na noite desta quarta-feira (03), o país registrou mais 1.349 mortes confirmadas em 24 horas, totalizando 32.548 óbitos. Além disso, já são 584.016 casos confirmados.

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