Ministério da Saúde distribui máscaras inadequadas para profissionais da linha de frente

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white KN95 or N95 mask for protection pm 2.5 and corona virus isolated on grey background. Prevention of the spread of virus and pandemic COVID-19.
Máscara do modelo KN95 não é recomendada para uso hospitalar. Mesmo assim, Ministério da Saúde distribuiu equipamento para médicos da linha de frente (Foto: Getty Images)
  • Ministério da Saúde distribuiu máscara KN95 para profissionais da saúde

  • FDA e Anvisa já alertaram que modelo não é adequado para uso hospitalar

  • Governo federal gastou 66 milhões de dólares e, depois, se recusou a substituir as máscaras

O Ministério da Saúde disponibilizou máscaras para profissionais que estão na linha de frente do combate ao coronavírus. No entanto, o modelo adquirido pela pasta não é considerado adequado para quem trabalha diretamente com pacientes com a doença. O caso foi revelado pela Folha de S. Paulo.

As máscaras compradas são do tipo KN95, chinesas. Apesar do nome similar, os equipamentos não são iguais às máscaras N95, as mais indicadas para que as pessoas se protejam da covid-19 em ambientes fechados. O tipo PFF2 também é indicado e seguro.

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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, elaborou um documento em 13 de janeiro que apontava que o modelo KN95 não é indicado para uso dentro de hospitais. Mesmo assim, o Ministério da Saúde distribuiu as máscaras e se recusou a substitui-las. Alguns estados chegaram a se recusar a usar os equipamentos oferecidos pela pasta.

Segunda Folha, parte das máscaras foi entregue ao Ministério por uma empresa cujo representando é um executivo que trabalha com relógios de luxo. Foi ele o responsável por assinar o contrato de compra das máscaras com o governo federal.

A declaração da Anvisa, de que as máscaras eram inadequadas, foi enviada ao Ministério Público Federal. Em 3 de fevereiro, o órgão instaurou um inquérito para investigar o caso.

Em junho de 2020, a Anvisa já havia interditado o uso desse tipo de equipamento. A decisão foi motivada depois que o FDA, agência sanitária dos Estados Unidos, suspendeu autorização emergenciais do uso dessa máscara pela falta de eficácia em filtrar as partículas de ar.

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Modelos de máscara N95 e PFF2 são considerados os mais adequados para uso de médicos e também em ambientes fechados (Foto: Getty Images)

O Ministério da Saúde distribuiu esse tipo de máscara entre julho e dezembro de 2020. A pasta se recusou a substituir e recolher os produtos. O argumento é que a máscara seria útil “em casos não cirúrgicos”. Com isso, o MPF pediu uma posição da Anvisa. O documento feito pela agência ficou pronto em 13 de janeiro e indica que as máscaras são, de fato, impróprias.

De acordo com a Folha de S. Paulo, cada máscara custou 1,65 dólar e a compra total custou 66 milhões de dólares, aproximadamente R$ 368 milhões.

Ao jornal, a Anvisa informou que a máscara KN95 substitui as máscaras de tecido ou de uso não profissional. A Folha também questionou o empresário Freddy Rabbat, que assinou os contratos de compras dos equipamentos, mas não obteve resposta.

A compra de máscaras foi feita ainda sob gestão do ex-ministro Eduardo Pazuello. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) já anunciou a substituição no comando do Ministério: Marcelo Queiroga, cardiologista, será empossado no lugar do general.

NOVO MINISTRO DA SAÚDE

O presidente Jair Bolsonaro escolheu o médico Marcelo Queiroga, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, para substituir Eduardo Pazuello como ministro da Saúde.

A confirmação de Queiroga para ocupar o cargo veio do próprio presidente em papo rápido com apoiadores na saída do Palácio do Planalto.

"Foi decidido agora à tarde a indicação do médico, doutor Marcelo Queiroga, para o Ministério da Saúde. Ele é presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia. A conversa foi excelente, já conhecia há alguns anos, então não é uma pessoa que tomei conhecimento há poucos dias. Tem tudo no meu entender para fazer um bom trabalho, dando prosseguimento em tudo que o Pazuello fez até hoje", afirmou Bolsonaro.

Quem é Marcelo Queiroga

Presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Marcelo Queiroga chega ao cargo com o desafio de chefiar a pasta no pior momento da pandemia no país e com uma forte pressão pela vacinação em massa da população.

Bolsonaro também prometeu, sem explicar detalhes, que o novo ministro será responsável por um amplo programa de vacinações. "No tocante a vacinas, um programa bastante ousado, mais de 400 milhões de doses contratadas até o final do ano. Este mês vamos receber mais de 4 milhões de vacinas, e essa política de vacinação em massa continuará cada vez mais presente em nosso governo."

Ministério da Saúde vive crise desde 2020

Depois de um processo de fritura, com troca de alfinetadas públicas, Luiz Henrique Mandetta foi demitido em abril de 2019, no início da crise causada pela pandemia da covid-19.

O então ministro da Saúde não aceitou recomendar hidroxicloroquina no tratamento da doença e destacava a não comprovação da eficácia do medicamento, além de defender medidas de isolamento social.

Escolhido como substituto, Nelson Teich também se recusou a indicar a cloroquina. Assim como Mandetta, Teich é médico e declarava que o medicamento tem efeitos colaterais e deve ser usado com cuidados.

O ex-ministro ainda tentou adotar em sua gestão medidas de combate ao coronavírus, como diretrizes para restrições de circulação de pessoas.

Isolado no governo, ele pediu exoneração com menos de um mês no cargo e foi substituído pelo seu secretário-executivo, general Eduardo Pazuello.

Sob o lema de que “um manda, o outro obedece”, em relação a Bolsonaro, o militar acatou as ordens do Planalto e recomendou “tratamento precoce” sem comprovação científica, não apoiou medidas de distanciamento social, atrasou a vacinação no país e foi omisso no colapso do sistema de saúde, principalmente em Manaus, onde pacientes morreram asfixiados pela falta de oxigênio medicinal.

A Procuradoria-Geral da República abriu uma investigação para apurar a negligência do Ministério da Saúde sob o comando de Pazuello. No Congresso, senadores pressionam para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).

Diante desse cenário, a permanência do general à frente da pasta se tornou insustentável. Agora com a adoção de um discurso pró-vacina, o Palácio do Planalto também avalia que a demissão de Pazuello pode estancar a perda de popularidade de Bolsonaro.

Já foram ministros da Saúde no governo Bolsonaro:

  • Ex-deputado Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS)

  • Médico Nelson Teich

  • General do Exército Eduardo Pazuello

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