“Minha mãe vendeu uma moto pra eu competir”, lembra Ana Sátila focada no Caiaque Extremo de Paris 2024

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Ana Satila nas Olimpíadas de Tóquio. Foto: Adam Pretty/Getty Images
Ana Sátila nas Olimpíadas de Tóquio. Foto: Adam Pretty/Getty Images

Foi através das orientações do pai, o construtor Cláudio Vargas, que a mineira de Iturama, Ana Sátila, foi apresentada ao esporte. Aprendeu primeiro a maratona aquática, desporto que o genitor se aventurava na idade madura. Posteriormente, a menina passou a remar guiada pelo técnico Romualdo Júnior. Só tinha nove anos e o cenário era o município de Primavera do Leste, no interior do Mato Grosso. A pequena já tinha ligação com a água e ficou apaixonada pela canoagem. E não a largou mais: chegando a competir em três olimpíadas entre outros eventos internacionais.

A primeira em Londres-2012 com apenas 16 anos (16º no K1 feminino); mas já tinha em sua galeria o título mundial júnior em 2014. Depois esteve no Rio-2016 (17º no K1 feminino). Um ano depois se dividiu em disputar duas categorias K1 (caiaque) e C1 (canoa) [mundial sub-23]. Apesar de embalada, este ano em Tóquio, não conseguiu conquistar a tão sonhada medalha do slalom. Sofreu revés. Ficou em décimo na categoria C1, sendo penalizada em 54 segundos após cometer irregularidades em sua descida e a passagem nas portas. Fechou com tempo de 164, 71 segundos distante da australiana medalha de ouro com 105,04s. Apesar disto já havia colocado o nome na história ao se tornar a primeira brasileira a se classificar para uma final olímpica da canoagem.

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Antes no mesmo evento japonês, competiu e parou na semifinal do k1. Superados os resultados adversos nos jogos, foi a vez de dar a volta por cima ainda este ano na etapa de Pau, na França disputando a Copa do Mundo. Foi quarta colocada na C1(canoa) e foi vice-campeã no K1 (caiaque) extreme. Levou a medalha de prata nesta modalidade que estreará nos Jogos de Paris 2024. Nela, os atletas participam de baterias com quatro competidores, desde as quartas de final, correndo entre si. Os dois primeiros avançam às fases seguintes.

O ouro na Copa ficou com a holandesa Martina Wegman. Sátila, de 25 anos, já tinha levado um bronze nesta mesma modalidade na etapa do mundial de Seu d’Urgell (Espanha), competições com bom desempenho que elevaram seu astral deixando para trás o momento desfavorável na terra do sol. Agora, o foco está no Extremo. Segundo Ana, que também representa a FAB (Força Aérea Brasileira) por meio do Programa de Atletas de Alto Rendimento (PAAR) desde 2016 na patente de sargento, ”não sei o que vou fazer, mas não disputarei três categorias”.

Ela não conta mais diretamente com o técnico italiano Ettore Ivaldi, que deixou o país por problemas financeiros com a confederação. Ele a orienta à distância, e nos Jogos de Tóquio quem fez às vezes de orientador informal foi o namorado dela, o também canoísta francês Mathieus Desnos. O ressentimento com a falta de Ivaldi quase levou a atleta a desistir da canoagem e estudar medicina. No entanto, não deixaria de valorizar os esforços da família. E também por ser uma atleta profissional. Seu pai recusou oportunidades de trabalho para acompanhá-la. E a mãe, dona Marcia Helena Vargas, chegou a vender uma moto para que disputasse um campeonato nacional. Além de Ana, sua irmã Omira Estácia Neta Vargas, de 21 anos, tem conquistado bons resultados no mesmo esporte. Ambas desde a infância puderam sentir a adrenalina das águas do Rio das Mortes no interior de Mato Grosso.

Se o sucesso na conquista olímpica ainda não veio, a canoísta tem a favor seus ótimos resultados, nunca ter sofrido problemas de saúde e o suporte dos programas do governo e também os patrocinadores de peso entre os quais a MRV gigante do setor imobiliário e maior construtora da América Latina. E o Banco SiCOB, que faz parte do maior sistema de cooperativa do País com pontos de atendimento inclusive em Primavera do Leste.

A seguir mais detalhes e curiosidades da canoísta.

Yahoo Esportes - Você já disputou três Olimpíadas é experiente, mas não veio a medalha em Tóquio, os erros foram nas balizas? Que faltou para ir ao pódio?

Ana Sátila - Um pouco mais de organização. Competi nos Jogos Olímpicos sem técnico, com o meu namorado que aceitou ajudar nessa jornada, mas que não era o essencial. Foi temporada grande e cheguei desgastada na Olimpíada. E contando com técnico experiente, as preocupações e medos seriam sanados no meio do caminho.

Yahoo Esportes – Após fazer história em Tóquio sendo a melhor mulher na canoagem slalom do Brasil, e ganhar a medalhas no K1 Extreme nos eventos mundiais, seu foco será nesta categoria que faz parte do programa olímpico de Paris 2024, ou tentará a K1 ou C1 também?

Ana Sátila - Ainda não sei como vou fazer, certeza que três categorias são muito difíceis de levar, mas quero muito ficar no extremo, sinto que tenho conexão com ela.

Yahoo Esportes - Ser muito jovem, mas promissora, e tendo grandes rivais no exterior acredita que o caminho ainda será de muita luta?

Ana Sátila - Em momento algum se torna fácil a vida de atleta, há sempre novos desafios, recordes pessoais a serem batidos, então é uma constante evolução, e claro, se manter no alto rendimento é a parte mais complicada para mim.

Yahoo Esportes - De que forma você analisa o trabalho da canoagem no Brasil, há algum ponto de estrutura a melhorar o que falta, e o que evoluiu?

Ana Sátila - Falta um técnico internacional de nível, que deixe um legado de conhecimento para os treinadores brasileiros e mais investimento na estrutura de clubes que formam a base da canoagem no Brasil.

Yahoo Esportes - Como vê a atenção no Brasil destinada aos esportes amadores? Este ano muitas mulheres engrossaram a delegação com muitas representantes e acredita que a preparação foi positiva diante do cenário de pandemia?

Ana Sátila - O esporte amador precisa sim de mais incentivo. Tudo é um processo, investir em projetos sociais de esportes amadores ajuda a desenvolver a modalidade e tirar crianças e adolescentes da rua, e ter um primeiro contato com o esporte, seja ele qual for {a atleta apoia e representa o IMEL [Instituto Meninos do Lago de Foz do Iguaçu, no Paraná, projeto mantido pela binacional Itaipu]}. Além disso, o controle do time Brasil foi impecável, mesmo antes da Olimpíada, no centro olímpico Maria lenk (RJ), tudo foi seguido à risca, éramos testados sempre. Durante a ida ao Japão fomos testados e acompanhados por uma equipe médica do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) o tempo todo e isso me passou muita segurança e tranquilidade. A campanha foi sucesso, o que prova comprometimento do comitê e nossa segurança.

Yahoo Esportes - Recentemente você e outros atletas participaram de uma entrevista coletiva buscando soluções para auxiliar a situação jurídico-financeira grave pelo qual enfrenta a Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa), que também teve renúncia do presidente Jonatan Maia [e assumiu Rafael Girotto]. Qual sua ação visando melhorias à modalidade?

Ana Sátila - É tudo ainda muito recente, mas já estamos tentando contato com alguns clubes para organizar competições sem a confederação, dessa forma, conseguimos manter viva a canoagem no Brasil e os atletas motivados, é o objetivo principal.

Yahoo Esportes – Mudemos de assunto para falar dos destaques da canoagem mundial, cite quem são os fortes rivais e os segredos da estrutura deles?

Ana Sátila - A Europa em geral é muito forte, mas Alemanha, França e Inglaterra se destacam, devido ao grande incentivo na base é ótima estrutura de treinamento e cronograma para os atletas de alto rendimento. Sequência de trabalho é primordial.

Yahoo Esportes - Além de competir você estuda ou tem outra atividade?

Ana Sátila - Estou terminando Educação Física porque sempre gostei muito. Mas no futuro quero iniciar faculdade de arquitetura e urbanismo.

Yahoo Esportes – Há alguma uma mensagem para os brasileiros sobre seu futuro e o foco que pretende para divulgar o país?

Ana Sátila - Vou seguir até Paris porque sei que ainda tenho muito para entregar. Vou me dedicar ao máximo em busca dessa medalha e de dar o meu melhor em cada treino. É uma honra e um prazer muito grande representar meu país e contar com a torcida dos brasileiros. Sou grata por tudo e quero retribuir todo esse sentimento.

Yahoo Esportes - Quem é seu ídolo no esporte ou na canoagem?

Ana Sátila - Com certeza, o principal é o nosso querido Guga {tenista catarinense Gustavo Kuerten}, sou fã da pessoa que ele é e a carreira incrível que construiu.

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