Mike Tyson curte filosofia? Escritor amigo do astro garante que sim

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Mike Tyson com o livro de Gordon Marino. Foto: Arquivo Pessoal
Mike Tyson com o livro de Gordon Marino. Foto: Arquivo Pessoal

Em novembro do ano passado, o icônico pugilista Mike Tyson, 54, voltou aos ringues para um combate de exibição junto do também lendário Roy Jones Jr., 52. O embate dos veteranos chamou atenção da grande mídia, inclusive tendo sido transmitido no Brasil pela Globo, algo que não se vê entre os atuais nomes do pugilismo. Muitos veículos de comunicação forçavam estereótipos ao tratá-lo como uma “fera” e resgatando em todo instante assuntos judiciais do seu passado, diferente da cobertura estrangeira. Nunca buscaram um lado pouco conhecido: seu hábito de leitura, principalmente filosofia.

Um dos autores contemporâneos favoritos de Tyson é o nova-iorquino Gordon Marino, responsável pela Hong Kierkegaard Library da St. Olaf College em Minnesota, um dos principais acervos sobre o filosofo dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855), autor no qual Marino é um dos mais renomados acadêmicos no mundo. Além de escrever sobre filosofia, Marino também expõe seus pensamentos em artigos dos tradicionais New York Times e Wall Street Journal, sobre filosofia e boxe, respectivamente, porém antes de se tornar um pensador buscou carreira no boxe e no competitivo futebol americano, hoje, em paralelo, atua como técnico em ambas modalidades.

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Em exclusiva ao Yahoo Esportes Brasil, Marino fala de sua amizade com o campeão dos ringues, a possibilidade de uma exibição de Tyson e seu antigo rival Evander Holyfield, 58, as leituras do boxeador e seu gosto por Kierkegaard e Maquiavel e como pensadores do passado podem ajudar a lidar com os problemas dos tempos atuais de Covid-19, protestos civis e caos político.

Yahoo Brasil: Antes de ser um acadêmico de Filosofia, você foi boxeador e jogador de futebol americano. Como foi a transição dos esportes para a filosofia?

Gordon Marino: Cresci em um lar abalado por discussões e violência. O que é suficiente para fazer uma criança ponderar: “O que diabos está acontecendo?”, “Quem está certo e quem está errado?”, “Há certo e errado?”. Portanto, eu estava inclinado a estudar Filosofia. Quando fui para a faculdade para jogar futebol pela Bowling Green State University, felizmente tive um genuíno “Sócrates” como professor, seu nome A. Serge Kappler. Este viu uma pequena fagulha em mim, observou que eu ainda estava nos estágios iniciais do desenvolvimento acadêmico e que precisava de um rigoroso treinamento mental, assim como acontecia comigo nos esportes. E então houve a conexão. Ambos, mente e corpo, precisam de formação. Por estar envolvido com esporte de alto nível eu soube a apreciar a diferença entre mediocridade e verdadeira excelência.

O filósono Gordon Marino. Foto: Divulgação
O filósono Gordon Marino. Foto: Divulgação

Y: Alguma lição dos livros foi útil em sua carreira como técnico de boxe e futebol americano?

GM: Eu antes era obcecado por esportes enquanto estava na sala de aula. Uma distração terrível. Um texto que me ajudou foi A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen (1948) de Eugen Herrigel. Neste conciso livro, o autor enfatiza que quando se está em uma academia ou arena esportiva se deve esquecer todo o resto. Por outro lado, quando se deixa estes ambientes de esforços físicos se deve deixar tudo lá e esquecer completamente deles. Claro, é mais fácil falar do que fazer quando se tem uma luta importante próxima ou quando se está numa chata sessão de palestras. Mas como Wladmir Klitschko nunca cansa de me apontar: “controle sua mente e controlará tudo”. Claro, brinco com ele: “você é um louco por controle”.

Y: Você é um dos principais acadêmicos de Søren Kierkegaard no mundo. Como este filósofo do século XIX ainda é relevante no mundo de hoje?

GM: Porque Kierkegaard, (Friedrich) Nietzsche, e outros tantos sábios, podem nos ajudar a lidar com a fragilidade da vida e também os obstáculos para ser a boa pessoa que há em nós. Por exemplo, como ensina Kierkegaard, é fácil ser gentil e amoroso quando tudo está do jeito que gostamos, mas e quando tudo se resume a portas fechadas em nossas caras ou quando se está assolado por ansiedade e/ou depressão? Então a pergunta se torna, se você consegue navegar pela dor e melancolia e ainda se importar com os outros?

Y: Um dos seus notórios leitores é o seu amigo Mike Tyson, bicampeão mundial e lenda que transcendeu os ringues se tornando parte do léxico cultural contemporâneo. Como vocês se encontraram?

GM: Nos conhecemos em Maui (Havaí, EUA) em 2002 quando Mike estava se preparando para enfrentar Lennox Lewis. Creio que ele foi para o Maui para evitar repórteres, porém fomos assim mesmo. Foi minha primeira experiência como repórter e eu escrevia para a New York Times Magazine, logo eu estava bem nervoso. No primeiro dia de entrevistas, Mike colocou aproximadamente 30 de nós em um pequeno apartamento. Em dado momento, um dos repórteres olhou para a pilha de livros na mesa ao lado de Mike e condescendentemente perguntou: “Você os lê?”. Após algumas bufadas, Mike erodiu como um vulcão, atirando insultos que incomodariam até as orelhas de um barman. Dei-lhe um toque perguntando-lhe algo sobre porque sempre se expunha (às provocações). Então, esperei ansiosamente por um momento, Mike colocou todos para fora, exceto por minha esposa e eu. O que não ajudou em minha relação com os colegas. É engraçado, mas ao responder isto, recordo-me dele dizendo na frente de todos, e inclusive minha esposa Susan estava lá: “Gordon é um cara legal, mas também é um professor que come nas mãos da esposa”.

Y: Tyson lê seus livros e também mencionou que além de Kierkegaard, Maquiavel (Niccolò Machiavelli) é uma grande influencia em sua linha de pensamento. O que observa sobre estes tão diferentes pensadores influenciarem Tyson e até o boxe como um todo?

GM: É bem explicável que com seu passado e vivência no ramo do boxe, Mike, assim como (Floyd) Mayweather, tende a ver o mundo como um campo de batalha pelo poder. Por esta razão, Maquiavel lhe tem um apelo natural. Quanto a Kierkegaard, Mike ocasionalmente me telefona pedindo por uma citação sobre ansiedade ou desespero. Ele me lembra um pouco de Bob Dylan quando descreveu seus hábitos de leitura em sua autobiografia. Assim como Dylan, Mike irá se agarrar a pedaços aqui e ali com os quais pode se identificar ou que lhe possam ser úteis. Me recordo de estar em sua casa uma vez e o orgulho com o qual me mostrava sua biblioteca pessoal.

Y: Recentemente Tyson regressou aos ringues no que de fato foi uma luta de exibição com o também lendário Roy Jones Jr. Como observa suas atuais atividades no meio pugilístico?

GM: Mike deixou o pugilismo com um amargo gosto em sua boca. Boxe é muito de sua identidade, portanto fiquei feliz em vê-lo, pois parecia estar curtindo o esporte que está no âmago de sua alma. Também digo que Mike sempre precisou de algo para mantê-lo ocupado e focado. Tédio é uma toxina perigosa para Tyson. Estou contente de ver que buscou atacar o corpo de Roy. Lembro que Jones Jr. sofreu nocautes assustadores, portanto me preocupei por ele levar um duro uppercut.

Y: Por que Tyson ainda é relevante para o boxe e fora dele mesmo que sua última luta profissional tenha sido há quase 15 anos?

GM: Ele tem carisma, e ainda há uma certa magia nele que apesar de ter sido batido por alguns pesados nada espetaculares, e mesmo que nunca tenha se superado em uma luta na qual estivesse atrás na pontuação, Tyson arrebatou o imaginário público com seu poder explosivo e a ferocidade de uma pantera.

Y: Há conversas para um terceiro encontro entre Tyson e seu rival de longa data Evander Holyfield. Como avalia tal situação?

GM: Suspeito que Evander queira um cheque gordo, mas não me importo com isto. Não creio que Evander venha para brincar e você sabe que ele está em forma. Para falar a real, Evander nunca sai de forma. Outro fator é que pugilistas na idade deles ainda possuem pegada, mas não são mais tão bons em evitar os socos. Para ser curto, afirmo que não sou um grande fã deste encontro.

Y: Outro aclamado pugilista amigo seu é o ex-campeão dos pesados Wladimir Klitschko da Ucrânia que também tem doutorado em Ciência Esportiva. Vocês falam de filosofia?

GM: Como mencionei anteriormente, discutimos um pouco sobre isto. Wlad certamente é da Escola Estoica e é altamente focado em controlar suas emoções. Eu, por outro lado, estou mais inclinado a ser transparente, sentar em um sofá com minha depressão e até aprender o que é ser humano.

Y: Seu último livro, The Existentialists Survival Guide (O Guia de Sobrevivência do Existencialista, em tradução livre; ainda não publicado no Brasil) foi lançado antes da pandemia, mesmo assim as pessoas já lidavam com crises rotineiras de estresse da vida moderna. Atualmente enfrentamos além da pandemia de Covid-19, caos político e protestos civis. Como seu livro dialoga com o trauma que sentimos hoje?

GM: Ele se conecta muito bem já que há capítulos lidando com ansiedade, depressão, morte e o que significa ser si mesmo. Fatores que se tornaram mais discutidos e urgentes neste contexto de doença. Ainda, Covid-19 está precisamente nos ensinado sobre nossa fragilidade e o fato de vivermos com incertezas e mudanças. Não há mais “normal”. (Albert) Camus em sua obra prima A Peste (1947) é uma leitura essencial neste contexto de pandemia. Em suas últimas sentenças deste texto imortal, o autor nos lembra que a peste sempre esteve ali, a espreita para deixar o submundo há qualquer instante. Outro aspecto existencial da Covid, é o fato de que há muitos morrendo, aproximadamente 400 mil só nos EUA, e ainda assim não os vemos. É uma morte em massa anônima. E em muitas vezes quando mata alguém, esta pessoa está sozinha, um triste e mórbido lembrete que de alguma forma sempre morremos sozinhos.

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