Miguel Nicolelis: “O futebol não é maior do que a vida de qualquer brasileiro”

LANCE!/NOSSO PALESTRA
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O médico e cientista palmeirense Miguel Nicolelis concedeu entrevista exclusiva ao NOSSO PALESTRA, nesta segunda-feira (22), e comentou sobre a situação do futebol brasileiro durante o momento mais grave da pandemia no país. O tema teve enfoque no caso desta segunda, envolvendo as partidas do Paulistão que foram deslocadas para Volta Redonda-RJ horas após terem sido suspensas até o dia 31 de março pela própria Federação Paulista de Futebol.

Nicolelis começou a conversa descrevendo o cenário como “surrealismo do futebol brasileiro” e, em seguida, analisou os protocolos adotados pelo meio esportivo afirmando, taxativamente, que eles apresentam inúmeras falhas.

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– Todas essas desculpas de que esse protocolo é seguro são absurdas e irreais. Expor quatro delegações a viagens e adentrar um estado que está entrando na fase crítica, como no resto do Brasil… O último número que temos de Volta Redonda é de 89% de UTIs ocupadas. Pra quê? Qual é a razão a não ser essa ganância pelo dinheiro do futebol? – iniciou o professor.

– Colocar em risco jogadores que nem tem noção (da gravidade da situação). Eu recebi uma mensagem de um jogador muito famoso dizendo que não tinha ouvido esses argumentos de que jogadores podem ter sequelas crônicas no futuro. Jogadores podem não saber que, mesmo tendo um quadro clínico assintomático leve, sendo exposto ao vírus, você tá sendo exposto ao risco pro resto da vida – acrescentou, deixando claro o impacto danoso que o contato com o vírus pode causar a um atleta.

O cientista também destacou a fragilidade na acurácia dos testes realizados diariamente pelos clubes como método de certificação da não contaminação, chamando a atenção para um dado expressivo de testes com resultado “falso negativo”.

– Eu já avisei o pessoal do Palmeiras que 30% dos teste de PCR, na média, dão falso negativo. Aconteceu com o time do Corinthians, tiraram o Cantillo da concentração, porque ele estava com os sintomas, mas tinha testado negativo. O Lucas Piton jogou infectado. O único estudo que eles se baseiam é um estudo que os próprios autores não tem segurança pra afirmar categoricamente que eles estão realmente seguros em um jogo de futebol. Além disso, os testes depende da proficiência na coleta e na realização do teste. Vocês acham que a qualidade de coleta e análise é Fleury Plus (alta qualidade) no Brasil todo? – indagou Nicolelis, fazendo referência ao fato de que, devido à disparidade socioeconômica das localidades, muitas regiões apresentam testagens imprecisas.

Ainda alertou para a questão de que a ocupação de centros hospitalares e a mobilização de transporte e equipamentos para uma atividade não essencial pode prejudicar o resto do país.

– A chance de ter a transmissão pode até ser baixa, mas esse nem é o maior problema. Alguém se machuca gravemente no jogo e pra onde eles vão tratar o cara? Não tem hospital. A CBF não parou pra pensar que, tendo 30 jogos entre time na Copa do Brasil em uma quarta-feira, são mobilizadas 60 ambulâncias paradas em um estádio. Tá faltando ambulância pra transportar paciente de Covid em todas as parte do Brasil.

Retornando ao tópico das possíveis sequelas causadas pela contração da Covid-19 aos jogadores de futebol, o médico foi bastante critico com a CBF por colocar em risco a saúde desses atletas e promover aglomerações em um país que sofre seu momento mais severo da pandemia.

– A CBF e a FPF vão arcar com os custos que jogadores profissionais podem ter para cuidar da sua saúde o resto de suas vidas? Podem entrar com queixas trabalhistas por exposição a um ambiente insalubre. A legislação brasileira é muito clara nisso. Como fica? As pessoas não falam do Tiradentes e do Alto do Piauí, times que tiveram treinadores que foram para na UTI e quase morreram como o Cuca. Ou até o médico que era presidente do Brusque, que não estava de férias, ele estava lá trabalhando. Eu sou amante de futebol, mas tem um limite. A vida humana está acima ressaltou.

– Por que o futebol vai se transformar em um fator de risco em um país que já tem uma pandemia fora de controle? Não faz nenhum sentido. Se esse aqui fosse um país sério, se tivéssemos governo federal e estadual, A CBF estaria cometendo dois crimes sanitários. O primeiro crime é promover aglomeração. Segundo, o futebol está dando uma carona às diferentes variantes para ir a Volta Redonda e transformar a cidade no grande “covidiário” da CBF no Brasil. Uma cidade que não comporta mais casos – finalizou o cientista.