Michael relembra homofobia na Superliga e se solidariza com Douglas Souza

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Michael durante sua passagem pelo Vôlei Futuro (Foto: Divulgação - Vôlei Futuro)

Recentemente, Douglas Souza virou um grande nome do vôlei brasileiro dentro e fora das quadras, mas acabou passando por um episódio de homofobia quando passava pela Holanda enquanto se mudava para Vibo, onde jogará a partir dessa temporada.

Em 2011, o central Michael Santos foi vítima de homofobia dentro das quadras, quando atuava pelo Vôlei Futuro e recebeu insultos vindos da torcida do Sada Cruzeiro em partida da semifinal da Superliga.

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Em entrevista ao Yahoo Esportes, Michael, que atuará na quarta divisão do vôlei francês nesta temporada, relembrou os insultos, falou sobre a posição de Douglas Souza, a carreira e o ambiente do vôlei, "tipicamente machista".

Yahoo Esportes: Você teve passagens importantes pelo Vôlei Futuro e o Brasil Kirin. Qual você considera o momento mais importante na carreira?

Michael Santos: São duas fases muito diferentes. O Vôlei Futuro chegou em uma fase da minha vida muito importante, que foi marcada por momentos muito expressivos pra mim. Joguei com pessoas importantes do cenário, como: Ricardinho, Lucão, Vissoto, Lorena, entre tantos outros com o mesmo brilho e importância. E foi também onde por um ataque homofóbico, me libertei de muitos tabus e me tornei muito conhecido pelo público, não só pelo mundo do vôlei. Com o Volei Futuro fui campeão paulista de 2010 e vice-campeão da Superliga 2011/12. 

Já o Brasil Kirin, é minha paixão e minha torcida. No meu primeiro ano, na temporada 2014/15, como oposto, tive a primeira grande lesão, rompi o tendão do quadríceps bem no final da primeira fase e fiquei de fora da temporada. Por sinal, o Walace Jansen (primeiro oposto) teve mesma lesão e também ficou fora da Superliga. Ficamos sem opostos e não fomos muito longe. Mesmo assim os dirigentes (Maurício e André Heller) renovaram com a gente e na temporada 2015/16 fomos pra final. Foi incrível vir de uma temporada triste pra uma consagração. O Brasil Kirin foi muito corajoso e muito honesto com a gente e serei sempre muito grato por fazer parte dessa história. Foi uma verdadeira casa pra mim. Acho que os dois times foram muito importantes para minha carreira e minha vida.

No período em que atuou no Vôlei Futuro você foi atacado por parte da torcida do Sada Cruzeiro, um ataque de caráter homofóbico. Como você entende este tipo de comportamento, ação, após 10 anos? Teve algum tipo de ação discriminatória após o triste fato? Teve alguma repercussão na carreira?

Foi um momento muito triste pra mim, porque nem eu entendia o que estava acontecendo. Lembro como se fosse hoje o presidente do Vôlei Futuro dizendo que ele e a sua família tinha um carinho enorme por mim e que soltariam uma nota na imprensa relatando esse absurdo e pertguntando se eu gostaria de me pronunciar. Estamos falando de 2011, ter liberdade e ser quem a gente realmente é, era muito mais difícil naquela época, e só estamos falando de 10 anos atrás. Ver o presidente e patrocinador máster do time me dando esse carinho e esse aval, era tudo que eu precisava. 

Me sinto muito orgulhoso da minha coragem e ter ajudado um pouquinho a buscarmos nossos direitos e o nosso respeito como atleta e principalmente seres humanos. Muita coisa mudou desde então, consigo ver uma aceitação e mais respeito nos ginásios, nas equipes. Mas tudo vem desde o nosso saudoso Lilico, que se pra mim foi um ato corajoso, imagina pra ele na época. E agora temos Douglas Souza esbanjando coragem e liberdade. Óbvio que estamos longe de uma igualdade, mas estamos no caminho,

Há homofobia no vôlei?

Sim, existe. O esporte em si é muito machista. Umas modalidades menos que outras. Mas sempre foi muito velada atrás de algumas desculpas de rendimento, porte físico. Quantos atletas na transição da base pra categoria adulta ficaram pelo caminho por serem gays? Lógico que não posso generalizar, muitos não avançaram por qualidade, mas muitos apenas por serem gays. O que é muito cruel. Nós atletas LGBT sempre precisamos fazer um algo mais, não vejo isso como um problema, mas num momento de igualdade com um atleta hétero, o fator “gay” pesa.

Hoje em dia, além de você, Douglas Souza assumiu ser gay e é tido pela torcida do vôlei como um dos mais queridos. A representação de Souza é importante nas comunidades LGBTs para reivindicar direitos, justiça, igualdade? Como você a atuação dele como pessoa pública?

Já ouvi alguns comentários de que hoje os tempos são outros, a pauta LGBT está mais forte, somos mais aceitos e respeitados. Estamos numa evolução, mas ainda somos o país que mais mata gays no mundo. O que o Douglas vem fazendo é de uma coragem incrível, mostrando que ele realmente é, sem máscaras, um jogador incrível e de uma representatividade “foda”. Ele representa nosso país no vôlei e mesmo assim não teve medo de retaliações, preconceito nem críticas. O que ele vem fazendo é muito importante para a comunidade. Como eu disse antes, graças ao nosso saudoso querido Lilico, passando por mim, por todos atletas que não se assumiram abertamente, mas com fotos de casamentos e expondo suas vidas com seus cônjuges nas redes sociais e até aqui, com nossa estrela Douglas Souza, conseguimos ver uma luzinha no fim do túnel.

Politicamente, o Brasil por um processo em que os movimentos sociais sofrem alguma perseguição? Pautas conservadoras engajadas pelo governo Bolsonaro tem sido a linha de pensamento de muitos. Como você tem visto o atual momento político? Já sofreu alguma perseguição?

Não discuto sobre política, mas tenho meu ponto de vista fortíssimo. Vivemos em um governo homofóbico, misógino, xenofóbico, entre tantas outras definições. Lutar por direitos nunca foi tão difícil porque ainda existe gente da chamada Minoria (LGBTs, pobres, negros, mulheres) que apoiam esse presidente. Eu não consigo entender. Já comecei uma limpa nas minhas redes sociais pra que é a favor do Bolsonaro e se sintam a vontade de me excluir também. Vivemos num enorme retrocesso [O atleta aproveitou para emendar com um sonoro #forabolsonaro].

Vários atletas do vôlei já se declararam “bolsonaristas”, como você vê uma modalidade com tanta influência da comunidade LGBT ter parte do público que apoia temáticas tão adversas?

Cada um tem direito de votar em quem quiser, mas pra mim ser bolsonarista fala muito sobre quem você é, e não falo só de atletas. Falo de amigos, de parentes. Acredito que muitos não apoiam o discurso homofóbico do Bolsonaro, mas mesmo assim não consigo entender esse apoio, com o Brasil no buraco. Mas também é só você procurar posts e comentários homofóbicos e misóginos antigos de alguns atletas. O comportamento de bolsonaristas é sempre igual. Nunca sofri nenhum preconceito por parte deles, muito pelo contrário. Mas não é sobre mim e sim sobre uma comunidade que sofre a séculos lutando por seus direitos. Infelizmente a empatia vem sido deixada de lado dentro desse governo.

Pensando no futuro, gostaria de se manter no vôlei ou pretende seguir um outro rumo?

Pretendo continuar no vôlei por um tempo ainda. Hoje estou jogando aqui na França (VBCC CHALON). Mas mesmo quando me aposentar, pretendo continuar dentro do esporte. Vôlei é e sempre foi minha vida. Gostaria de compartilhar e repassar minhas experiências num futuro. Mas o futuro é brincalhão, né? Veremos o que ele reserva.

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