Micale cutuca Edu Gaspar e se mostra preocupado com a Seleção para Tóquio: “A preparação está péssima”

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Desde que deixou a CBF, Rogério Micale passou por Atlético-MG, Paraná e Figueirense
Desde que deixou a CBF, Rogério Micale passou por Atlético-MG, Paraná e Figueirense

Por Marcelo Guimarães

Técnico da Seleção Brasileira na conquista do inédito ouro olímpico do futebol, na Rio 2016, Rogério Micale está preocupado com a preparação da equipe na luta pelo bicampeonato, no Jogos de Tóquio, em 2020. Micale vê o time, que disputará uma vaga no Pré-Olímpico, sem uma referência e com falhas no planejamento. Sylvinho, auxiliar de Tite, foi escolhido o treinador no dia 9 de março.

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De acordo com o Micale, desde o seu período na Seleção, existem falhas de planejamento nas categorias de base. O treinador justifica os desempenhos ruins nas últimas edições do Sul-Americano Sub-20, no qual o Brasil não garantiu classificação para os Mundiais de 2017 e 2019, também pela falta de tempo para treinamentos. Ele lembra que falhou ao tentar classificar o país para o torneio na Coreia do Sul, mas critica os métodos de Edu Gaspar, questionando a falta de resultados positivos da base, desde que ele assumiu o cargo de coordenador técnico da CBF, em 2016.

- A preparação está péssima. Na verdade, a preparação de todas as seleções de base reflete no que estamos vendo. A sub-20 já não foi ao Mundial comigo. A única competição que eu tive tempo para a preparação foi a Olimpíada. Deram um ano para a preparação e nem era para eu ser o treinador. Seria o Dunga. Eu fui para o Pan-Americano e trouxemos a medalha de bronze. No Mundial, que eu entrei no lugar do Galo, nós tivemos 20 dias de preparação. Eu não critico por não estar mais lá. Olha o que também está acontecendo com o sub-17. Com todo o respeito, depois que essa gestão nova entrou, com o Edu Gaspar, qual foi o resultado que nós tivemos de relevante na base? Nenhum. Muitas desclassificações, inclusive comigo. Eu, o Carlos Amadeu e, agora, o Guilherme Della Dea sofremos com isso. A seleção olímpica está sem uma referência. Chega na hora e sobra para o treinador. Nós precisamos parar com isso. Todos os outros centros estão trabalhando bem na base. Veja agora a Inglaterra. Até a Venezuela se desenvolveu e o Brasil continua na mesmice. Deixa tudo para a última hora, achando que vamos chegar lá. Enquanto não resolve, é o treinador que leva a culpa.

Questionado se aceitaria ajudar a CBF na organização da equipe para os Jogos Olímpicos de Tóquio, Micale diz que, apesar de ter uma forte relação com a Seleção, não é possível colaborar com pessoas que não acreditaram no seu trabalho há dois anos, quando foi demitido após o fracasso no Sul-Americano Sub-20 de 2017.

- Eu tenho um carinho muito grande pela Seleção Brasileira. Eu adquiri experiência com o que aconteceu com o Seleção no pior cenário possível, que foi a Copa do Mundo de 2014. Porém, no primeiro resultado negativo, houve o meu desligamento por parte da CBF. É uma falta de respeito, uma falta de critério. E essas pessoas continuam lá, principalmente quem gere. Eu vou citar o nome, é o Edu Gaspar. É muito difícil termos um entendimento e retornarmos, se lá atrás não houve critério. O único resultado negativo não foi culpa do treinador, só. Eu tenho a minha culpa, mas também houve a falta de planejamento. Eu não vejo como voltar porque o mesmo grupo que me liberou, há dois anos, ainda está lá.

Treinador elogia Neymar e vê Seleção dependente do atacante

Durante as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, Rogério Micale teve a oportunidade de trabalhar com o atacante Neymar. Quase três anos depois, o treinador fala com carinho da forma como o atacante do Paris Saint-Germain “comprou” o projeto que foi a apresentado a ele, na busca pela medalha de ouro.

Ele lembra que Neymar foi um exemplo para todos que participaram da conquista pela forma profissional como se comportou. O treinador aproveita para defender o atacante das críticas em relação ao seu comportamento dentro e fora das quatro linhas, pedindo que as pessoas entendam que ele merece ter a sua privacidade preservada e tempo para aproveitar o período fora das partidas.

- O meu relacionamento com o Neymar foi o melhor possível. Ele foi um cara que comprou a ideia, o modelo que nós definimos. Foi usado como um modelo para aquele elenco. Correspondeu com atitudes e a forma de lidar, de jogar. Comigo, ele foi muito bem. Agora, precisamos entender que ele tem a sua vida particular. Ele não é só um ídolo dos brasileiros, é um ídolo mundial. Ele arrasta multidões para onde vai. Ele precisa ter uma vida social. Eu tive a oportunidade de conviver com ele e sei que não dá nem para sair de um hotel, que vira um tumulto. Então, o Neymar precisa ter o tempo dele para aproveitar, quando está fora dos seus compromissos, já que ele fez por merecer tudo o que conquistou. Tudo o que ele tem foi pelo suor do trabalho. O Neymar não é político e não recebe nenhuma verba pública. Ele trabalha e é muito bem remunerado por isso. Vamos falar dos últimos jogos da Seleção Brasileira sem o Neymar. Temos uma dependência dele e isso não é um demérito. Graças a Deus temos um jogador como esse. Portugal tem o Cristiano Ronaldo, a Argentina tem o Messi e nós temos o Neymar. Temos que respeitar o cara. Ele é muito importante para o Brasil, a nossa referência.

Preço “salgado” dos cursos de especialização para técnicos

Rogério Micale tem há mais de um ano a licença PRO do curso de treinador realizado pela CBF. O treinador, que participou da elaboração, elogia a elaboração de atividades que ajudem no desenvolvimento do futebol brasileiro. Ele, porém, vê no preço uma barreira para que todos tenham acesso à atividade, lembrando que ainda existem clubes que atrasam o pagamento de salário no país. De acordo com o site da CBF, o curso PRO custa R$ 19.130,00.

- Eu faço parte da formatação deste curso desde o início. Ele foi formatado aqui, em Belo Horizonte, pela PUC, com o Maurício (Marques) e o professor Osvaldo (Torres). Eu até ministrei a primeira aula, quando ainda eram 20 alunos. Já faz um ano e meio que eu não dou aula, mas o curso evoluiu muito. É um curso que dá uma base para o treinador, principalmente como pensar um treinamento, transferir o seu modelo de jogo para o que você pensa. É um ótimo curso, mas ele é muito caro e acaba limitando o acesso a alguns treinadores. Hoje em dia, no Brasil, a remuneração caiu muito. Além disso, muitos não recebem os seus salários.

Desejo de trabalhar fora do país

Desde que deixou a CBF, Rogério Micale passou por Atlético-MG, Paraná e Figueirense. O treinador acredita que problemas políticos atrapalharam o desenvolvimento dos seus trabalhos. Agora, apesar de ter sido sondado por clubes brasileiros, ele deseja passar um período fora do Brasil.

- Em relação ao Atlético-MG, Paraná e Figueirense, que foram os meus últimos trabalhos, eu acredito que, em Minas Gerais e Santa Catarina, eu peguei os clubes em momentos turbulentos politicamente. No Paraná, o investimento foi em estrutura, não em jogadores. Eu estou tentando fora do país. Temos algumas possibilidades de transferência, assim como para os clubes nacionais também. Fui convidado para dois clubes, mas prefiro não revelar porque ainda existem profissionais trabalhando. Porém, eu estou aguardando para fora do país. Pode acontecer nos próximos meses.

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