“Meu chefe tem reclamado do meu cabelo de quarentena”

Chefe pode questionar a aparência do funcionário na quarentena? (Foto: Getty Images)
Chefe pode questionar a aparência do funcionário na quarentena? (Foto: Getty Images)

Por Natália Eiras (@naeiras)

Não é só de maquininha para raspar o cabelo e de cortes amadores em casa que vive o 'quarentener’. Enquanto há quem chame profissionais para fazer o serviço em casa, muitas pessoas preferem evitar o risco e lidam com o cabelo sem corte. Porém, o look do isolamento social tem criado atritos entre funcionários e chefes durante as videoconferências. 

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Uma das justificativas para se contratar um cabeleireiro à domicílio é a necessidade de estar impecável para as reuniões virtuais. Mas esta nunca foi a prioridade do analista de sistemas Fábio Nogueira, 23.

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O rapaz, que mora sozinho, não queria se aventurar a cortar o cabelo em casa, mas também não queria chamar um profissional. “Achava arriscado demais, mas meu chefe começou a reclamar, a falar que estava descabelado demais”, diz Fábio. As broncas, com cara de piada, começaram a ser frequentes. “Pior que não tinha cabelo o bastante para prendê-lo e usar um chapéu poderia ser mais desrespeitoso”. Por fim, ele acabou sendo demitido por causa da crise causada pela pandemia. “Talvez eu tenha que furar a quarentena para cortar o cabelo e, quem sabe, conseguir um novo emprego.”

A assistente de administração Rosana*, 20, também tem ouvido comentários por conta de seu visual. Ela tem o cabelo naturalmente crespo, mas o alisa. “A raiz dos fios está crescendo e a textura natural tem ficado aparente. Minha chefe já fez alguns comentários sobre se não vou arrumá-lo”, afirma. Os “toques” não são feitos diretamente, mas são persistentes. “Não sei muito bem o que fazer, porque o alisamento é um processo longo e não é feito à domicílio”. 

Já no caso do analista de redes sociais Daniel*, 30, a implicância é uma novidade. “Trabalho em uma agência de comunicação, naturalmente as pessoas são mais despojadas na forma de se vestir e nos cortes de cabelo e barba. Mas meu chefe, que nunca criou caso com isso presencialmente, passou a fazer comentários sobre meu cabelo e o de outras pessoas da equipe durante as videoconferências”, narra.

O analista conta que sofre uma certa pressão para raspar a cabeça. “Ele diz que é possível cortar em casa, que ele mesmo já cortou, e que nosso cabelo está ‘escroto’. O tom é sempre de brincadeira, mas acontece em toda reunião.”

Mas pode isso?

Leonardo Carvalho, advogado trabalhista e sócio do BVA Advogados, diz que o empregador até pode fazer exigências sobre se as questões de aparência envolverem higiene, saúde e segurança de trabalho ou como forma de boa apresentação dos empregados perante clientes e fornecedores. “Porém, tais determinações jamais podem expor o emprego ao ridículo ou constrangê-lo”, diz o especialista. 

Em casos excepcionais, como a quarentena, é preciso que prevaleça o bom senso -- do empregador e do empregado. “O chefe pode exigir que o funcionário se apresente com o uniforme da empresa e com o cabelo penteado nas videoconferências, porém não pode constrangê-lo a cortar o cabelo, posto que os próprios salões de beleza encontram-se fechados. Resumidamente, é preciso coibir os exageros, como por exemplo, participar de videoconferência vestindo pijama ou roupa de academia”, pontua Leonardo Carvalho. 

Caso o chefe passe dos limites, a recomendação é que o empregado converse com o departamento de Recursos Humanos da empresa e exponha o problema. “Pois a questão pode ensejar danos morais por constrangimento e abuso do poder diretivo do empregador”, afirma o advogado. Se o funcionário estiver se apresentando de maneira inadequada, é recomendado que a empresa, por sua vez, converse com ele antes de tomar qualquer medida mais definitiva. 

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