A moda traz de volta a ancestralidade e acende a autoestima do povo preto

Quebrada Brands: eu visto a cara da minha quebrada!

Mariana Prudêncio/Yahoo Notícias
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Por Thais Siqueira*

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Durante boa parte dos anos 90, muitos moradores e moradoras das periferias para conseguir ingressar no mercado de trabalho escondiam sobre o lugar onde moravam ou pegavam comprovantes de endereço emprestado para garantir uma vaga num processo seletivo.

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O motivo: a falta de pertencimento e orgulho da sua quebrada, pelo fato do cotidiano do bairro ser composto por notícias de violência, vulnerabilidades e desigualdades.

A partir do ano 2000, esse cenário começa a ter um sinal de mudança, afinal é neste momento que iniciativas de empreendedorismo cultural enraizadas em diversos pilares da Cultura Periférica, como o Hip Hop, Futebol de Várzea, Literatura, Música, entre outros passam a transformam a cara da quebrada.

Mariana Prudêncio/Yahoo Notícias
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Além de revelar artistas que hoje são referências em seus territórios, assim como no Brasil e no mundo, esse movimento cultural existente nas periferias também originou o surgimento das marcas da quebrada, grifes que ostentam o nome de um bairro, times de futebol, rodas de samba, grupos de rap, coletivos, regiões ou locais específicos das periferias que são referências para os moradores e que muitas vezes não tem o mesmo nome na divisão geográfica da cidade de São Paulo.

Essa mudança de repertório de consumo das periferias acompanha o reconhecimento da identidade e representatividade negra e periférica, que vem crescendo cada vez mais e se tornando um orgulho para os moradores desses territórios, dando origem a um cenário distinto dos anos 90.

Seja por meio da aceitação ou da descoberta do cabelo crespo, enrolado e black power ou do orgulho da nossa negritude, a autoestima está tomando o lugar de toda negatividade e preconceito que impacta a vida do povo preto e periférico. Como diz a letra da música "Ponta de Lança" do rapper Rincon Sapiência: "Pretas e Pretos estão se amando".

Mas do que uma marca, a periferia busca uma identidade pessoal nas roupas que vestem. Com isso, surgiram novas marcas desenvolvidas por estilistas negros e periféricos, empreendedores que são moradores dos territórios das periferias e que inovaram o cenário da moda dentro das suas quebradas.

Neste celeiro do que podemos chamar de Quebrada Brands, também estão inseridas às marcas de bonés e roupas de rodas de samba, grupos de rap, saraus e coletivos culturais espalhados nas periferias.

Marcas como Vila Fundão,  Dona Vera, São Mateus em Movimento, Á Cúpula Negredo, GrajaSul, Deeanto, Á Firma e 1 da Sul são algumas de muitas marcas que estão fazendo sucesso, assim como também, marcas do universo da várzea como Inajar de Souza, Vila Izabel, Nove de Julho, Ratata, Jardim Elba e a marca da DLDC. Todas citadas destacam os valores e códigos dos territórios periféricos e vem ganhando cada vez mais espaço e tomando o lugar de grifes e marcas nacionais e  importadas. 

Mas qual é o impacto desse contexto que mescla moda, consumo e identidade no mercado? A rota do consumo de roupas mudou. Se antes os moradores cruzavam a cidade para comprar em lojas das regiões centrais de São Paulo, como 25 de março ou Brás, hoje, esse ato de comprar se dá nas beiras de campo ou numa loja ambulante que vai de sarau em sarau ou que está localizado no centro da favela, nas proximidades de iniciativas culturais que transformam a vida dos moradores.

A jornalista Tatiana Ivanovici, que faleceu em 2015, e foi a criadora da agência de comunicação e portal de notícias Rede DoLadoDeCá e da marca DLDC, chamou esse movimento de “Quebrada Brands”, numa alusão ao formato corporativo e marketeiro de pensar o valor de uma marca. O fato é que cada iniciativa que transforma o seu bairro ganha cada vez mais relevância para comercializar seus produtos e vestuário nos territórios periféricos e já vêm ganhando projeção e desejo de consumo de pessoas que não são moradoras das periferias.

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