Melanina: das batidas das festas surge o empoderamento do povo preto

Mariana Prudência/Yahoo Notícias
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Seguindo os bailes

Por Renata Prado

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Em toda sua existência, o povo negro sempre foi festeiro. Seja na África, seja na diáspora, quando o assunto é fazer festa a comunidade negra se dedica como ninguém. Para o povo negro, a confraternização serve para comemorar o nascimento de crianças, para realizar ritual de passagem (morte), encontros beneficentes, enlace matrimonial, aniversário, ritual religioso, entre tantos outros motivos. 

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Festas não servem somente para confraternizar momentos importantes. O povo negro encara as manifestações festivas como algo que se resume em comungar a existência e resistência da raça negra, pois foram séculos e séculos de opressão e os encontros festivos sempre serviram de refúgio. 

Na época da escravização o povo negro sempre dava um jeito de realizar festas em suas senzalas e esses encontros tinham como propósito anestesiar as dores do açoite. Em África, grande parte das festas tem relação com a religiosidade e esses encontros têm o propósito de celebrar seus respectivos Deuses com muita dança, transmitindo alegria e felicidade. Além das grandiosas festas religiosas, a juventude Africana se organiza muito bem quando o assunto é dança. No continente Africano existem centenas de danças, umas delas são: Kuduro, Afrohouse, Gumboot, Kizomba, Semba, Rebita entre tantas outras. Essas manifestações festivas promovem encontros entre artistas com intuito de aprimorar suas respectivas habilidades corporais, além de possibilitar momentos de alegria e celebração da  vida. 

Saindo do continente Africano, em meados dos anos 60/70 surgiu um movimento no norte da américa que influenciou o mundo inteiro. Estamos falando do movimento Black: movimento sociocultural que teve o propósito de celebrar a cultura negra desde estética, dança, música, comportamento, etc. Além da finalidade cultural, o movimento Black deriva de uma proposta política que teve como objetivo conscientizar os negros de sua negritude, criando espaços de empoderamento e formação política. 

O movimento Black surgiu no momento que jovens negros dos EUA se organizaram em suas respectivas comunidades com o propósito de realizar bailes, destacando a musicalidade do gênero Soul, Jazz, Hip-Hop e Funk! O movimento Black foi influenciado por grandes líderes negros, dentre eles Malcolm X, Martin Luther King, James Brown, entre tantas outras referências que discursavam a favor da humanização de pessoas afrodescendentes. O movimento Black foi extremamente importante na luta antirracista que os EUA enfrentava na época, pois muitas pessoas passaram a compreender o cenário político racial a partir da existência de bailes que o movimento Black organizava. A união de jovens negros que se agruparam a partir de um movimento cultural resulta em um simbólico ato político emancipador que busca influenciar a juventude negra a repensar sua negritude, seus símbolos, sua condição social e seu posicionamento a partir de encontros culturais onde a proposta inicial é apenas se divertir.

O movimento black norte-americano não demorou para chegar em terras brasileiras e influenciar a juventude negra da época com suas roupas coloridas, seus cabelos crespos, suas danças coreografadas e sua identidade política. Nas décadas de 70/80 o modelo de baile black norte-americano chegou nos morros do Rio de Janeiro com toda a força e esse movimento festivo colaborou com a revelação de artistas como Tim Maia, Jorge Ben, Sandra de Sá, Tony Tornado, Cassiano, Hyldon, a banda Black Rio, entre outros. 

Quando o assunto é movimento musical brasileiro, não podemos deixar de falar do Samba, música oriunda do Rio de Janeiro que criou um modo de festa totalmente autêntico que ficou conhecido por “roda de samba”. O Samba é um gênero musical tão legítimo do Brasil que o nosso país ficou rotulado no mundo inteiro como “o país do samba, do carnaval e do futebol”, fazendo do Samba um “cartão-postal musical” do Brasil. 

 Considerando o circuito cultural festivo que foi diretamente influenciado pelo movimento black, nos anos 80 e 90, o Hip-Hop e o Funk Carioca foram os responsáveis por abalar as estruturas da sociedade brasileira com muita festa e badalação. 

Na década de 80 o centro da cidade de São Paulo se tornou palco dos maiores encontros festivos da cultura Hip-Hop, fazendo do Rap um porta-voz da conscientização social e racial da juventude paulistana. Já em terras cariocas, no começo da década de 90, o Funk americano passou por uma metamorfose musical que deu origem ao Funk Carioca, ritmo que transformou radicalmente a juventude brasileira. Quando o assunto é ocupar as ruas com intuito de celebrar a cultura urbana brasileira, a juventude do Funk faz isso como ninguém. Assim como o Samba, o Funk Carioca é reconhecido pelo o mundo inteiro como patrimônio cultural brasileiro e atualmente representa a inovação musical brasileira no mercado fonográfico mundial. 

A Black Music, o Samba, o Hip-Hop, o Funk Carioca, entre tantas outras manifestações musicais são responsáveis por abalar as estruturas corporais de boa parte da juventude brasileira. Além dos gêneros citados, não podemos esquecer do Reggae, do Dancehall, Samba-Rock, do Forró, do Pagodão Baiano, do Sertanejo, e de tantos outros ritmos músicas que estimula a juventude brasileira a ocupar determinados espaços sociais com muita festa, regada de boas músicas e muita alegria. 

Em qualquer lugar do mundo, música e festa são coisas inseparáveis. Não faz sentido falar de festa sem antes falar de música, não é possível falar de festa sem falar de alegria. Independente da  classe social, o propósito da festa é fazer as pessoas comungarem a felicidade, seja em um ritual de passagem ou seja em um baile pra geral dançar a noite toda. Festa é alegria, é dança, é encontro de tribos, é música, é manifestação, é resistência, é identidade. Seja na rua ou no rooftoop, a festa representa uma cultura, um lifestyle, além de ser um ato a celebração da vida. Observando a organização cultural urbana atual, é importante ressaltar que essa galera vem conservando os princípios fundamentais de um bom baile: ocupação de espaços urbanos para promover o pertencimento, representatividade, resistência e permanência.  

Sejamos todos festeiros. Se nada na sua vida estiver dando certo, siga o baile mais próximo de onde você estiver e seja feliz! 

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