Barba, cabelo e… autoestima! Como a barbearia empodera pretos pelo Brasil

Mariana Prudência/Yahoo Notícias
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Cabelo, identidade e estilo nas periferias de SP

Lúcia Udemezue 

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Atualmente os cabelos crespos têm conquistado espaço no mercado de cosméticos e também na publicidade, reflexo das históricas reivindicações populares por representatividade e diversidade na mídia. Diversos movimentos foram importantes nessa trajetória, como a Marcha do Orgulho Crespo e as ações de arte educação do coletivo Manifesto Crespo. 

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O assunto tem ganhado cada vez mais espaço nas redes sociais e é tema oficial de muitas blogueiras que são fonte de inspiração e informação sobre como tratar os cabelos crespos e cacheados. Esse momento tem incentivado muitas pessoas na transição capilar - onde se abandona o processo químico de alisamento para o crescimento de fios naturais, restaurando assim a saúde dos cabelos e a autoestima de conhecer o próprio cabelo e valorizá-lo na sua forma natural. 

Com essa nova premissa, é possível inovar o estilo com penteados criativos e cuidados ancestrais, - aquelas receitinhas ótimas caseiras do tempo da vovó -  através de óleos e outros produtos naturais. 

Cabelo também é expressão de moda e identidade nas periferias de SP

Historicamente a região central de São Paulo abriga a maior parcela de salões de cabeleireiros especializados no que costumam chamar de “cabelos afro”, principalmente na Galeria Presidente e no famoso Shopping Center Grandes Galerias, hoje chamado de Galeria do Rock. O nome do espaço é inclusive um apagamento histórico da cultura negra que ali se firmou nos anos 70 e 80, com os cortes de cabelos “Black Power”.  

Independente do nome, para quem circula pelo espaço, ainda hoje é possível encontrar trancistas brasileiras, angolanas, nigerianas e de outros países africanos que oferecem diversas possibilidades de penteados, cortes, tranças e dreads.

Falar de beleza e criatividade é também ressaltar o vasto universo de tipos de cabelos e penteados que a periferia de São Paulo possui. Lá também é possível encontrar muitos salões de beleza especializados nos mais diversos tipos de cabelos e cada vez mais os cabelos crespos e cacheados tem ganhado visibilidade, junto com as famosas barbearias que atraem um público interessado em fazer cortes, tinturas e penteados especiais, o chamado corte “na régua”.

Nesta grande e importante onda pela busca de identidade e representatividade, uma nova geração periférica cheia de estilo e ligada a uma moda autoral fortalece sua auto-estima também através do resgate da estética afro diaspórica, no uso de dreads, naturais ou de lã coloridos e no uso de turbantes.

Conseguir amar e valorizar o próprio corpo e sua própria imagem é um grande passo para uma saúde mental para a população negra. Crianças que tem acesso nas escolas à história da cultura afrobrasileira com figuras e ilustrações que as representam conseguem enfrentar o racismo na infância e começam a entender que seu cabelo não é "feio", "ruim" e "duro", mas que seu cabelo é uma fonte de inúmeros penteados incríveis e que é bonito e saudável como qualquer outro. 

Essa mudança de imaginário sobre o cabelo crespo é fundamental para que a população negra tenha sua identidade fortalecida e que possa superar os tabus do mercado de trabalho e da mídia que ano após ano tem dado espaço para a diversidade de corpos e imagens. Essa alteração é necessária para homens e mulheres com cabelo crespo terem produtos especializados para o cuidado e a oferta de salões de cabeleireiros que acolham esse cabelo natural. 

Além do fomento da economia local com a diversidade de espaços de beleza, o convívio nestes ambientes também proporcionam a troca de conhecimentos e dicas sobre auto-cuidado, isso tudo muitas vezes regado a muita música.

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