Médicos de hospitais em SP falam de falta de transparência e possível 2ª onda assusta

João de Mari
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Patients and Doctors at the Field Hospital of the Federal University of ABC, in Santo André, metropolitan region of São Paulo, Brazil on Wednesday, September 9, 2020. Death curve caused by Covid-19 has been falling in the state. (Photo: Bruno Rocha/Fotoarena/Sipa USA)(Sipa via AP Images)
Pacientes e Médicos do Hospital de Campanha da Universidade Federal do ABC, em Santo André, região metropolitana de São Paulo, Brasil na quarta-feira, 9 de setembro de 2020 (Foto: Bruno Rocha/Fotoarena/Sipa USA)

Médicos que atuam em hospitais públicos de São Paulo alegam não ter acesso aos dados sobre pacientes com coronavírus. A falta de transparência dificultaria prever um possível salto nos casos de internação pela doença — assim como registrado essa semana em unidades privadas — e, por consequência, o preparo dos profissionais para uma segunda onda de infecções.

A infectologista Juliana Salles, dirigente do Simesp (Sindicato dos Médicos de São Paulo) e que atua na linha de frente em hospitais públicos e privados da cidade, afirma ter notado aumento de atendimentos de pacientes com sintomas leve do coronavírus nas últimas semanas. Mas, segundo ela, não ter dados oficiais por parte das administrações dos hospitais causa “incerteza” para os profissionais.

“Não ter números gera uma insegurança, uma incerteza de que no momento seguinte podemos voltar a situação de dificuldade de leitos de internação. A sensação é de que estou atendendo muitos pacientes assintomático leves, mas se o vírus está circulando e, mesmo que se apresente de maneira leve, pode aumentar os casos de internação”, avalia.

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De acordo com a infectologista, o aumento no atendimento de pacientes com sintomas da Covid-19 foi sentido no Hospital das Clínicas, Hospital Emílio Ribas e em hospitais mais periféricos, como o Hospital Municipal Dr. Arthur Ribeiro de Saboya, na Zona Sul da cidade e o Hospital Municipal Dr. Alexandre Zaio.

Fontes ligadas a hospitais públicos de São Paulo confirmam a informação. O infectologista Eder Gatti, que atende no Hospital Emílio Ribas, afirma que sua equipe percebeu a chegada de novos pacientes com sintomas da Covid-19. “No meu plantão, percebemos aumento sim”, diz.

Outras três pessoas ouvidas pela reportagem falam que sentiram o aumento, mas que “nada comparado ao pico da doença” e não se identificaram pois “não se sentem confortáveis para falar, porque é uma percepção de quem atende no plantão, mas não tem dados como base”.

Apagão de dados

Os dados disponibilizados pela Prefeitura de São Paulo não mostram o aumento relatado pelos médicos. Porém, os números apresentados para consulta no site do Sead (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados), base oficial para dados sobre a Covid-19 em São Paulo, foram atualizados no dia 3 de novembro de 2020 com informações do mês passado — ou seja, esse número pode aumentar.

No Hospital Emílio Ribas, por exemplo, não há neste mês registros de internações por qualquer tipo de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) — a Covid-19 é uma das classificações da SRAG. Especialistas dizem que muitos casos de coronavírus são subnotificado, por falta de testes, e acabam entrando nas estatísticas da SRAG. No mês passado foram 27; em setembro 44. A Prefeitura considera como “internado” o paciente que passou mais de 24 horas no hospital.

No mesmo site, o Hospital das Clínicas, referência no atendimento de casos de Covid-19, também ainda não contabilizou os casos de internações de novembro. Em outubro foram 76 internações e em setembro, 85.

Embora os profissionais que atuam na linha de frente sintam que os casos de Covid-19 estejam voltando aos hospitais, há ainda uma grande dificuldade em mensurar o real problema devido ao “apagão de dados”.

O estado de São Paulo passou cinco dias sem divulgar o balanço de casos e de mortes da Covid-19 por causa de um problema no site do Ministério da Saúde e só voltou a atualizar o balanço diário da evolução da doença nesta quarta-feira (11).

Segunda onda

Na última semana, no entanto, a ferramenta Info Tracker, do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria, desenvolvida por professores da USP e Unesp, vem chamando atenção para um salto nos casos suspeitos de Covid-19. Segundo especialistas que estão monitorando 92 municípios (cidades que têm uma representatividade de 90% no número de óbitos por Covid no estado de SP) desde o início da pandemia, os casos suspeitos registraram crescimento na Grande São Paulo e na capital entre agosto e novembro.

Especialistas da área da saúde e cientistas chamam atenção para uma possível segunda onda da doença, assim como ocorreu na Europa. Nesta semana, reportagem da Folha de S. Paulo mostrou que hospitais privados de São Paulo voltaram a registrar aumento preocupante no número de internações por Covid-19.

O Hospital Sírio-Libanês, que teve picos de até 120 internações em abril, viu o número cair para 80 em outubro e agora subir outra vez para 120. Do total de doentes, 50 estão em UTI.

O Hospital do Coração (HCor) registrou 36 internações entre 1 e 10 de novembro, em um ritmo que pode superar o total de 67 hospitalizações em outubro e 82 em setembro. No mês passado, as internações em UTI no HCor foram cinco. Nos dez primeiros dias de novembro, já são sete.

No Hospital Israelita Albert Einstein, a média de internações por covid-19 em abril foi de 111 hospitalizações e, até o dia 9 de novembro, a média para este mês já é de 55 internações.

Medidas de controle do vírus

Mas a infectologista Salles diz que antes de pensar em uma nova onde de infecções é preciso reforças as medidas de controle do vírus, pois ainda “não saímos sequer da primeira onda”.

“A gente não saiu da primeira onda ainda. Diferente de outros países, a gente teve um platô e não uma diminuição. Estamos numa constante de casos e de mortes por coronavírus”, relata Salles.

Para Salles, o aumento de casos em hospitais privados reflete o atendimento das pessoas de classes ricas da cidade atrelado à volta das atividades econômicas e até das escolas particulares.

“No começo da pandemia fizeram home office, ficaram com as crianças em casa. Agora com a liberação de escolas privadas e a voltar às atividade pode ter influenciado para que essas classes comecem a ter a doença. Antes eles [as classes mais altas] tinham menor prevalência da Covid-19”, avalia.

A infectologista chama atenção para a importância da política de testagem e rastreio. “Mesmo com os postos de saúde tendo condições de fazer testes, a gente não faz. O município, governo estadual e federal não deram condições para fazermos os testes”.

Outro lado

A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), informou que a taxa de ocupação de UTI Covid-19 de todos os hospitais municipais está em 31% (11/11). Todos têm vagas disponíveis para enfermaria e UTI. O órgão esclarece ainda que, em abril de 2020, a taxa de ocupação das UTIs destinadas aos pacientes com Covid-19 no município era de 56%, enquanto em maio foi de 92%, em junho, de 59%, em agosto, 43%, em setembro, 42% e, em outubro, 35%. A redução nas taxas de ocupação em todas as unidades de Saúde da rede municipal se deu por maior controle da doença e ações assertivas no enfrentamento da pandemia na cidade de São Paulo.

Embora o site do Sead mostre os dados sobre internados nos últimos meses, a reportagem buscou o Hospital Emílio Ribas para confirmar a informação. Mas não teve resposta até a publicação.