Kylian Mbappé e a era dos prodígios milionários

Felipe Portes
Foto: AP

Kylian Mbappé tem 18 anos e já é um fenômeno no Monaco. Em sua segunda temporada como profissional, mostrou enorme habilidade, versatilidade e faro de gols. Autor de 23 tentos somando Ligue 1, Liga dos Campeões e Copas nacionais, o jovem não deve ficar muito tempo no clube. E é com a ajuda dele que os monegascos voltaram a sonhar com grandes títulos.

A arrancada para a liderança no Francês (o Monaco tem o melhor ataque das cinco principais ligas) e o desempenho arrasador na Champions fizeram de Mbappé um talento cobiçado pelos gigantes. Não só pelos gols, mas pela participação decisiva nos jogos da equipe. Bem explorado por Leonardo Jardim, Kylian está muito valorizado e já ultrapassa a barreira dos 50 milhões de euros. Jornais franceses noticiam o interesse do Paris Saint-Germain no atacante e a proposta deve alcançar os 90 milhões. Quem vale tanto assim atualmente?

Nem mesmo Pogba, que saiu da Juventus e assinou com o Manchester United por 105 milhões de euros conseguiu responder à altura de seu preço. Essa supervalorização de atletas muito novos é extremamente prejudicial para uma carreira. Além de inflacionar o mercado como um todo, a expectativa que se cria em torno destes meninos é absurda, é como se estivéssemos esperando um novo Pelé, um novo Ronaldinho. Histórias que não vão se repetir.

Mbappé é um resumo da era em que poucos jogos e gols podem transformar um Zé Ninguém em um candidato a Novo Messi. E é difícil conseguir separar uma boa temporada de um talento irresistível que fará história no esporte. Fato é que a trajetória do francês é tão meteórica que preocupa. Ele ficou famoso mesmo na segunda metade desta temporada. Antes disso, apenas quem acompanhava o Francês sabia de suas qualidades.

Desde então, Mbappé evoluiu demais e passou a desequilibrar em campo. Era natural que gigantes entrassem em cena para assediá-lo. Além do PSG, Real Madrid e Barça despontam como candidatos a tirar o atleta do estádio Louis II. É mais um prodígio que terá vida curta no clube formador. Simplesmente porque mais do que nunca, o dinheiro fala mais alto do que qualquer outro valor. Não que seja o caso de Kylian, mas quantos outros meninos não iniciam suas vidas no profissional já com a cabeça em milhões de euros, transferências astronômicas contratos lucrativos com gigantes do esporte?

Real Madrid e Barcelona são atraentes para qualquer jogador. Por que não seriam para Mbappé, um dos jovens talentos emergentes que mais brilham neste ano? O título francês e a boa campanha na Liga dos Campeões são um bom começo, mas ele ainda precisa fazer muito para se provar como um atleta fora de classe. Em outro cenário, outro momento, com mais pressão, ele se daria tão bem?

É muito difícil chegar causando tanto impacto. Mbappé tem sorte e capacidade para fazer este barulho justamente quando o Monaco está em evidência. O principal empurrão para jogar muito ele já tem. Nunca foi tão apropriado para um garoto se estabelecer como profissional com tamanha atenção. Existe um nicho destinado a tratar estas promessas como astros insuperáveis, já dando como certo que eles tracem um caminho glorioso. Vídeos, especulações e presença na mídia fazem toda a diferença nesse contexto. Entretanto, craques como Neymar e Messi continuam sendo exceções.

Pelo que já foi apresentado, colocar Mbappé como a grande revelação do Monaco desde Henry e Trezeguet não é mais exagero. Mas há que se ter calma na forma como ele conduz sua carreira. O ideal seria ficar mais alguns anos no Monaco, se preparar, evoluir e entender o futebol como ele realmente é. Querer tudo de uma vez antes mesmo de fazer 20 anos é ir com muita sede ao pote.

Não ter o espaço que encontra no Monaco em outro clube pode acabar com o encanto de Mbappé, que neste exato momento pode escolher onde vai jogar no futuro. Poucos garotos da sua idade desfrutam deste prestígio. Por isso mesmo é que o seu amadurecimento precisa ser cuidadoso. Cada vez mais cedo os jogadores ficam milionários. E há um problema gravíssimo implícito nisso: não é mais questão de aprendizado, disciplina, respeito ou jogo coletivo. Quase sempre a prioridade é ser protagonista. O futebol moderno fomentou egos enormes e já está sendo muito difícil lidar com eles.