Maya Gabeira sobre surfe de ondas gigantes: “Homem é visto como herói por se expor a riscos. Nós ouvimos que estamos no lugar errado”

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Maya Gabeira. (Foto: FRANCISCO LEONG/AFP via Getty Images)
Maya Gabeira. (Foto: FRANCISCO LEONG/AFP via Getty Images)

Por Stephanie Calazans

Maya Gabeira é carioca, tem 32 anos e não só ama surfar – ondas gigantes – como é uma referência na modalidade e coleciona títulos pelo mundo. A surfista se consagrou como a primeira mulher a surfar no mar do Alasca, em 2008, venceu o ESPY Awards em 2009 (sendo considerada a Melhor Atleta de esportes de ação), quebrou, em 2018, o recorde mundial de maior onda surfada por uma mulher (com 20,72m de comprimento) e conquistou nada menos que o pentacampeonato do Billabong XXL Global Big Wave Awards (o prêmio mais disputado e renomado entre os surfistas de ondas gigantes).

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Maya começou sua trajetória no mar aos 14 anos e, aos 15, já estava competindo. A troca do surfe tradicional pelo de ondas gigantes veio aos 17 anos, quando ela se mudou para o Havaí, conheceu e se apaixonou por esse novo estilo. Mas o caminho percorrido pela brasileira também foi marcado por dois graves acidentes que quase tiraram a sua vida: em 2011, em Teahupoo, Tahiti, e em 2013, em Nazaré, Portugal. Os acidentes, porém, não fizeram a surfista pensar em desistir, pelo contrário: serviram de impulso para a brasileira que, inclusive, ouviu diversos comentários machistas sobre o acontecido.

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“Já sofri preconceito diversas vezes. Um caso clássico é quando você se acidenta. Nos meus perrengues dentro d’água, escutei que ali não era o tipo de lugar onde eu, uma mulher, deveria estar”, conta. “As pessoas se punham a contestar se eu realmente tinha condições de aguentar aquilo. Curiosamente, os homens recebem comentários totalmente diferentes quando sofrem um acidente. Eles são vistos como heróis, admirados por estarem se expondo a riscos. Não sofrem críticas por estarem ali”.

Em 2011 a big rider entrou insegura no mar de Teahupoo e isso refletiu no seu desempenho. Ela caiu enquanto estava surfando uma onda de proporções gigantescas e foi atingida por mais cinco ondas na sequência, enquanto era puxada e arrastada pela correnteza. Mas, como não chegou a desmaiar, Maya conseguiu controlar a respiração até ser resgatada consciente e com vida.

Como lição, a brasileira passou a treinar técnicas de apneia (que consistem em otimizar o tempo do atleta sem ar, embaixo d’água) o que não só aumentou sua autoconfiança, como foi de extrema importância dois anos depois, em 2013, quando Maya voltou a sofrer um acidente, dessa vez nas águas de Portugal.

Ao tentar bater o recorde e surfar uma onda de mais de 20 metros de altura (o equivalente a um prédio de sete andares), a carioca novamente viu sua vida em risco. Ela caiu, sofreu diversas lesões (inclusive quebrou o tornozelo) e foi retirada do mar por Carlos Burle, desacordada e inconsciente. 

Ao contrário do que muita gente faria, entretanto, Maya afirma que nunca pensou em desistir. Até porque, ela mesma já afirmou diversas vezes que sempre esteve muito ciente dos riscos que a profissão oferecia – e sempre esteve disposta a enfrentá-los.

“Eu não pensei em desistir do surfe, mas passei a pensar que poderia não ser possível realizar o meu sonho. Depois do acidente, eu não quis mais me prender ao meu objetivo do recorde. Eu estava fazendo o possível para melhorar, mas não podia exigir uma coisa que talvez não fosse possível, em consequência das minhas condições e limitações físicas (minha coluna), além das limitações psicológicas. Foi um longo processo para eu voltar a pensar em bater o recorde”, declara.

“Eu vivi uma experiência muito forte em Nazaré, em 2013, e tive que superar muitas coisas, traumas, lesões, isso fez com que eu mudasse como pessoa. Foram anos de batalha e só o aprimoramento e conhecimento que pude adquirir nesses anos que me trouxeram a confiança necessária para tentar novamente”. 

E foi assim que, sem desistir e sem se abalar pelas críticas e comentários machistas que questionavam sua capacidade, Maya conseguiu se reerguer, se fortalecer e, enfim, bater o tão sonhado recorde, no mesmo local em que sofreu o acidente de 2013, cinco anos depois. 

“O medo e o respeito que tenho pelas ondas fazem com que eu me prepare diariamente para exercer o meu esporte com mais segurança. A recuperação após o acidente foi baseada em evoluir de acordo com o possível e com as minhas limitações. O longo período em que estive afastada foi o que mais me ajudou a me aperfeiçoar, porque fui evoluindo em várias esferas, como pessoa, como atleta, a minha segurança e minha performance. E toda segurança vem disso, de você saber que está preparado e tem todas as ferramentas para lidar com as situações adversas, para performar e sobreviver”, afirma.

Maya, que entrou para o surfe tendo como uma de suas principais motivações mostrar aos homens que era tão ou mais competente que eles, não só cumpriu seus objetivos e colecionou títulos, recordes e feitos inéditos, como também tornou-se referência e porta de entrada do esporte para diversas outras mulheres. A big rider inclusive foi homenageada e ganhou a sua versão da Barbie, na coleção de mulheres inspiradoras.

“Quero cada vez mais influenciar meninas a seguirem seus sonhos e abrirem suas mentes, para acreditarem nas profissões que são pouco procuradas pelo sexo feminino”, conclui.

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