Tudo tem volta

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Foto: Getty Images
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Voltei para o Yahoo!

Não é só a exclamação usual e corporativa. É alegria imensa de voltar para uma casa onde já escrevi textos antes de serem blogs. Onde já fiz vlogs antes de serem um nome que eu não sei agora como chama. Onde já fiz muita coisa. Não apenas como comentarista esportivo: como usuário, como cidadão.

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O melhor do Yahoo! é isso. Democratizar o acesso à informação. Ampliar o debate, não o embate. Trocar ideais, e não likes. Buscar infos e não caçar cliques.

O meu interesse não é polemizar. É comentar baseado em informação com o molho da paixão. Buscar a melhor versão possível dos fatos, com o máximo possível de independência, imparcialidade e aquela palavrinha que hoje virou algo errado: “isenção”.

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O mundo anda mesmo doente. A virtude não está no meio, mas na maior distância possível dos extremos, à minha esquerda e à direita deles. O jornalista tem que subir mesmo em cima do muro para tentar ser o mais plural possível. Tentar enxergar os vários lados da questão. E da bola.

Vamos bater muita por aqui. Futebol é a mais perfeita imperfeição criada pelo ser humano. Melhor metáfora para tudo. Melhor papo para sempre.

Quem vive de passado não é museu. Quem vive de passado é quem história. Aqui também vamos lembrar quem nos trouxe até aqui. Quem nos leva adiante também por sempre estar atrás, abaixo e acima de tudo. Nossa paixão infantil. Como escreve Luis Fernando Verissimo, “não existe uma maneira adulta de torcer pelo seu time”.

Nasci amando meu time que me fez amar o futebol. E quem o ama venera o Brasil de 1970. A melhor seleção de todos os tempos que, no próximo domingo, completará 50 anos da conquista definitiva da Jules Rimet. Aquela taça que depois seria derretida aqui no Brasil-il-il...

Hoje reconto minha história no Yahoo! começando com cinco tricampeões que vão me responder a uma questão básica do Mundial no México: o que mudou do time de João Saldanha (demitido em 17 de março de 1970) para o de Zagallo (que começou a trabalhar em 18 de março)?

Tostão na final contra a Itália. Foto: Peter Robinson/EMPICS via Getty Images
Tostão na final contra a Itália. Foto: Peter Robinson/EMPICS via Getty Images

Fala Tostão. Camisa 9 no México, titular absoluto e artilheiro do Brasil nas Eliminatórias em 1969, contra as frágeis Venezuela, Colômbia e Paraguai: “Zagallo fez mudanças bem pontuais. Quando ele assumiu, deixou claro que eu seria reserva do Pelé, porque eu jogava na mesma posição dele. Ele preferia um centroavante clássico no time, tanto que ele já chegou convocando o Roberto e o Dario. Depois mudou tudo e acabei titular em toda a Copa. Jogando de uma maneira diferente daquela em que eu atuava no Cruzeiro, e também diferente do modo como o Saldanha vinha me usando na Seleção. Ele queria um centroavante se movimentando mais à frente, dando opção de jogo ao Pelé, e nunca voltando tanto para pegar a bola. Eu procurei me adaptar àquilo que o Zagallo queria. A outra mudança mais tática e importante foi a troca do 4-2-4 do Saldanha para o 4-3-3 que o Zagallo gostava de jogar desde a época de atleta. Antes nós tínhamos o Jairzinho e o Edu bem abertos pelas pontas, eu e o Pelé na frente, pelo meio. Ele dizia textualmente que se o Brasil fosse pra Copa desse jeito não ganharíamos, que a gente só ganharia o Mundial se tivesse três homens no meio marcando... Não sei se a coisa é assim tão drástica. Tão definitiva. Mas ele acabou tirando o Edu da ponta-esquerda e fixou pra Copa o Rivellino no meio-campo, ao lado do Clodoaldo e do Gérson. Mas mais importante do que isso, o que o Zagallo fez de revolucionário mesmo para aquela época no futebol brasileiro foi obrigar que todo o time marcasse sem a bola, quando a equipe a perdesse. O time marcava mais atrás, fechava os espaços, e saía rápido para o contra-ataque quando a recuperasse. Isso não era comum no Brasil. As nossas equipes eram mais espaçadas, havia muita distância entre a defesa, o meio e o ataque. Zagallo fez um time mais compacto. Ele era um técnico excepcional na estratégia. Teve muitos méritos na conquista, o time se organizou muito bem. O que não quer dizer que só ganharia a Copa do jeito que ele montou a Seleção.

Chute de Gerson na final contra a Itália. Foto: Peter Robinson - PA Images via Getty Images
Chute de Gerson na final contra a Itália. Foto: Peter Robinson - PA Images via Getty Images

Fala Gérson, camisa 8 no México, titular absoluto tanto com Saldanha tanto com Zagallo: “o que houve na mudança entre os treinadores foi também uma mudança no time, no sistema, no esquema tático. O Saldanha gostava de ponta na frente, no ataque, bem abertos, como o Jairzinho e o Edu. O Zagallo gostava do ponta mais atrás, fechando o meio, como a gente sempre jogou com ele como treinador do Botafogo, bicampeão carioca em 1967-68. O Paulo César Caju fazia isso muito bem. Na Seleção, o Zagallo tentou adaptar o Rivellino aí. O Saldanha tentou fazer o Riva jogar mais à frente, no lugar do Tostão, por causa do problema na vista. Quando o Zagallo chegou, ele depois explicou pro Rivellino que ele não o queria de ponta, aberto, como jogava pra caramba o Edu. O que o Zagallo queria do Rivellino é que ele às vezes abrisse pela esquerda, mas armasse mais por dentro, e ainda desse o combate no meio para ajudar o Clodoaldo e o Gérson. ‘Quero você também mais por dentro, na meia, encostando no Tostão e também com o Pelé. Quero você também mais ali pela entrada da área, que você chuta forte. Os caras vão jogar contra o Brasil fechando toda a frente da área. Vai ser importante você chutando forte de fora’. O Rivellino treinou, se adaptou, e ficou no time. O Zagallo trocou o esquema sem alterar muita coisa. Também na quarta-zaga. O Piazza era volante, mas podia jogar de zagueiro. O Zagallo gostava de jogador que fizesse duas funções. Num treinamento no Maracanã, o Fontana e o Joel não podiam jogar. Daí o Zagallo colocou o Piazza ali atrás. Ele acabou com o jogo. A mesma história na partida seguinte. Quando terminou esse treino, falei pra ele: ´você arrumou uma história pra você, cavou um lugar no time’. Falei o mesmo pro Zagallo. E o Piazza acabou titular na Copa. De fato, o Zagallo não alterou o nosso esquema. Ele fez variações em torno desse esquema. Isso é só pra quem conhece o futebol mesmo. E o Zagallo conhece pra caramba. É um excepcional treinador”!

Rivellino fez ótima Copa. Foto: Peter Robinson/EMPICS via Getty Images
Rivellino fez ótima Copa. Foto: Peter Robinson/EMPICS via Getty Images

Fala Rivellino, camisa 11 no México, reserva de Pelé ou de Gérson com Saldanha, titular com Zagallo apenas um mês antes da Copa: “o Zagallo mexeu muito no time do Saldanha. A gente jogava com o Jair e o Edu bem abertos nas pontas. O Zagallo fez com nosso time o que ele fez como jogador no bicampeonato do Brasil em 1958 e 1962. O terceiro homem pela esquerda fechando o meio. Ele já era muito criticado como jogador por isso, porque os pontas eram mais agressivos. Todo mundo gostava disso. E ele já como jogador armando mais atrás, combatendo e fechando espaços, era mesmo muito criticado. Ele não abria mão desse esquema. E acabou sobrando para o Edu, que foi o maior ponta-esquerda que eu vi na minha vida e, para mim, o melhor jogador do Brasil nas Eliminatórias [em 1969, com Saldanha]. O Edu saiu do time e eu entrei no lugar dele. Fazendo a função que o próprio Zagallo fazia em 1958 e 1962. Além disso ele também mudou a zaga. Recuou o Piazza para a zaga no lugar do Joel. Depois colocou o Everaldo na lateral no lugar do Marco Antonio. Taticamente, o Zagallo mudou bastante a equipe. E tudo acabou encaixando muito bem”.

Fala Edu, camisa 19 no México, titular nas Eliminatórias em 1969, perdeu a condição de titular com a chegada de Zagallo, em março. Até maio para Paulo César Caju. Depois para Rivellino: “quando o outro treinador chegou no lugar de Saldanha, eu sabia que perderia o meu lugar no time. Ele mudou apenas duas peças: saiu o Edu e entrou o Rivellino, saiu o Joel e entrou o Piazza. Com certeza nós seríamos campeões do mundo com o Saldanha. Foi ele quem montou toda a estrutura da equipe. O esquema tático não mudou nada com a chegada do outro treinador. Era mais ou menos igual ao que fazíamos nas Eliminatórias. Em vez de voltar o Edu, quem voltava quando éramos atacados com o Saldanha era o Pelé, no meio-campo. E desse jeito a gente tinha um contra-ataque fortíssimo comigo e com o Jair”.

Jairzinho, o Furacão da Copa. Foto: STAFF/AFP via Getty Images
Jairzinho, o Furacão da Copa. Foto: STAFF/AFP via Getty Images

Fala Jairzinho, o camisa 7, o Furacão da Copa, titular com os dois treinadores – “O que mudou mesmo foi que, com o Saldanha, a gente jogava no 4-2-4 e, com o Zagallo, no 4-3-3. A mudança do Zagallo foi de quase 80%. Quando ele chegou na Seleção trouxe de volta o Félix que não tinha sido convocado mais pelo Saldanha. Os dois zagueiros (Brito e Piazza que acabou improvisado) não eram os mesmos das Eliminatórias. O Everaldo não era titular em 1969 e o Marco Antonio estava jogando com o Saldanha. O Piazza era titular como volante, não o Clodoaldo. O Zagallo me conservou na direita, o Gérson no meio, e o maior de todos, o Pelé. Na frente ele testou o Roberto e o Dario mas acabou jogando o Tostão. Na esquerda ele acabou tirando o Edu e improvisando o Rivellino, como ele tinha improvisado o Piazza na quarta-zaga. A Seleção do Zagallo foi mesmo diferente daquela do Saldanha. Não tem como dizer que foram iguais.

Fala Mauro Beting, que tinha 3 anos em 1970, mas que já assistiu a cada jogo do Brasil no México pelo menos cinco vezes: João Saldanha foi essencial para a montagem do grupo e do espírito vencedor da Seleção de 1970. Mas não tem como negar os méritos e as mexidas táticas de Zagallo.

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