Massacre em Suzano: um ano depois, dia segue sem fim

Yahoo Notícias

Por Yan Boechat

Nesta sexta-feira que marca o aniversário de um ano do massacre de cinco estudantes e duas funcionárias da Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP), Sandra Regina Ramos quer se isolar do mundo. Fez um pacto em casa. Ninguém sairá para trabalhar ou estudar. No máximo, visitar parentes próximos. A televisão permanecerá desligada e a internet desconectada. “Vamos tentar fazer desse um dia normal, por mais anormal que seja”, conta ela, olhos úmidos ao relembrar os momentos de terror que viveu naquele dia 13 de março de 2019.

Sandra se considera  uma mulher de sorte. Seu filho, João Vítor Ramos Lemos, sobreviveu àquele dia. Mas Foi por pouco. Um dos assassinos, surpreendido pela avalanche de adolescentes que tentavam escapar pela porta principal da escola, cravou-lhe uma machadinha no corpo. Por centímetros não acertou seu pescoço. A arma ficou presa ao ombro de Vítor que, sozinho, caminhou em busca de ajuda quase 500 metros até chegar ao hospital em que nascera 18 anos e uma semana antes. “O aniversário dele é no dia 6 de março, agora comemoramos dois nascimentos para ele”, conta Sandra.

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Um dos assassinos, surpreendido pela avalanche de adolescentes que tentavam escapar pela porta principal da escola, cravou uma machadinha nas costas do filho de Sandra (Yan Boechat/Yahoo Notícias)
Um dos assassinos, surpreendido pela avalanche de adolescentes que tentavam escapar pela porta principal da escola, cravou uma machadinha nas costas do filho de Sandra (Yan Boechat/Yahoo Notícias)

Não foi um ano fácil nem para Sandra e nem para Vítor. Fisicamente o jovem rapaz teve sequelas mínimas. Reclama apenas de ter perdido um pouco a força no braço direito. “Mas ele mudou, não é mais o mesmo, mudou o comportamento”, reclama Sandra. Vítor recusou-se a buscar apoio psicológico, abandonou a escola e excitado com os R$ 100 mil que recebeu de indenização do governo do Estado, fugiu de casa. Passou dois anos vivendo com amigos. “Foi um período difícil, mas felizmente as coisas estão melhores, ele percebeu que estava cometendo erros e voltou para a casa”, conta a mãe de Vítor. “Mas tudo mudou, né, é como se aquele dia jamais tivesse acabado, ele sempre está vivo conosco, acho que vamos carregar aquele 13 de março para sempre”.

Passado um ano da tragédia que abalou o a pequena cidade de Suzano, na região metropolitana de São Paulo, e todo o Brasil, o sentimento de Sandra e seu filho parece ser compartilhado por todos aqueles que viveram uma experiência tão intensa como aquela. De uma forma ou de outra, alunos, professores, pais, amigos, vizinhos da Raul Brasil têm tentado encontrar maneiras de esquecer os detalhes daquela manhã de quarta-feira. Todos têm falhado. “Eu decidi que não veria um vídeo sequer, passei esse ano inteiro sem ver as imagens do que aconteceu ai dentro, mas não tem jeito, aquele dia está marcado em todos nós”, diz Lisandro Frederico, um ex-aluno e vizinho da Raul Brasil, uma das primeiras pessoas a ligar para a Polícia buscando ajuda naquele 13 de março.

Lisandro, como boa parte das pessoas que vivem no entorno da escola, teve dificuldades para entender o que estava acontecendo naquela manhã. Ele ainda se lembra acreditar que se tratavam de bombinhas ou algum tipo de fogos de artifício quando ouviu os primeiros tiros. “Só quando eu cheguei ao portão de casa e vi as crianças correndo, as crianças ensanguentadas, que percebi que algo mais grave e estava acontecendo”, diz ele. “Aquelas cenas continuam comigo, eu estudei nessa escola, meu pai estudou nessa escola, ela é parte de nossas vidas, até hoje eu não consigo entender exatamente o que aconteceu”.

Lisandro, ex-aluno e vizinho da escola, como boa parte das pessoas que vivem no entorno do local, teve dificuldades para entender o que estava acontecendo naquela manhã (Yan Boechat/Yahoo Notícias)
Lisandro, ex-aluno e vizinho da escola, como boa parte das pessoas que vivem no entorno do local, teve dificuldades para entender o que estava acontecendo naquela manhã (Yan Boechat/Yahoo Notícias)

Há muitas teorias sobre o que fez com que Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25, ambos ex-alunos da Raul Brasil, entrassem na escola aquela manhã e iniciassem uma matança que, até agora, parece sem propósito para os sobreviventes e para as famílias das vítimas. Bulling, desejo de fama, loucura, vingança…Nas investigações policiais chegou-se a conclusão de que Guilherme Taucci contou com a participação de um terceiro jovem, um adolescente que está apreendido, no planejamento do ataque. Em mensagens apreendidas pela polícia, esse rapaz contou que o plano inicial ainda previa que as meninas fossem despidas antes de serem mortas. A ideia era de que o ataque fosse ainda mais impactante que aquele realizado 30 anos antes na cidade americana de Columbine.

Rhyllary Barbosa dos Santos talvez nem saiba, mas seu nome está relacionado, de alguma forma, com o massacre realizado na escola de ensino médio da pequena cidade americana do estado do Colorado. Naquele 20 de abril de 1999 em que dois adolescentes mataram 11 alunos e um professor da escola, a primeira-dama americana era nada menos que a mulher que inspirou o nome dessa jovem adolescente de Suzano, Hillary Clinton. Lutadora de jiu jitsu, a brasileiríssima Rhillary contribuiu para que os dois jovens da grande São Paulo não superassem o feito dos jovens americanos. 

Ela foi uma das primeiras alunas a tentar escapar pela porta da frente da Raul Brasil. No momento da fuga, foi agarrada por um dos assassinos. “Ele tentou me derrubar, mas eu sabia que se mantivesse meu calcanhar firme como aprendi nas aulas, ele não ia conseguir”, conta ela. Ele não conseguiu. Rhillary não só evitou a sua morte, como a de muitas outros adolescentes que vinham atrás dela. Na luta, o assassino deixou cair sua machadinha, uma besta e precisou tempo para retomar os ataques. Passado um ano daquele dia, o feito, considerado heróico para muitos, se tornou um peso difícil de carregar para a jovem de 16 anos que agora busca um patrocínio para se tornar uma lutadora profissional de jiu jitsu.

Rhyllary Barbosa dos Santos foi uma das primeiras alunas a tentar escapar pela porta da frente da Raul Brasil. No momento da fuga, foi agarrada por um dos assassinos (Yan Boechat/Yahoo Notícias)
Rhyllary Barbosa dos Santos foi uma das primeiras alunas a tentar escapar pela porta da frente da Raul Brasil. No momento da fuga, foi agarrada por um dos assassinos (Yan Boechat/Yahoo Notícias)

“É como se uma nuvem negra me perseguisse desde aquela manhã”, conta ela. Sonhos, pensamentos ruins, pesadelos, angústia perseguem Rhillary. Por um tempo, ela se sentiu culpada. Achou que não fez o bastante para salvar seus amigos, para não parar os criminosos. “Não tem sido um ano fácil, as coisas não foram fáceis, comecei a querer carregar o mundo nas costas, tive problemas com minha mãe”. Ela, no entanto, acha que está conseguindo tirar coisas boas da experiência. Diz que a experiência de quase perder a vida lhe fez ver que é preciso agir, rápido, para conquistar os sonhos. “Percebi que a vida é um sopro, pode acabar a qualquer momento, como acabou para tantos colegas, agora estou focada em fazer as coisas acontecerem”.

Rhillary como os mais de 1 mil alunos da Raul Brasil não entra na escola desde outubro, quando começaram as obras de reforma. Ela e os outros estudantes agora têm aulas em uma universidade ali no mesmo bairro. O retorno aa Raul Brasil está marcado para o final de abril. Nesse momento as obras seguem. Lentamente o palco do massacre vai sendo transformado. Os muros foram pintados de branco, as mensagens pedindo paz já quase não podem mais ser vistas. Nas salas onde os crimes aconteceram, tudo será diferente. Um novo sistema de segurança será implantado para impedir que seja tão fácil entrar na escola como foi para os dois adolescentes que fizeram tantas vítimas.

Ainda assim, com todas as mudanças estéticas, será difícil para qualquer um que viveu aquele 13 de março de 2019 esquecer o que se passou ali. “É algo diferente, transformador, algo que nos acompanhará para o resto da vida”, conta Eduardo Andrade Santos, o primeiro policial a chegar aa escola. “Um deles chegou a atirar em mim, eu tentei convence-los a se entregar, mas eles preferiram morrer”, conta ele. “Eu me lembro de tudo, de cada segundo, acho que aquele dia nunca vai acabar”.

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