Marília Mendonça prometeu e cumpriu ao pedir desculpas por piada transfóbica em nova live

Equipe HuffPost
·Redação HuffPost Brasil
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Em agosto, a cantora Marília Mendonça, 25, fez uma “piada” transfóbica em um show com transmissão ao vivo e, ao pedir desculpas, prometeu que faria uma retratação formal em sua próxima live. Neste sábado (17), ela cumpriu com o prometido e abriu espaço para a modelo trans Alice Felis, 26, falar sobre.

No momento em que a live atingiu o maior pico de audiência, segundo a cantora, ela pediu desculpas novamente e afirmou que gostaria de dar espaço para “quem passa por isso todos os dias, que é a trans Alice Felis.”

Há dois meses, a sertaneja foi pressionada pela comunidade LGBT a fazer mais do que pedir desculpas nas redes sociais e entrou em contato com organizações da sociedade civil, que a orientaram sobre a condução do caso.

“Eu não vim aqui para me justificar sobre nada porque não tenho razão nenhuma. Presto muito atenção nos meus erros e tenho tentado aprender cada vez mais e me consertar”, disse Marilia. Assista ao vídeo abaixo:

Alice Felis foi brutalmente espancada no Rio de Janeiro há dois meses. Em vídeo transmitido na live, ela contou o que aconteceu com ela e agradeceu o apoio de pessoas como Preta Gil, para conseguir se recuperar.

“Por um momento eu pensei que eu seria mais uma estatística”, disse Felis. “Eu me emociono muito ao falar sobre isso ainda, porque o que aconteceu comigo foi um renascimento e uma nova chance de estar aqui novamente.”

Há dois meses, a modelo foi agredida em seu apartamento, em Copacabana, no Rio. Ela, que é natural do Espírito Santo, conheceu um rapaz em um bar e os dois decidiram ir para o apartamento dela. Ela foi espancada, teve o nariz e o maxilar quebrados. O rapaz também roubou cerca de R$ 3 mil reais.

Devido à repercussão do caso, Alice contou com a ajuda de Pabllo Vittar e Preta Gil e o youtuber Felipe Neto no tratamento físico e apoio psicológico.

Assista ao vídeo abaixo:

Relembre o que por que do pedido de desculpas

Durante live de agosto, o tecladista que acompanha a artista pediu que ela contasse a história de uma das músicas apresentadas no repertório, que envolvia um de seus músicos e teria acontecido em uma boate LGBT em Goiânia (GO).

“Sabe o que ‘tô’ achando estranho. O que a gente combinou no ensaio, que a gente ia falar, não saiu nada ainda (...) eu sei que a próxima música aí tem história, e ninguém quer falar a história, é um acontecimento”, disse o músico.

Marília desconversou, mas depois continuou a conversa. “Eu acho que ‘tô’ lembrada, foi quando um integrante nosso falou que tocava num lugar? Quem é de Goiânia lembra da boate Diesel, que tinha aqui em Goiânia.”

Os músicos da cantora começaram, então, a rir da situação. “E aí não vou falar quem e nem vou falar o porquê, vou ficar calada. Quem lembra da boate Diesel, lembra da boate Diesel. Disse... que lá foi o lugar que ele beijou a mulher mais bonita da vida dele. É só isso. O contexto vocês não vão saber.”

O guitarrista da banda afirmou então que “era mulher mesmo”, enquanto os outros davam risada. Em seguida, outro músico disse: “Calma, ninguém falou nada.”

Após os comentários, o nome da cantora chegou a ficar entre os mais comentados nas redes sociais. Fãs e críticos reclamaram da atitude não só de Marília, mas de seus companheiros de banda e apontaram transfobia na postura deles, por tratar a identidade de uma mulher trans como piada.

“Aceito que fui errada e que preciso melhorar. Mil perdões. De todo o coração. Aprenderei com meus erros. Não me justificarei”, escreveu Marília Mendonça, em agosto, após repercussão negativa do comentário nas redes sociais.

Após a repercussão, a cantora disse, também em seu perfil do Twitter, que “passou o dia todo refletindo” e que gostaria de reiterar o seu pedido de desculpas. Marília afirmou que se retratará na próxima live “com a mesma visibilidade que teve a piada sem graça”.

Nas redes sociais, a influenciadora Bruna Andrade, que é uma mulher trans, fez um vídeo intitulado: “Marília Mendonça e a transfobia explícita”, em que mostra porque os comentários feitos na live são um problema.

Em resposta, a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) emitiu uma nota em que disse repudiar os comentários e questionou:

“Imaginem as pessoas rirem porque alguém ficou com uma mulher negra? Com uma mulher gorda ou com uma pessoa com deficiência? Isso é aceitável? Zombar de uma característica que não define a pessoa? Porque que no caso das pessoas trans, a gente deveria aceitar isso?”

“Não achamos que a cantora Marília Mendonça deve ser cancelada. Ela deve ser acolhida e responsabilizada. Ela tem milhões de seguidores e tem acesso à informação e a formação que a maior parte dos brasileiros não têm. Ela influencia milhões de pessoas que a seguem”, diz a Antra que, após o pedido de desculpas, se colocou à disposição para dialogar com a cantora.

Em meio ao cenário de crise provocada pela pandemia do novo coronavírus, o assassinato de pessoas trans aumentou 70% no Brasil em comparação com o mesmo período de 2019, segundo boletim divulgado pela entidade.

Só nos primeiros 8 meses do ano, 129 pessoas trans foram assassinadas. Esse total de assassinatos registrados entre janeiro e agosto deste ano representa um salto quando comparado aos 76 registrados no mesmo período de 2019. Também supera o registrado nos 8 primeiros meses de 2018 (113) e 2017 (118).

Assim, o número de vítimas notificado até agosto deste ano já é superior aos 124 casos registrados ao longo de todo o ano de 2019.

Este é o quarto aumento consecutivo apresentado no monitoramento bimestral realizado pela entidade neste ano. Na comparação com o primeiro bimestre de 2019, o aumento de assassinatos foi de 90%, no segundo 48% e no terceiro apresentou aumento de 39%, conforme publicado em boletins anteriores.

Realizado em parceria com o IBTE (Instituto Brasileiro Trans de Educação), o estudo indica que o perfil das vítimas manteve a tendência já apontada nos boletins divulgados anteriormente: todas são mulheres trans ou travestis, de maioria negra ou parda.

A Antra alerta para o impacto da pandemia para as pessoas trans. Segundo a entidade, este é um “momento singular” que agrava “ainda mais as desigualdades já existentes”.

“A vida das pessoas trans, principalmente as travestis e mulheres transexuais trabalhadoras sexuais, que seguem exercendo seu trabalho nas ruas tem sido diretamente afetadas”, diz texto do relatório. “A maioria não conseguiu acesso às políticas emergenciais do Estado devido a precarização histórica de suas vidas e não possui outra opção a não ser continuar o trabalho nas ruas, se expondo ao vírus e consequentemente a violência transfóbica.”

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Este artigo apareceu originalmente no HuffPost Brasil e foi atualizado.