"Rei do Botão" já morou na rua, desistiu de ser mulher trans e relembra amor por homem casado

Marcus Castropil relembra trajetória e fala de fim da vida (Foto: Arquivo Pessoal)
Marcus Castropil relembra trajetória e fala de fim da vida (Foto: Arquivo Pessoal)

Por Vladimir Maluf (@vladmaluf)

Marcus Castropil ficou conhecido na internet por falar abertamente sobre sexo anal -- e sobre o próprio "botão, que é rosa salmão", como ele afirma e reafirma. O empresário cria produtos eróticos e dá palestras sobre sexo. Um vídeo -- que gravou para divulgar seus itens de sex shop para distribuidores -- se espalhou pelas redes sociais em 2019.

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Desde então, o "Rei do Botão" passou a conquistar fãs, principalmente na comunidade gay, e divide com seus seguidores até quando vai receber seus "color friends" para uma noitada.

Na internet, suas histórias são sempre divertidas, cheias de mensagens positivas e com uma pitadinha de religião -- Castro, como os amigos o chamam, é católico. Mas revela, nesta entrevista, um outro lado: se diz uma pessoa solitária, admite que não é feliz e conta uma trajetória de vida nada fácil -- chora várias vezes, mas não reclama. "Sou muito grato".

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Ele se refere a si mesmo ora no feminino, ora no masculino. "É o lado mulher que ficou dentro de mim". Diz isso porque já foi Anna, mas desistiu da transição de gênero. "Talvez essa tenha sido a única vez que perdi a coragem."

A seguir, ele conta que morou na rua, como foi trabalhar em um prostíbulo na Europa, chora quando fala do homem que considera seu único amor, assassinado em um assalto, e quando lembra com saudade do seu cachorro, Puff. O bate-papo aconteceu no prédio da empresa que ele produz seus produtos, a Intt, no Morumbi, bairro da Zona Sul de São Paulo, para uma conversa de duas horas e meia. *Isso ocorreu antes da pandemia.

Marcus em suas palestras (Foto: Arquivo Pessoal)
Marcus em suas palestras (Foto: Arquivo Pessoal)

A história de Marcus, nos seus "menos de 60 anos" -- é como ele responde quando quero saber a idade que tem --, soa fantástica. Ele mesmo fala: "Parece mentira, né?". E se preocupa: "Estou falando muita bobagem?", pergunta várias vezes. Mas a insegurança passa logo: "Tudo bem, esse sou eu. Não estou mentindo. Seria feio se estivesse." E faz um pedido antes de se despedir: "Seja generoso comigo."

Você cria produtos eróticos e dá palestras sobre sexo. Mas como você começou a sua carreira?

Eu trabalhei registrado em quatro empresas. Em todas eu comecei de baixo e terminei no topo. Hoje, eu sou uma empresária, sem dinheiro, mas uma empresária, gastando mais do que tenho. Mas já carreguei caixa de Chamex [a marca de papel] na 25 de março [rua de comércio popular de São Paulo]. Perdi minha mãe quando era bebê. Ela teve câncer de pulmão grávida de mim e preferiu me ter a fazer o tratamento. Papai era casado com outra. Fazia o cheque da escola e ia embora. Ele morreu quando eu tinha 13 anos e tive que trabalhar. Era uma bichinha na Praça da República procurando emprego, de cabelo chanel, todo afetadinho. Era gago, ainda por cima. Tartamudo é o nome certo. Vendi título de clube de campo, trabalhei na Credicard e fui a melhor vendedora no país. Depois, fiz enfermagem. Achava bonito tratar as pessoas. Trabalhei nas lojas Glória. Fui fazer nota, depois trabalhei no departamento financeiro e fui chefe do contas a pagar. A empresa faliu, mas não por minha culpa.

Você também dá palestras. O que você ensina nelas?

Eu faço um stand-up comedy com as minhas histórias: "O Mundo Encantado do Botão". A vida só me ensinou assim: rindo ou chorando. Então, eu ensino desde as preliminares, sexo oral, vaginal, anal -- com prevenção, sempre -- e conto minhas experiências. Está cheio de sex coach por aí com cara de que não sabe chupar um pinto.

Você diz que conheceu o único grande amor da sua vida no trabalho. Quem foi ele?

Quando eu era jovem, me apaixonei por um homem casado. Ele era hétero, o comilão da empresa. Quando ele me viu, me deu um chute. Ele detestava gay, e eu era uma travesti, praticamente. Tomava hormônio, tinha o cabelinho bem comprido. A gente se odiou à primeira vista. O dono da empresa me disse: "Se você levá-lo pra cama, vai ganhar o carro que quiser". Na época, um Kadet conversível, mostarda. "Senão, vou te levar na Kilt [boate de São Paulo, inaugurada em 1971] e você vai transar com uma mulher". Eu aceitei, sempre louca. Foi passando o tempo e esqueci da aposta. Esqueci mesmo. Numa viagem a trabalho, em São Roque (SP), tivemos que dividir a mesma cama. Tinha mais pessoas no quarto. Rolou. Começamos um romance. Quando ganhei o carro e ele descobriu a aposta, me deu uma surra. Fiquei de cadeira de rodas seis meses. Ele me deu uma chave inglesa num piso de mármore e eu bati o cóccix. Mas ficamos juntos por muitos anos. Infelizmente, ele foi assassinado em um assalto.

Foi aí que você decidiu sair do Brasil? Para onde você foi?

Sim, mas põe só Europa, porque eu não gosto de dar muitos detalhes da minha vidinha. Aluguei uma casa compartilhada, mas era de uma estelionatária. Um dia, quando cheguei na casa, a polícia estava lá. Não pude pegar minhas coisas, pois não tinha como ir lá, não queria ser deportada. Tudo que eu tinha ficou dentro do apartamento. Não tinha onde dormir e fui parar na rua. Eu fazia assim: de dia, eu fingia que tomava sol nas praças. À noite, eu ficava andando ou na parada de coletivo, fingindo que estava esperando o ônibus. 

A vida só me ensinou assim: rindo ou chorando

Você conta que ficou morando na rua por oito meses. Como você saiu dessa situação?

Um dia, uma travesti saiu de um carro, viu minha situação e me deu um endereço. Fui. Lá é muito comum: aluga-se um apartamento, coloca cinco meninas, cinco meninos, o cliente chega, desfila um por um, ele escolhe e vão para uma suíte. Mas eu, coitado, tinha dado para um homem só. Sempre fui muito inocente. Quando chegou o primeiro cliente, a dona da casa, a Cris, viu que eu não era para aquilo. Aí, eu limpava, atendia a porta e ajudava... Até o dia que atearam fogo no apartamento. Era no térreo. Jogaram uma garrafa pegando fogo pela janela. Fui para a rua de novo, sem roupa, sem nada.

Como você fez para sobreviver nas ruas?

Arrumei um baldinho quebrado e lavava vitrine de rua, pedia esmola, fumava bituca de cigarro da calçada. Passei nove meses dormindo embaixo de caminhão. Os piolhos andavam no meu cabelo. Eu comia uma remolacha [beterraba, em espanhol] crua por dia. Até que eu tive uma salvadora, uma anja, minha amiga Suleima, querida, que trabalhava numa confeitaria. Tinha, não. Tenho. Ela está viva. Fui lavar os vidros dela, contei a minha história e ela me deu a casa dela para eu ir morar, as roupas dela para eu usar, tirou meus piolhos.

Você tinha um bom emprego no Brasil, o Kadet conversível... Como você foi parar na rua? Você não tinha dinheiro de quando estava aqui?

Tinha. Mas, quando eu perdi o único amor da minha vida, meu mundo acabou. Minha mente travou e eu fui embora com todo dinheiro que eu tinha. Cheguei no aeroporto, um taxista me perguntou como eu ia pagar. Eu disse que seria em dólar. Eu não tinha nem pesos [a moeda espanhola na época era a peceta, também chamada de peso]. Ele disse que tinha que trocar no aeroporto. Eu fui. Quando voltei, cadê o táxi? Levou todas as minhas malas. Sete malas. Pensei: "Deus quer que eu recomece a vida só com a minha frasqueira". Meu dinheiro estava na frasqueira, né? Aí fui para um hotel, fui comprando roupas e depois mudei para a casa da estelionatária que falei.

Está cheio de sex coach por aí com cara de que não sabe chupar

Quando você voltou para o Brasil, você era uma mulher. Por que você desistiu da transição de gênero?

Quando eu vim de fora, mulheríssima, tomava hormônios e tudo, eu precisava fazer um RG novo. Eu estava com uma bolsa de crocodilo preta, loira, com franja e fui lá fazer o documento. A mulher fez questão de me chamar de Marcus, bem alto, e eu fui muito vaiado pelas pessoas que estavam lá. Vi que não teria bala para aguentar aquilo. Então, cortei o cabelo, botei um jeans, um tênis e fui trabalhar. Eu me arrependo. Talvez essa tenha sido a única vez na vida que eu tenha perdido a coragem.

Você usava o nome Anna, até então, que é o nome da senhora que criou você. Ela era sua parente?

Não. Era uma grande amiga de minha mãe, lituana, faleceu na minha casa, nos meus braços, com 106 anos. Minha família não é brasileira, ninguém. Não tenho genética brasileira. Meu pai é argentino e minha mãe nasceu no Brasil, mas tinha pais italianos. Minha mãe foi expulsa de casa porque engravidou [da irmã de Marcus] de homem casado. Papai pôs ela em um apartamento e essa senhora ficou ajudando minha mãe. Quando minha mãe ficou grávida de mim, a minha "abuelita" [vovó, em espanhol], descobriu que meu pai tinha uma amante no Brasil, já tinha uma filha e estava grávida de outro. Minha "abuelita", que era queridíssima, falou: quero conhecer essa mulher maravilhosa. No dia que minha mãe ia conhecer minha avó paterna, ela morreu, no aeroporto. Antes de ir, minha mãe tinha pedido para essa senhora zelar por nós.

Está cheio de sex coach por aí com cara de que não sabe chupar um pinto

Como era sua relação com esta senhora que criou você e sua irmã?

Ela nunca me deu um abraço, mas sempre me amou. Era o jeito dela. Eu fiz essas loucuras todas e, quando sosseguei o cu, fiquei velha e consciente, determinei que ela teria os melhores anos da vida dela. Ela morreu com 106, sem doença nenhuma, com o que eu podia dar de melhor. Ela tinha tudo o que uma pessoa milionária tem hoje. Eu trabalhava em três empresas. Ela tinha empregada, enfermeiras, médicos do Sírio Libanês e do Albert Einstein [os dois hospitais conhecidos como os mais caros de São Paulo], nutricionistas. Eu maquiava a vovó todos os dias quando eu acordava. Amo vovó [abre o celular e mostra uma dezena de fotos da senhora bem idosa, maquiada, numa cama. Ela morreu há cinco anos].

Você viveu muitas coisas tristes, mas é uma pessoa alegre, faz vídeos engraçados, posta mensagens positivas no seu Instagram… Você é feliz?

Sou feliz. Sou muito grato. Eu posso dizer que já fui feliz, lamentavelmente por um tempo determinado. Se você falar para mim: "Você é feliz hoje, Castro?". Não. Hoje, eu sou grato. Mas também não sou uma pessoa triste. Conheci o submundo, e estou aqui, não tive nem catapora, nunca tive uma doença. Passei fome? Passei. Quando vovó estava ruim, perdi tudo. Eu sempre ganhei muito dinheiro. Ganho e perco. Perco, não. Gasto. Gosto de gastar. Então, não tinha o que comer, nem vovó, nem o Puff, meu cachorro de 18 anos, que morreu também faz cinco. Pegava minhas joias, meu Gucci, ia na porta de empresas para vender por R$ 50. Comprava uma marmita para ela, uma para ele, três batatas e cozinhava para mim. Perdia tudo e ficava só com essas coisas caras.

Faz cinco anos que seu cachorro morreu e você deixa a foto dele na tela inicial do celular, tem uma tatuagem com o nome dele no braço… 

O Puff… Tenho a estátua dele dentro de casa. Converso com ele todos os dias. Rezo todos os dias. Eu faço o salmo 91 e acendo velas todas as segundas-feiras para ele, para a Pupi, para a Pitu e para a Suzi, minhas três cachorrinhas de quando eu era criança. Eu acendo 12 velas. Por mais que eu seja uma pessoa depravada, eu rezo, vou na igreja. Eu acendo para a minha vovó, para o meu falecido marido, para o Puff, a Pitu, a Suzi, para o meu anjo da guarda… Para quem eu acendo? Deus pai todo poderoso… Para o meu anjo da guarda, para o Chaguinha [Francisco José das Chagas, santo não reconhecido pela Igreja Católica], para a minha vó, meu marido, para a Pupi, a Pitu e para a Suzi, para as almas… Sou muito grato.

Você levou um susto quando seu vídeo viralizou na internet? 

Nada me assusta. Fiz um vídeo só para os lojistas, como sempre faço, quando criei o "Meu primeiro anal". Porque todo mundo quer dar o cu, mas não sabe. Aí eu pensei: vou criar uma coisa, como eu fazia em casa. Eu era pobrezinha… Eu enfiava bala kiss para ficar docinho, pegava jambu e punha dentro do meu botão para adormecer. Eu pensei: tudo que eu fazia, caseiramente, eu vou fazer industrializado [pega uma caixinha e mostra o kit com: gloss anal com sabor, gel dessensibilizante e lubrificante íntimo]. Eu criei a chuca, é a única no mundo, tem patente, brasileira. Cadê chuquita? [Procura o produto, abre e mostra o saquinho com capacidade para 300 ml de água com uma cânula para a limpeza anal antes do sexo].

Você diz que não precisa beijar na rua nem falar de sua intimidade sexual, por outro lado fala abertamente sobre seu ânus e sua vida sexual na internet. Não é um contrassenso?

Sexo é saúde. Meu médico fala que meu cu é o mais perfeito que ele já viu na vida.  E sempre fiz lasers, clareamentos, meu cu é rosa salmão mesmo, não tem uma mancha. Eu faço choques para ficar bem apertado, eu faço de tudo. Tenho que valorizar o que eu tenho de melhor, que é meu cu rosa, ninguém me tira esse título. Compro creme de rejuvenescimento para ruga e passo no botão. A única coisa bonita que eu tenho é o cu. O resto já está tombado. Eu dou 367 piscadas por minuto, está contado. Eu sou considerado na Europa autoridade máxima do sexo anal.

Você diz que não é rico nem tem uma vida luxuosa. Você tem uma vida estável? Se preocupa com o futuro?

Não sou rico. Não ando de jatinho, de carro importado. Não sou apegado a coisas. Já tive muitas bolsas… Eu amo bolsas. Não acredito em estabilidade. Não guardo dinheiro. Não quero usar fralda. Não quero ir para um asilo. A vida é minha. O momento que eu achar que eu não tenho utilidade para mim mesmo, eu me desligo. 

O que você quer dizer com "se desligar"?

Eu faleço. Já dei para tanta gente, não tenho família, não tenho amor mais… Vou ficar que nem vovó em uma cama trocando fralda? Eu sei que não é fácil se jogar de uma varanda. Já me ocorreu muito. Eu sempre fui uma pessoa muito sozinha. Sempre morei em apartamentos altos, cobertura… Olhava para janela e pensava: "O que eu ainda estou fazendo aqui?". Quando chegar a minha hora, posso descansar tranquilo. Eu não tenho remorso. Não faço mal a ninguém. Sou uma pessoa de bem e eu sei que eu sou.


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