Maradona se eterniza como ídolo em murais, ruas, cédulas e estádios

Daniel MEROLLA
·4 minuto de leitura

A surpresa e a dor pela morte de Diego Maradona aos 60 anos, em 25 de novembro de 2020, reforçaram o mito de um ídolo do esporte mundial e multiplicaram as homenagens que buscam eternizá-lo.

A notícia do falecimento do lendário jogador devido a uma crise cardiopulmonar quando se recuperava de uma operação no crânio, teve um impacto planetário. Em estádios de todo o mundo foram feitas homenagens para aquele que foi um gênio, artista da bola, poeta canhoto e várias vezes campeão com a seleção argentina, Napoli, Barcelona e Boca.

No meio dos funerais, alguns fãs mudaram o nome na esquina de uma de suas casas no bairro de Villa Devoto, em Buenos Aires. As ruas Segurola e Habana foram alteradas para Diego e Maradona.

Não foi oficial, foi espontâneo. Mas municípios em todo o país já estão estudando a renomeação de vias.

Uma das homenagens mais rápidas foi a do artista plástico Alfredo Segatori, de 50 anos. Ele pintou um mural de 800 metros quadrados em uma parede no bairro de La Boca, perto da histórica Bombonera, onde Maradona vestiu a camisa 'albiceleste' em 1981 e onde está seu camarote vitalício de torcedor.

"Agora vou dizer que tenho uma religião, a de Diego. Um pouco de fantasia, metáfora e imaginação", disse Segatori.

- Quanto vale 'um Maradona'? -

O culto não tem limites. Uma senadora apresentou um projeto de lei para imprimir cédulas de 1.000 pesos (11 dólares), com a imagem do astro de um lado e "o momento do segundo gol contra a Inglaterra (2-1), feito no México, no dia 22 de junho de 1986, do outro".

"O mito já estava vivo com sua vida e, no entanto, agora começa a narração de uma lenda", analisou o filósofo e apresentador Darío Sztajnszrajber.

Uma ideia que foi diluída foi a de embalsamar seu corpo. Ao que parece, era uma vontade de Maradona expressa em documento sem valor testamentário. Ele queria ser exibido em um museu junto com óculos, camisetas e outras lembranças.

Outra homenagem foi proposta por um de seus filhos, Diego Maradona Sinagra: "Seria bom aposentar a camisa '10' dos times onde meu pai jogou, incluindo o Barcelona", que atualmente está sendo usada pelo astro argentino Lionel Messi.

- Como Gardel, Evita e Che -

A adoração já acontecia quando o ex-capitão da Albiceleste era vivo. Por ocasião de seu aniversário, no dia 30 de outubro, uma estátua e um mural foram inaugurados em uma esquina do bairro La Paternal, onde morou com seus pais e irmãos e onde nasceu o Argentinos Juniors, primeira equipe em que Maradona brilhou e cujo estádio foi batizado com o nome do ídolo anos antes de sua morte.

Na semana passada, o Estádio Único de La Plata foi batizado em sua homenagem, a cidade onde ele comandou o Gimnasia y Esgrima até sua morte. Como era de se esperar, a mesma iniciativa foi adotada na 'casa' do Napoli, clube italiano onde Maradona brilhou e é venerado como San Genaro.

- Altares e murais -

Cerca de 250 km ao norte de Buenos Aires, em uma rua da cidade de Gualeguaychú, palco de um famoso carnaval todos os anos, alguns amigos pintaram um grande mural.

"Maradona tocou a alma de todos nós, faz parte da nossa identidade como povo argentino", disse um dos artistas, Diego Abu Arab.

Um altar foi instalado sob a tribuna do estádio do Newell's, na cidade de Rosário, único time do país em que jogaram os dois camisa 10 argentinos mais famosos: Maradona e Messi.

"Morreu um mito que fazia parte da cultura popular argentina. O futebol pode ter um poder semelhante ao da religião porque se move no campo das crenças e dos afetos", disse o sociólogo e escritor Pablo Alabarces.

Em La Quiaca, ao norte, na fronteira com a Bolívia, o artista Piry Avelino, ao ouvir a triste notícia, pintou dois murais, um em que Maradona ergue a Copa do Mundo e outro em que canta o hino. "Eu os fiz na parede externa da minha casa", contou ele.

Enquanto seus ex-sócios, filhos e irmãos começam a disputar na justiça a herança do astro, também surgem ideias sobre como criar homenagens lucrativas.

Buenos Aires programa um circuito turístico, "levando em consideração tantos lugares emblemáticos de sua vida", disse Gonzalo Robredo, da agência de turismo comunitário.

Maradona agora ocupa um lugar mítico na Argentina ao lado de Carlos Gardel, Evita Perón e Che Guevara.

dm/nn/ol/aam