Manifestação antirracismo termina tranquila em SP e mantem pauta contra o racismo nas ruas

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Manifestações deste domingo (14) na Avenida Paulista, em São Paulo (Pedro Borges/Alma Preta)
Manifestações deste domingo (14) na Avenida Paulista, em São Paulo (Pedro Borges/Alma Preta)

Texto: Pedro Borges e Guilherme Soares Dias | Imagem: Pedro Borges

Cerca de duas mil pessoas participaram de manifestação “vidas negras importam”, convocada pelo movimento negro em São Paulo, que também pediu a queda do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O ato começou às 14h no vão do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e seguiu pela Avenida Paulista de forma tranquila, acompanhada por centenas de policiais. Esse foi o terceiro domingo seguido de atos, que começaram após a morte do motorista George Floyd, nos Estados Unidos, e ganharam pautas locais, como o fim da polícia militar e lembrança das mortes de pessoas negras pela polícia no Brasil.

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A maior parte das pessoas que estavam nas ruas neste domingo eram negras, integrantes de torcidas organizadas e de movimentos negros. Os termômetros marcavam 17 graus e ventava bastante na região da paulista. Os organizadores pediam para as pessoas manterem distância e lembravam da importância do uso da máscara, por conta da pandemia do novo coronavírus.

Os protestantes responsabilizavam o presidente Bolsonaro pela morte da vereadora do Rio Marielle Franco em março de 2018. “Marielle perguntou quantas mais tem que morrer”, questionavam. A família Bolsonaro foi chamada de “quadrilha” e de “milicianos” e os manifestantes lembraram ainda a possibilidade do Brasil viver um novo AI-5, Ato Institucional nº 5, que durante a ditadura militar estabeleceu poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou como tal considerados. Os gritos ressaltaram ainda que a polícia militar age de forma autoritária na favela, mas é ‘mansinha’ em Alphaville. As diversas mortes de pessoas negras pela PM negras fizeram com que os manifestantes pedissem o fim da instituição. "Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar", gritaram.

Nomes de pessoas negras mortas, como Luana Barbosa, Miguel, João Vitor, foram lembrados junto com a palavra “presente”. Uma bandeira preta com a inscrição “vidas negras importam” vinha a frente dos manifestantes que pediam “poder para o povo preto”. Bandeiras antifascistas e pedindo a queda do presidente Bolsonaro também foram levantadas por quem foi as ruas. Na frente da Federação da Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), os participantes soltaram fumaças das cores da bandeira do Brasil: verde, amarelo e azul.

Ediane Maria do Nascimento, que integra o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), lembra que a junção das torcidas organizadas e movimentos negros e sociais é inédita em protestos no Brasil. "Todos estão lutando pelas nossas vidas. A principal pauta são as vidas negras. Ou a gente morre de fome ou pela pandemia", ressalta, lembrando que as pessoas que foram para a rua, não tiveram escolha de ficar em casa. "Precisamos ter mais pessoas lutando pelas nossas vidas", reforçou.

Simone Nascimento, do Movimento Negro Unificado (MNU), lembrou que o ato teve como foco as vidas negras como importante para garantir a democracia no Brasil. "O MNU já pautava há 40 anos que não podia ter democracia real, enquanto tivesse sangue negro nas favelas. Estarmos na rua com torcidas que colocaram como central a importância do movimento negro brasileiro estar à frente da luta antifascista. A manifestação tinha palavras de ordem em prol das vidas negras", afirma. Ela lembra que nenhum manifestante estava confortável nas ruas, por conta da pandemia do coronavírus, mas pautar a vida das pessoas negras, tornou-se primordial. "A luta antirrascista não é só das pessoas negras. Se houver a preservação das vidas negras, nenhuma vida vai ficar para trás", pontuou.

Danilo Pássaro, coordenador do movimento Somos Democracia, lembrou que o presidente Bolsonaro (sem partido) deu entrevista hoje tentando deslegitimar protestos. “Ele nos chama de terroristas e de violentos, de baderneiros. Mas aqui está o verdadeiro povo brasileiro: preto, da periferia, que é trabalhador e que vem para a rua lutar contra o racismo, o fascismo, pela democracia, pela verdade, pela vida e pela justiça”, ressaltou.

O ato terminou por volta das 16h30 na Praça Oswaldo Cruz, na região do Paraíso. Esse foi o mais tranquilo dos três protestos consecutivos pelo fim do racismo, que ocorrem a cada domingo em São Paulo.O primeiro ato foi em 31 de maio, na Avenida Paulista e o da semana passada (7) reuniu cerca de 10 mil pessoas no Largo da Batata, em Pinheiros. Ainda não há manifestação convocada para o próximo domingo, mas os organizadores afirmam que novo ato deve ser divulgado nos próximos dias.

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