Mandela é surfista de alma

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Nelson Mandela (Louise Gubb/CORBIS SABA/Corbis via Getty Images)
Nelson Mandela (Louise Gubb/CORBIS SABA/Corbis via Getty Images)

Se Nelson Rolihlahla Mandela fosse vivo, hoje ele completaria 101 anos. Essa data pode passar despercebido no Brasil. Em 2009, a Organização das Nações Unidas transformou o 18 de julho em uma data comemorativa. O “Dia Internacional de Nelson Mandela” é um reconhecimento da contribuição de Mandela para a cultura da paz e da liberdade.

Sentimentos que são compartilhados pelo surfe, um esporte que esteve na vida do líder sul-africano de uma forma única.

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Madiba, como era conhecido, passou 19 anos em uma prisão na ilha de Robben. A vida encarcerado tinha alguns intervalos de pausa para serviços que os detentos faziam, tais como recolher algas do oceano. O canal entre a ilha e a Table Bay, na Cidade de Cabo é considerado um santuário da natureza. Curiosamente, da cela 46664, que Mandela habitou por quase duas décadas, era possível ver golfinhos, as ondas e os surfistas

Costa de Robben Island e, ao fundo, a Cidade do Cabo (Frederic Soltan/Corbis via Getty Images)
Costa de Robben Island e, ao fundo, a Cidade do Cabo (Frederic Soltan/Corbis via Getty Images)

:: FUGA PELO MAR

Enquanto observava a vastidão do mar dentro da cela com quatro metros quadrados, o ex-presidente não saiba, mas aqueles surfistas ali embaixo tramavam um plano.

Na verdade, tudo começou através de um jornalista-surfista. Editor do Cape Times, Tom Heard era anti-apartheid e amigo pessoal de Madiba. Em um dia, pegou o barco com um amigo para chegar à ilha. De lá, surgiu a ideia:

“Os prisioneiros costumavam colher algas no litoral. Pensei, ei, por que não remar tranquilamente através da costa, camuflados pelas algas marinhas, talvez na escuridão da noite, escondemos ele e colocamos ele num longboard. Remamos até a rota de navio e o colocamos num cargueiro estrangeiro e o tiramos da África do Sul!”

Relato de Tony Heard, ex-editor do Cape Times

O plano também é citado por outro ativista dos direitos civis e também jornalista Donald Woods. Em seu livro Rainbow Nation Revisited, o autor relata que conversou com Heard e temia pelo fracasso da fuga. Afinal, havia dúvidas se Mandela conseguiria remar por um longo período.

:: ITENS PESSOAIS: UMA PRANCHA

Em quase todos os seus registros, o ex-presidente da África do Sul não citou a relação que tinha com o mar, tampouco surfe. Exceto em um.

Ao sair da prisão em 1990, Mandela enviou, para seu assessor pessoal, uma lista de itens pessoais a recolher em sua última prisão. Entre chapéu, papeis e até uma bicicleta ergométrica, surge uma curiosa menção: surf bord. Em africâner, só há uma tradução: prancha de surfe.

Manuscrito de Mandela listando seus itens pessoais na prisão (Museu Nelson Mandela)
Manuscrito de Mandela listando seus itens pessoais na prisão (Museu Nelson Mandela)

Até onde se sabe, o líder mundial era nadador na juventude e sempre foi muito ativo. Será que, enquanto via as esquerdas de Robben Island quebrarem ele gostaria de entrar no mar?

Nunca saberemos, mas o surfistas da região fizeram dele o dono do pico. Em 1998, os surfistas de ondas grandes Ian Armstrong e Cass Collier fizeram uma sessão de surfe no local.

“Foi uma sessão histórica e muito simbólica. Preto e branco surfando livremente juntos e, ao mesmo tempo, empurrando os limites do seu surfe”

Nic Bothma, fotógrafo - em entrevista para ZigZag

As ondas quebravam furiosas nas pedras em frente ao presídio desativado (e transformado em museu). Dentro do mar, os surfistas discutiam sobre qual seria o melhor nome. Entre Prison Break, Esquerda de Robben Island e Onda do Madiba, o vencedor foi a esquerda do Madiba.

Ian Armstrong e Cass Colier no dia do ‘batizado’ da Madiba’s Left (Arquivo pessoal)
Ian Armstrong e Cass Colier no dia do ‘batizado’ da Madiba’s Left (Arquivo pessoal)

Nunca saberemos se Madiba fugiria remando, mas ele fez História em terra firme. A misteriosa versão surfista de um dos maiores líderes do século nos traz um exercício de imaginação. Seja pelo o que Mande construiu ou por aquilo que sempre ficará no abstrato, ele sempre será lembrado.

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