Major mostrou que 'nova' MIBR pode voltar ao topo

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MIBR durante as quartas de final do major (Norbert Barczyk/PressFocus/MB Media/Getty Images)
MIBR durante as quartas de final do major (Norbert Barczyk/PressFocus/MB Media/Getty Images)

Por Felipe Guerra (@guerraesports)

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Foi assim que Epitácio “TACO” de Melo definiu, em publicação no Instagram, a experiência de sua primeira competição defendendo a MIBR com antigos companheiros de equipe, e também as expectativas para os próximos meses.

O título da IEM Katowice 2019 não veio, mas a estreia no major também ficou longe de ser decepcionante.

A MIBR, composta por Gabriel “FalleN” Toledo, Fernando “fer” Alvarenga, Marcelo “coldzera” David, Epitácio “TACO” Pessoa, João “felps” Vasconcellos e o coach Wilton “zews” Prado, caiu na semi-final.

A equipe foi eliminada pela Astralis, melhor time do mundo, que conquistou o título no dia seguinte. Com a derrota na semi-final, os brasileiros levaram US$ 70 mil (R$ 264,8 mil) para casa.

É difícil a comunidade não ter expectativa sobre os jogadores brasileiros, já que quase todos já têm dois majors no currículo, mas essa foi apenas a primeira competição de um time que, apesar de já ter jogado junto anteriormente, também precisará se adaptar aos novos tempos.

O Yahoo Esportes destacou tópicos que merecem atenção para falar dos aspectos positivos e negativos da participação da MIBR nesse major, e também sobre os desafios do futuro.

Resumo da trajetória na competição

Com um núcleo de jogadores que garante presença em majors há quatro anos sem precisar participar de qualifiers, a MIBR continuou a tradição durante a IEM Katowice e já garantiu seu lugar no StarLadder Berlin Major, que será realizado em agosto e setembro.

A estreia desses brasileiros na competição assustou um pouco. O primeiro confronto, contra a norte-americana Cloud9, resultou em uma derrota por 16 a 3. Nessa partida, disputada na Inferno, a MIBR conseguiu 38 abates em 19 rounds, menos da metade dos 81 registrados pela Cloud9. Coldzera, que registrou os melhores números em seu time, obteve apenas 12 abates. Foi uma estreia apática.

Depois disso, os brasileiros só voltaram a perder um mapa na semi-final, mesma ocasião em que foram eliminados.

No mesmo dia da estreia, o time conseguiu demonstrar um jogo bem diferente contra a compLexity Gaming ainda no início, quando TACO e coldzera – a famosa dupla ‘TACOLD’ – venceu o pistol round contra cinco oponentes. O jogo, disputado na Mirage, terminou em 16 a 9.

No dia seguinte, os brasileiros venceram os franceses da G2 na Inferno por 16 a 12. Coldzera brilhou e garantiu 35 abates.

A partir disso, todos os jogos foram disputados em melhores de três mapas. A partida contra a Ninjas in Pyjamas contou com um primeiro mapa (Train) imponente, que terminou em 16 a 6. O segundo (Inferno), muito mais disputado e que poderia ter ido à prorrogação, acabou em 16 a 14. Com a vitória, a MIBR garantiu lugar nos playoffs e também uma vaga no próximo major.

O jogo contra a Renegades, nas quartas de final, contou com um mapa bastante tranquilo e outro que precisou de uma bela virada. Enquanto a Dust2 terminou com um convincente 16 a 6, a Train começou com a Renegades fazendo 10 a 1 em cima da MIBR. Ainda assim, os brasileiros, que já tinham um mapa de vantagem, mantiveram a calma e fecharam o jogo em 16 a 12.

No dia da eliminação, os brasileiros chegaram muito perto de vencer pelo menos um mapa contra a Astralis. Apesar do equilíbrio na Overpass, mapa escolhido pela MIBR, os dinamarqueses venceram por 16 a 14. Na Inferno, a situação foi outra. Sem sentir qualquer pressão, a Astralis fechou o jogo em 16 a 7 e eliminou os brasileiros.

O entrosamento

Time reunido antes de partida no main stage (ESL/Bart Oerbekke)
Time reunido antes de partida no main stage (ESL/Bart Oerbekke)

Depois da estreia conturbada no major, cheia de desencontros, com muitas entradas lentas e já sem recursos para facilitar a conquista do round, pairou a dúvida sobre quão entrosada estava a equipe. Nos jogos seguintes, no entanto, restou a certeza de que a comunicação fluiu bem em pelo menos grande parte do evento.

Não é para menos: por mais que essa tenha sido a primeira competição desde o reencontro dessa line, eles fizeram um bootcamp de três semanas. Nesse tempo, provavelmente puderam sentir bem tudo que mudou em cada jogador desde a última vez que a equipe esteve junto. E muito aconteceu com cada um deles.

FalleN, fer e coldzera convocaram vários jogadores para tentar fazer a MIBR chegar ao topo, inclusive Tarik “tarik” Celik e Jacky “Stewie2K” Yip, além do coach Janko “YNk” Paunović, com quem precisaram se comunicar em inglês.

TACO passou oito meses na Team Liquid e, apesar de não ter conseguido conquistar o mundo enquanto também aprimorava sua comunicação em inglês, ajudou o time a se estabelecer no terceiro lugar no ranking mundial durante grande parte de 2018. Ele foi companheiro de zews, que, por sua vez, passou dois anos atuando como coach da Team Liquid. E felps, por fim, passou 2018 atuando com outros jogadores brasileiros desde sua saída da SK Gaming (cujo núcleo viria a se tornar MIBR em junho).

Com essa mudança de repertório dos jogadores, o time acabou mudando bastante e precisará de tempo e paciência para chegar ao ápice do entrosamento. Mesmo assim, eles começaram o ano mostrando que pretendem lutar pelo topo e tiveram vários momentos de destaque tanto individual quanto coletivo.

Qualidade individual

Nesse major, os cinco jogadores se destacaram e garantiram a devida ajuda ao time em algum momento.

Todos garantiram pelo menos 1 de rating (pelo sistema desenvolvido pelo portal HLTV.org, jogadores com mais de 1 de rating em um mapa específico tiveram uma boa partida) em vários mapas. Por mais que esse dado não envolva todos os aspectos dos jogadores profissionais (como a qualidade das informações obtidas por determinado jogador que pode ter morrido para obtê-las), ele é o melhor indicador de nível individual de jogo disponível no momento.

E, nesse aspecto, coldzera e fer foram os grandes destaques da MIBR.

Coldzera teve rating acima de 1 em sete dos nove mapas disputados. Ficou com rating abaixo de 1 apenas no primeiro e no último mapa do major (contra a Cloud9 e contra a Astralis), mas, ainda assim, garantiu 0.93 e 0.96 nesses momentos – são números relativamente bons em derrotas (ainda mais levando em conta que os brasileiros fizeram poucos rounds nesses mapas).

Coldzera durante partida no major de Katowice (ESL/Jennika Ojala)
Coldzera durante partida no major de Katowice (ESL/Jennika Ojala)

Além disso, ficou com rating bem acima de 1 em cinco ocasiões: 1.35 contra a compLexity Gaming, 1.68 contra a G2, 1.36 e 1.49 contra a Ninjas in Pyjamas e 1.43 no primeiro mapa contra a Renegades.
Fer ficou com 1 ou mais de rating em seis dos nove mapas jogados, e com rating bem acima de 1 em cinco deles: 1.60 e 1.32 contra a NiP, 1.79 e 1.32 contra a Renegades e 1.26 no primeiro mapa contra a Astralis.

Felps e TACO alcançaram pelo menos 1 de rating em cinco mapas, enquanto o capitão FalleN alcançou a marca em quatro. Felps foi o único jogador da MIBR a ter pelo menos 1 de rating em ambos os mapas jogados contra a Astralis, seu algoz no major.

Entre os momentos de destaque dos jogadores, há a sequência de quatro abates feita por TACO contra a Renegades na Dust2.

Contra a NiP, coldzera garantiu três abates com uma Desert Eagle durante um round forçado.

Nesse mesmo mapa, fer garantiu um ace no primeiro round da segunda etapa.

O cenário atual

Os brasileiros (com diversas lines, mas principalmente com o núcleo composto por FalleN, coldzera e fer) demoraram bastante para chegar ao topo. Foram três eliminações em majors em 2015 até eles levantarem o troféu da MLG Columbus em abril de 2016 (já com TACO e zews).

Apesar dos momentos de glória em 2016 e 2017, não se pode ignorar a grande luta que foi para eles se adaptarem ao jogo dos melhores times do mundo e conquistarem o mundo. E, mesmo com todo o respeito que o mundo tem pelo Brasil atualmente, os brasileiros novamente precisarão correr atrás dos melhores para poder ultrapassá-los.

No momento, a Astralis se estabeleceu confortavelmente como melhor time do cenário. Segue sendo objeto de intenso estudo dos oponentes e, ainda assim, continua conquistando a maioria dos títulos sem sentir muita pressão. Até por isso, esse também é o time para o qual todos devem estar preparados para perder sem que isso prejudique o projeto das equipes, que poderiam se frustrar por não conseguirem derrubar os dinamarqueses.

É por isso que, apesar da eliminação, os brasileiros seguiram de cabeça erguida pela derrota. Além de ser a primeira competição desde a reunião dessa line, eles caíram para o melhor time do mundo e ainda tiveram um mapa muito disputado. O segundo mapa, Inferno, já é a segunda casa da Astralis (atrás da Nuke, onde não perdem há 34 jogos), que não perde lá há 15 partidas (a última derrota foi justamente para a MIBR em novembro de 2018).

Outros times também têm grande interesse e potencial para chegar ao topo. A Natus Vincere, por exemplo, vive um momento que pode variar entre o promissor e o frustrante, tendo em vista o grande potencial da equipe – principalmente por conta da presença do ucraniano Oleksandr “s1mple” Kostyliev, melhor jogador do mundo em 2018, e do russo Denis “electronic” Sharipov, quarto melhor do mundo.

O time vem batendo na trave em diversas ocasiões – exceto na BLAST Pro Series: Copenhagen 2018, único título em oito meses -, o que leva a comunidade e o próprio time a questionarem a continuidade da formação atual.

Danylo “Zeus” Teslenko, por exemplo, chegou a apontar que poderia se aposentar dependendo do andamento de sua carreira durante 2019. S1mple, por sua vez, poderia garantir seu lugar em outras organizações que, em tese, seriam promissoras – e, no fim, ele decidiu seguir com a Na’Vi.

Apesar da frustração, é um time que vem chegando próximo do topo em diversas competições e que, com alguma mudança fundamental (seja alguma boa alteração na line, seja no necessário aprimoramento do entrosamento da equipe atual), poderia começar a destronar a Astralis em parte dos campeonatos.

A Team Liquid, por sua vez, cresceu durante 2018, foi reformulada após a saída de TACO e zews (e a chegada de Stewie2K e do coach Eric “adreN” Hoag) e chamou atenção já no começo de 2019, depois de vencer a Astralis na final da iBUYPOWER Masters em uma melhor de três. O jogo começou com os dinamarqueses fechando o primeiro mapa com um convincente 16 a 4, enquanto a Liquid garantiu o segundo e o terceiro mapa com o mesmo placar, 16 a 11.

Não à toa, parte da comunidade apostou na equipe norte-americana como mais forte candidata ao título da IEM Katowice 2019. A equipe caiu nas quartas de final para a ENCE, que também derrotou a Na’Vi na semi.

ENCE, por sua vez, chamou grande atenção desde a etapa qualificatória da IEM Katowice 2019. Se, no começo do ano, o portal HLTV.org elencava o time como o 12º melhor do mundo, sua trajetória até o último fim de semana, quando disputou a final do major, levou a organização à quarta posição – tomando justamente o lugar da MIBR.

Não se sabe se o time continuará apresentando o mesmo alto nível de CS testemunhado nesse major ou se esse foi apenas um momento atípico de brilho, mas, de qualquer maneira, a MIBR certamente se deparará com a line finlandesa durante o ano e provavelmente não terá jogos fáceis.

Também há outras equipes que certamente podem complicar a vida dos brasileiros no decorrer do ano. Um exemplo é a FaZe Clan, por exemplo, que está no sexto lugar entre os melhores times do mundo nesse momento. É um time cheio de estrelas, como Olof “olofmeister” Kajbjer, Nikola “NiKo” Kovač e Ladislav “GuardiaN” Kovács, mas que vem se deparando com grandes dificuldades para impor seu jogo (ainda mais levando em conta as expectativas criadas sobre essa equipe).

Astralis comemora o segundo título de major seguido (Norbert Barczyk/PressFocus/MB Media/Getty Images)
Astralis comemora o segundo título de major seguido (Norbert Barczyk/PressFocus/MB Media/Getty Images)

O que esperar nos próximos meses?

Apesar de ser importante lembrar que essa foi apenas a primeira competição dessa line, não se deve ignorar elementos que podem vir a se tornar um problema.

Todos os jogadores ali têm muita experiência, e naturalmente a expectativa é que o entrosamento do time se aprimore com o passar dos meses e dos campeonatos, que os jogadores se adaptem e façam demonstrações ainda mais contundentes sobre seu desejo de voltar ao topo do mundo.

No entanto, isso pode não vir sem desafios. Se em algum momento o desempenho do time decair drasticamente, isso poderá prejudicar a moral do time e o clima da convivência e levar a situações mais extremas, como novas mudanças na line.

Apesar do feliz e esperado reencontro da maior parte da equipe que faturou dois majors – FalleN, coldzera, fer, TACO e zews -, também não se deve esquecer que felps não foi o único jogador cogitado a preencher a última vaga do time. Por esse motivo

Além disso, MIBR não é o único time interessado em derrubar a Astralis. Outros times, como Natus Vincere, Liquid e FaZe, seguirão tentando evoluir e poderão complicar ainda mais a vida dos brasileiros.

Próximos compromissos

Ainda em março, a MIBR terá dois outros compromissos: a WESG, competição anual realizada na China com equipes compostas por jogadores de uma única nacionalidade, e a edição brasileira da BLAST Pro Series, que será realizada em São Paulo.

Findado o major, o time já começou outro bootcamp para se preparar para a WESG, que será realizada entre os dias 11 e 17 de março. O compromisso em São Paulo, por sua vez, acontecerá entre 22 e 23 de março.

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