Mais maduro na NBA, Raulzinho se vê pronto para liderar seleção

ALANA AMBROSIO
Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Aos 27 anos de idade, Raul Neto se familiariza com o novo. Em sua quinta temporada na NBA, deixou o montanhoso estado de Utah para jogar a três mil quilômetros de distância, na Filadélfia (Pensilvânia).

A mudança do Jazz para o 76ers veio também como uma nova perspectiva: o Sixers é um dos favoritos ao título da conferência leste, e por causa disso o armador pode se considerar mais perto do anel de campeão -já conquistado por outros três brasileiros: Tiago Splitter, Anderson Varejão e Leandrinho Barbosa.

Mais experiente, ele se prepara também para um outro desafio na carreira: liderar a seleção brasileira em torneios internacionais. A renovação de atletas se faz necessária à medida que as referências envelhecem.

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Neste ano de 2020, marcado pela Olimpíada de Tóquio, Alex Garcia terá 40 anos, Leandrinho e Varejão, 37. A base que o torcedor está acostumado a ver há duas décadas terá que ser renovada em breve.

Raulzinho diz à reportagem saber que, quando isso acontecer, boa parte do protagonismo será dele: "Acho que a responsabilidade cresce com a saída de jogadores desse nível, que carregaram a seleção por tanto tempo. Eles ainda não saíram, mas essa transição de gerações faz a responsabilidade fica ainda maior. É uma responsabilidade boa, venho me preparando há muitos anos".

O torneio pré-olímpico será disputado em junho, em Split, na Croácia. Os adversários serão o time da casa, a Alemanha, a Rússia, a Tunísia e o México. Apenas a melhor entre as seis equipes vai ao Japão.

No Copa do Mundo de basquete, disputada na China, em setembro passado, o Brasil foi do céu ao inferno. Teve 100% de aproveitamento na fase de grupos, quando enfrentou Nova Zelândia, a temida Grécia e Montenegro, mas acabou eliminado pela inesperada derrota contra a República Tcheca, seguida pelo revés diante dos EUA.

Com uma lesão no tornozelo esquerdo, Neto não acompanhou a seleção. "Petrovic queria contar com todos. Sempre estive na seleção, desde os meus 15, 16 anos, e a dispensa veio por uma questão alheia à minha vontade. Tudo foi conversado, eu estava em contato com a comissão, passei minhas férias em tratamento e fiquei chateado de não poder ir ao Mundial da China", explica.

O tempo de tratamento compensou. Atualmente, o armador é o brasileiro com mais destaque na NBA, em um ano de poucos representantes -apenas ele e Bruno Caboclo, pelo Memphis Grizzlies, estão atuando com regularidade na liga.

Nenê (Houston Rockets) e Cristiano Felício (Chicago Bulls) sofrem com lesões. Didi, selecionado neste ano pelo New Orleans Pelicans, foi enviado pela equipe para jogar na Austrália antes de iniciar sua trajetória na NBA.

Com média de 11,2 minutos por partida em 30 jogos, Raul tem sido constantemente utilizado na rotação saindo do banco.

Sua altura, 1,85 m, destoa da do restante do time, cujo armador titular, Ben Simmons, tem 2,08 m.

Na contramão do "smallball" (jogo focado nos arremessos de três pontos) adotado na NBA nos últimos anos, o Philadelphia 76ers aposta em uma formação mais física e alta, com foco na defesa, nos rebotes e no jogo de garrafão, que remete a um passado não tão distante da liga, quando arremessadores de elite eram exceção. A equipe, com 2 metros de altura em média, ocupa a segunda posição da conferência leste.

"Não acho que temos dificuldades contra times mais ágeis, com jogadores mais baixos. Acho que temos a nossa maneira de jogar e temos que melhorar a nossa forma, em vez de adaptar ao jogo dos outros. Derrotas podem ser, talvez, até certo ponto, inesperadas. Mas isso não abala o time, não ficamos potencializando demais", afirma.

Entre essas "derrotas inesperadas", uma em especial chamou a atenção. Para o atual campeão, Toronto Raptors, no fim de novembro. O camaronês e principal jogador, Joel Embiid, saiu zerado em 32 minutos em quadra. A mesma equipe barrou a ida do Sixers às finais de conferência na temporada passada com uma cesta de Kahwi Leonard no estouro do cronômetro.

Raul destacou o apoio dos companheiros a Embiid depois disso: "Foi um jogo atípico, todo mundo sabe. Ele sair zerado... Toronto fez uma defesa muito boa, dobrando o tempo todo quando ele pegava na bola. Mas, nos jogos seguintes, ele já fez 30 pontos, ajudou o time a conquistar vitórias. Ninguém quer sair zerado, ainda mais alguém como Embiid, mas o apoio a ele foi de todos."

O camaronês é uma das caras da NBA atual. Carismático e provocador, tem uma ligação com o Brasil. "O Embiid gosta muito de futebol, a namorada dele é brasileira e ele estava no Brasil nas férias. Às vezes, a gente conversa, brinca sobre futebol, ele fala uma ou duas palavras em português comigo... Nossa relação é muito legal", conta Raulzinho.

Quando ainda jogava em Utah, Neto viu de perto o então jogador do Oklahoma City Thunder, Russel Westbrook, sofrer racismo por parte de um torcedor do Jazz. Segundo o brasileiro, o banimento permanente dele do ginásio ocorreu após uma reação ferrenha dos próprios atletas.

"Sentimos que precisávamos nos posicionar, tomar uma providência. Os jogadores conversaram com o presidente e falaram que era hora de mostrar força, e que aquilo não podia acontecer. Por isso a expulsão dele de qualquer evento que participássemos e jogos em Utah era necessário. Não há espaço para racismo", afirma.

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