Após bronze olímpico, Maicon Andrade tenta “vaquinha virtual" para voos mais altos: "É uma situação humilhante"

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Maicon de Andrade na Rio 2016. (Foto: Saulo Cruz/Exemplus/COB)
Maicon de Andrade na Rio 2016. (Foto: Saulo Cruz/Exemplus/COB)

Por Gabriel Leão

A situação dos atletas brasileiros que participaram dos Jogos Olímpicos Rio-2016 lembra a história de muitos soldados que após retornarem de guerras são deixados de lado pelo governo e sociedade, uma vez que tais atletas perderam patrocinadores e espaço na mídia. Entretanto, para o medalhista de bronze pelo taekwondo na competição, Maicon Andrade, o quadro é mais grave. Ele já entrou sem apoio financeiro e ainda hoje, após trazer a primeira medalha masculina da modalidade, precisa recorrer à “vaquinha virtual” para conquistar seu potencial pleno.

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Maicon Andrade vem “medalhando” em todas competições que participa. No entanto, o trabalho com seu técnico Rafael Valério é interrompido por não poder levá-lo para as competições internacionais. No dia 5 de outubro comprovou sua teoria ao ser campeão do GP do Canadá e em 11 de outubro vice no GP de Las Vegas ao lado do técnico, o qual conseguiu levar após conseguir um cartão de crédito para comprar as passagens, gastos que terá de pagar em 30 dias.

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Em entrevista ao Yahoo Esportes, Maicon fala da “vaquinha”, o legado olímpico brasileiro, sua jornada pessoal, a conquista da medalha e relação de importância ao ser acompanhado pelo técnico com o qual já se trabalha como é feito pelos principais atletas internacionais.

Yahoo Esportes: Em seu início de carreira, você trabalhou simultaneamente como auxiliar de pedreiro e garçom para ajudar em casa e seguir treinando taekwondo, e em 2016 veio o bronze olímpico nos Jogos do Rio. O que esta conquista significou para sua jornada como atleta?

Maicon Andrade: Foi a realização de um sonho, desde aquele tempo em que tudo era difícil, trabalhando de segunda a segunda, o sonho vivo ainda, mesmo não treinando mas com a cabeça focada em poder disputar uma edição dos Jogos Olímpicos dentro do Brasil. Estava fazendo de tudo para estar nos Jogos Olímpicos, fiz muitas coisas, abri mão de muitas oportunidades, me mudei para São Paulo, etc.

Depois que conquistei a medalha Olímpica, foi a realização de um sonho de criança. A promessa de ir para os Jogos Olímpicos foi feita à minha mãe, quando estava sentado com ela no quarto enquanto assistíamos os Jogos Olímpicos.

Foi uma realização muito grande em minha vida e aquilo mudou totalmente minha vida, meu modo até de pensar. Tem gente que fala que tudo é muito difícil, mas isto mudou muito minha vida, mostrando que se eu tenho um sonho, devo correr atrás dele e, como diz o ditado “Deus ajuda quem cedo madruga, você consegue realizar seu sonho” e foi o que eu fiz: realizei meu sonho de criança e foi uma emoção inexplicável!

Quanto à jornada como atleta, esta questão de ter sido medalhista olímpico melhorou muito minha cabeça, pois foi uma experiência muito grande, aprendi muito e hoje estou entre os melhores do mundo e representando bem meu país diante tantas dificuldades, obstáculos e superações. Isto me ajudou muito como atleta e aprendi a ter uma outra visão da questão de competir, visão de pessoas de fora de presidentes e dirigentes de confederações e comitês olímpicos, que vêm ali em certa data para querer colocar pressão nos atletas. Eu já sei lidar com tudo isto.

É uma experiência que acabei adquirindo pela primeira vez que lutei nos Jogos, e adquiri na raça. Isso foi ótimo pois me ajudou muito jogando minha pontuação para cima e assim, pude me classificar para todos os GPs até hoje. Foi uma grande experiência e aprendizado.

Muitos atletas brasileiros após os Jogos Olímpicos se viram sem patrocinadores. E também vieram cortes dos setores públicos. Passou por situação semelhante? Como isto afetou sua carreira?

Na verdade, acho que fui o único atleta medalhista olímpico do Rio-2016 que entrou e saiu sem patrocínio. Eu mal obtive patrocínio em 2016, os únicos que entraram após a medalha nos Jogos Olímpicos foram da Aeronáutica e Petrobras, que eu representei em 2016 e 2017, respectivamente.

Cheguei do zero e consegui posteriormente esse da Aeronáutica, mas mesmo assim não conseguia cobrir meus gastos em viagens internacionais. Porque entramos como sargento e não oficial, então o salário de sargento não é alto, mas é o que dava para poder ir aos trancos e barrancos nas competições internacionais. Até entrar a Petrobras, que veio depois e consegui aumentar o número de competições no meu calendário.

Depois, eu saí da Aeronáutica, mantive apenas Petrobras e Bolsa Atleta, que é o que temos. Manter-se sem um apoio financeiro como atleta é muito difícil. Não tive empresas patrocinando como outros atletas, apenas força de vontade e sonho de me tornar um vencedor olímpico.

Qual é o legado dos Jogos Olímpicos do Rio-2016?

Serei bem sincero em relação à esta pergunta. Falando por mim, o único legado que tive foi o grande reconhecimento das pessoas que já me conheciam e são fãs do taekwondo. Enfim, as pessoas que acreditaram, porque um “legado Olímpico” não tivemos.

Infelizmente, tivemos boa participação, mas não um legado olímpico como poderia ter sido. Trouxemos bons resultados para o Brasil, com todos se amando e se abraçando, tivemos de ir para Brasília, com o Presidente da República Michel Temer abraçando todos. E no dia seguinte cortaram a Bolsa Atleta de muitos, inclusive para a categoria cadetes que tinham o auxílio de R$ 300 para poder competir na regional, entrar na seleção e classificar para um internacional.

Eu, atleta Maicon, posso dizer: o Brasil não teve um legado Olímpico. Mediante problemas econômicos no país, muitas coisas do Rio-2016 ficaram abandonadas. Muito do construído com dinheiro público não teve uma devida atenção ou manutenção, virando mato.

Este ano você conquistou no Mundial em Manchester. Como avalia sua participação na competição?

Esta competição eu também sonhava muito em conquistar uma medalha, por ser uma das mais difíceis. Como já tinha ido na última edição do Mundial em 2017 em Seul, na Coréia do Sul, tiveram dois brasileiros que chegaram mais longe, até as quartas de finais, e acabaram perdendo na disputa de medalha. Foram Adrian Alves entre os leves, lutando um dia antes de mim, e eu, que já tinha vindo do outro Mundial com derrota. Tendo aquilo engasgado, eu não aguentava mais. Estava louco para lutar o Mundial para poder conquistar a medalha e foquei muito. Me dediquei e minha promessa comigo mesmo era “medalhar” em todos os grandes eventos. Graças a Deus, consegui fazer isto.

Mas, as medalhas dos Jogos Olímpicos de 2016, Mundial e Jogos Pan-Americanos de 2019, foram um sonho realizado, foram as maiores conquistas da minha vida, fora a minha família.

Treinei muito, meu treinador Rafael me fez suar muito a camisa, quebrando a cabeça, virando noites e noites estudando pra poder montar o treino e traçar as estratégias para cada adversário. Isto é bastante trabalhoso, mas deu tudo certo, fomos focados para a medalha de ouro e, por um pequeno detalhe na final, acabei perdendo.

Saí dessa competição totalmente satisfeito com o que lutei, dando meu máximo e graças a Deus trouxe uma medalha tão desejada. Essa competição foi 100%, não podendo falar nada sobre o que não fiz e deixei de fazer.

Atualmente tem encontrado dificuldades para levar seu técnico Rafael Valério nas viagens recorrendo a uma “vaquinha virtual”. Como tudo isto afeta sua performance?

Infelizmente, estou com muitas dificuldades em levar Rafael, meu técnico para as competições. Isto é muito prejudicial e me estressa muito. Me rende muitos desgastes e cansaço mental, além de noites sem dormir, por tentar arrumar recursos para poder levá-lo comigo. A importância de ele estar comigo é muito grande. Sem ele lá, fica muito difícil para poder fazer uma boa luta. Não tem como entrar para lutar e ter de pensar em cada adversário e traçar uma estratégia para cada um, é muito difícil fazer isto.

Quando você senta com outros técnicos da Seleção é muito difícil, pois você não treina com ele, ele não te acompanha diariamente. Ele pode falar "é para você entrar lá e chutar, dar seu melhor e ficar ligado”, mas isto qualquer pessoa fala e eu não preciso disso. Preciso do meu técnico, que treina comigo todos dias e de segunda a segunda, está aqui me dando treino, estudando cada adversário, montando estratégia para cada um. Porque na hora que você senta com um técnico que não é o seu, você tem que estar com todas as estratégias para cada adversário e tem momentos que você se atrapalha. Acha que está fazendo uma estratégia, mas ela é pra outro adversário.

É luta, é pressão.

Então, tem que ter o seu técnico e o mesmo já entra com tudo anotado sobre o rival em questão, e ao final da luta já falamos sobre o próximo adversário, e nisso estamos assistindo à luta. Para essa próxima luta, isto facilita conforme estou aplicando um golpe e preciso estar de cabeça boa para fazer alguma coisa e às vezes ocorre de esquecer algo. Por exemplo, o rival troca de base e chuta com outra perna. É onde ele ganha, mas quando o seu técnico está sentado ali já muda o quadro, pois temos este diálogo e confiança.

Mesma coisa de ir para guerra, te entregarem o fuzil sem as munições, você vai no escuro, mas com o técnico lá você já está preparado para a guerra podendo vir o que vier e quem quiser. Temos armadilha e munição para todo mundo e, com esta dificuldade financeira, mesmo com a bolsa-atleta e a Petrobras, infelizmente não estou conseguindo suprir minhas necessidades pessoais, muito menos comprar passagens, pagar alimentação, transportes, é tudo muito caro.

Fora que, o Bolsa Atleta se encontra ainda no processo e com isso, não estou recebendo. Só conto com Petrobras e não dá para pagar tudo para nós dois... Sem chances!

Só conseguimos comer com este dinheiro! É muito difícil e estressante, deixando a cabeça quente até nos treinos. Estou indo para o treino com a cabeça virada e pensando em uma maneira como arrumar mais dinheiro para levá-lo comigo. Já chego com um pé atrás de meus adversários, que neste exato momento estão se programando, treinando e com toda logística preparada. Só se preocupam em fazer a mala e ir para competição.

É como se estivesse começando do zero. Isto é muito ruim e desgastante. Na hora de lutar, não estou na melhor performance possível por não dormir, me alimentar, descansar devidamente e isto traz enormes desgastes e cansaço mental do qual não se sai da noite para o dia. É uma situação tão humilhante, e o pior é ver chefes de equipe, comissões técnicas e presidentes dando tapinhas nas costas e falando que nos apoiou. E a verdade não é essa, estamos lá fazendo “vaquinha virtual” pedindo ajuda para todos. A verdade é essa, e quando falo da questão de apoio é por não ter nenhum apoio. Quando o afirmo sou passado como “atleta chato”. Estou aqui explicando como funciona e não é fácil representar o Brasil.

Quais são os planos e estratégias para chegar à Tóquio-2020 e ter uma boa atuação?

Nossa estratégia é ir bem no Canada Open para o qual já vamos viajar, e de lá vamos para o United States Camp em Las Vegas, EUA. É importantíssimo ir bem em ambas as competições e ir para a Bulgária depois. Aquele GP é uma das competições mais importantes do ano. O objetivo é chegar bem lá, subir no pódio para classificar para o GP final, o qual preciso ser campeão para poder me classificar para a vaga direto pelo ranking olímpico. Estamos na luta e temos toda chance possível, preciso de meu técnico comigo e dar meu melhor para classificar para os Jogos Olímpicos. Está perto, mas falta esse investimento final para poder classificar para o mesmo.

O que falta para galgar espaços mais altos nos podiums das competições?

Bom, para chegar ao topo, para chegar ao ponto mais alto do pódio como atleta? Para mim não falta nada tecnicamente, apenas falta um investimento correto porque já fazemos nossa preparação, nos dedicamos 24 horas para representar bem o Brasil nessa competição tão grandiosa e bela.

Falta mesmo o Brasil ver que estamos lá e, além de querer comemorar conosco e falar “eu acredito”, ver aqui os momentos difíceis. O Brasil não faz isto, tem que ver primeiro o que está se passando e qual é a caminhada para chegar lá.

O Brasil tem que aprender com os outros países que não se começa lá em cima, mas sim embaixo. Então, creio que esse apoio para o atleta poder chegar ao topo, em meu caso precisamos deste investimento e conseguimos treinar melhor e focar mais no objetivo final. Estar mais tranquilo e leve, sem aquela tensão que atrapalha na carreira do atleta.

Sair do Brasil para pontuar no ranking olímpico, e saber que antes de voltar já temos inúmeras faturas para pagar pelas passagens altíssimas, é muito frustrante!
Então, como atleta medalhista olímpico, mundial e pan americano, preciso muito desse apoio financeiro para continuar buscando medalhas!

Serviço

Link para a “vaquinha virtual” de Maicon Andrade - https://www.vakinha.com.br/vaquinha/me-ajude-a-competir-por-uma-vaga-olimpica

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